Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2009: Discos – Bernardo Oliveira

1. Three Eps – Shackleton (Perlon, Alemanha [Reino Unido])
O título sugere tratar-se de uma compilação, mas Three EPs na verdade é o primeiro álbum do inglês Sam Shackleton. Confirma o seu estatuto de produtor mais radicalmente criativo da atualidade e demonstra a evolução de seu trabalho. Se elejo “Moon over Joseph’s Burial” como uma das faixas do ano, esta é apenas uma escolha retórica, pois qualquer uma das nove faixas de Three Eps inaugura um território próprio onde o autor desenvolve seu estilo iconoclasta.

2. Merriweather Post Pavillion – Animal Collective (Domino, EUA)
Mesmo em Feels e Strawberry Jam o espaço das canções era limitado pelos experimentos que marcaram a fase inicial do grupo. Mas desta vez o approach experimental é plenamente incorporado às canções, que parecem melhorar a cada dia. Sobre esse aspecto, o Ep Fall Be Kind, lançado no fim do ano, confirma o excelente momento do grupo.

3. Acid In the Style of David Tudor – Hecker (Emego, Áