Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2009: Músicas – Ruy Gardnier

1. Animal Collective “Brother Sport”
…conforme já mencionávamos em dezembro de 2008, quando a versão de estúdio vazou através de um podcast. Quem saiu no meio do show do Animal Collective no Planeta Terra pra ver Jesus & Mary Chain deve ter passado o ano inteiro se culpando. Afro-samba-rave-zabumba, “Brother Sport” é a síntese perfeita de uma banda no ápice do artesanato pop e com as antenas ligadas tanto no futuro quanto na diversidade da geografia terrestre.

2. Blue Daisy “Space Ex”
Boa parte de 2009 na eletrônica britânica foi passada tentando digerir/diluir/fundir Burial e Flying Lotus. Hud Mo, Nosaj Thing, Paul White e Ras G sucumbiram às expectativas. Quem conseguiu não só sintetizar o sentimento do primeiro e a propriedade dos beats letárgicos do segundo foi Blue Daisy, arrasa-quarteirão vindo de lugar nenhum. Trilha sonora para sonhos acordados.

3. Grizzly Bear “Cheerleader”
Dou o braço a torcer quanto a “Ready, Able”, que não elogiei suficientemente na crítica. Mas as vocalizações do refrão e sobretudo o falsete que canta “nothing changing” são emocionalmente devastadores e incansáveis. Existe um clima de softpop anos 70 e 80, mas com uma energia vulcânica traduzida em termos de ternura à Beach Boys.

4. Os Mutantes “Teclar”
A prova incontestável de que essa volta dos Mutantes é legítima, a despeito das inúmeras críticas dos fãs que suspeitaram da má-fé de Sérgio Dias. “Querida Querida” pode querer posar, mas “Teclar” é puro sentimento, uma voz incrível, uma soberba tensão estrofe-refrão e a lição pra esses moleques que ficam tentando soar vintage e apenas soam fake.

5. Dan Deacon “Snookered”
“Build Voice” e “Padding Ghost” podem ser as mais imediatas de Bromst, mas é em “Snookered” que Dan Deacon se revela por inteiro, da meticulosidade e pureza dos timbres na parte inicial à maneira como a música entra num crescendo absurdo até a catarse de colagem eletropunk.

6. Sonic Youth “Massage the History”
O Sonic Youth continua se reinventando, a gente que não percebe… porque está ali entre as últimas faixas. Já foi assim com “I Love You Golden Blue” em Sonic Nurse, é assim em The Eternal: eles deixam o melhor pro final, com um arranjo lindo de violões, Kim Gordon vulnerável e em total estado de graça, e dez minutos de atmosferas e segmentos em progressão. Uma pena que não tocaram no show em São Paulo.

7. Black Dice “Chocolate Chery”
Eles são a única banda transitando pelo meio noise/colagem que pode fazer um single com nome de doce e não ser babaca, porque é totalmente apropriado. Repo é um ótimo disco, mas é “Chocolate Cherry”, do EP homônimo de dez minutos, que fica no coração.

8. Joker & Ginz “Purple City”
O ano foi do Joker. Ele já tinha feito um dos singles decisivos de 2008, “Gully Brook Lane”. Se em 2009 ele não chegou a superar essa faixa, ao menos soube construir uma identidade com ridiculamente pouco (o timbre específico de sintetizador, uma forma própria de criar melodias ganchudas com ele, a batida hip-hop com bateria eletrônica vintage) e fez com Ginz seu single definitivamente mais acessível e suingado, “Purple City”. Foi mal, mas no wonky só teve pra ele.

9. Dirty Projectors “Stillness Is the Move”
Parte do interesse do Dirty Projectors é essa operação mórbida de desconstruir as coisas em matéria “inorgânica”, como com o Black Flag (o disco Rise Above)  ou a Nico (“Two Doves”). Com “Stillness Is the Move”, a desconstrução básica é com o hit de R&B. Agora, mais do que uma tiração de sarro, “Stillness…” soa como um r&b cubista, desenraizando clichês e criando linhas melódicas tão bonitas quanto bizarras.

10. Raekwon “10 Bricks”
DOOM mandou bem esse ano, Busdriver também mostrou a que veio, mas se Raekwon não tivesse lançado Only Built 4 Cuban Linx II, esse teria sido mais um ano a desejar em matéria de hip-hop. Mas esse disco redime o gênero inteiro, e “10 Bricks”, com sua irritante nota estridente de guitarra, com o conjunto de metais resolvendo melodicamente as tensões, e com as vozes nervosíssimas de Raekwon, Ghostface e Cappadonna, é seu mais perfeito exemplo.

11. Caetano Veloso “Perdeu”
Há uma terrível indecisão, o voto bem podia ir para “A Cor Amarela”, seu swing irretocável, o lirismo sacana-refinado, os espectros de uma música de festa que o Brasil não faz mais (bem). Mas “Perdeu” é absoluta pela solenidade do canto, pela estrutura da letra, pela concreção do arranjo. E a catarse: um fabuloso solo de guitarra ríspida e barulhenta, depois a frase “O sol se pôs depois nasceu e nada aconteceu”.

12. Animal Collective “Lion in a Coma”
A segunda escolha reflete a força que Merriweather Post Pavillion teve esse ano. Pelas listas dos outros, não foi a mais óbvia: todo mundo colocou “My Girls”, alguns foram com “Summertime Clothes”, e mesmo eu colocaria em pé e igualdade “Daily Routine”. Mas com os sonzinhos de digeridoo que abrem a faixa, com o hipnótico andamento e a poderosa ação de Avey Tare no vocal, é essa que leva. Com larga vantagem, diga-se.

13. Dorian Concept “Trilingual Dance Sexperience”
Nem dá pra acreditar que essa música existe. Aposto que o interesse dela se esgota logo, logo. Mas ela funciona como a onda de uma boa droga. Enquanto você está nela, é a coisa mais deliciosa do mundo. E pensar que o Zomby precisou de um disco inteiro ano passado pra fazer o que o Dorian Concept sintetizou em três minutos.

14. Fennesz + Sparklehorse “Goodnight Sweetheart”
Agradeço infinitamente o selo In the Fishtank ter juntado Christian Fennesz com Sparklehorse para fazer um disco. Não que Sparklehorse seja genial – não mesmo. Mas pelo menos ele deu a chance a Fennesz de criar uma balada e arranjá-la com sua guitarra cheia de efeito, psicodélica, aqui nada abrasiva ou cerebral. Fennesz nessa faixa é pura emoção e feeling, enquanto Sparklehorse vai na toada que dá nome à faixa.

15. Fulgeance “Smartbanging”
A paradinha no fim da batida é aquilo que torna totalmente legítimo o título da faixa e dá a ela um suíngue realmente envolvente. Mas Fulgeance não fez só isso: esse produtor francês soube unir apropriadamente a vibe disco dos últimos anos com os sintetizadores e os andamentos mais lentos dos britânicos que bebem em hip-hop. O resultado é uma faixa matadora.

16. 2562 “Unbalance”
Tudo levava a crer que 2009 seria a consolidação e o domínio dos produtores de dubstep que flertavam com tempos rápidos e inseriam a elegância do techno à equação estilística. Mas ao final de 2008 a house voltou com força e, funky or not, arregimentou as atenções dos novos produtores. Maior exemplo? “Hyph Mngo”. O set de Martyn já vai longe do dubstep. Quem fica? 2562, que pode ter ampliado seu repertório mas ainda consegue fazer coisas totalmente arrebatadoras, fragmentadas e imaginativas como “Unbalance”

17. Fuck Buttons “The Lisbon Maru”
Podem dizer que é fácil – sob certo aspecto, é mesmo. Podem dizer que é uma mistura de muita coisa que a gente já viu. Até é, mas o tempero tem personalidade e os ingredientes são minuciosamente escolhidos. No mais, quem diria que em 2009 um disco de shoegaze eletrônico ainda teria tamanho poder catártico e uma simples passagem de acordes teria efeitos tão épicos?

18. Romulo Fróes “Anjo”
Talvez o momento que tenha mais ficado na minha cabeça de No Chão Sem o Chão seja o refrão de “Mochila”. Mas “Anjo” foi a música que se esperava do rock esse ano e que não veio. De fora. Pratos quebrando, guitarra abrasiva enchendo o som, belos timbres e a voz de Fróes, quase apenas declamada, que fecha a tampa dando uma intensa sensação do irremediável.

19. Vindicatrix “Private Places (Shackleton & Mordant Music Mix)”
Esse remix, naturalmente, não é a escolha natural para representar a importância de Shackleton em 2009. Nesse ano, ele lançou o disco 3 EPs, split com Invasion e teve algumas faixas suas lançadas em Picking O’er the Bones. O remix de “Private Places” é desse último, colaboração a quatro mãos com Brian Mordant, e é uma nuvem de reverb como você nunca viu Shackleton fazendo.

20. Cluster “Na Ernel”
Qua pode não ter sido o grande disco que se esperava da volta de Moebius & Roedelius, mas carregava algumas grandes músicas. “Na Ernel” é talvez a mais possante delas, com programação percussiva de quebrar a cabeça, e aquela minúcia na pesquisa de timbres que se espera deles.

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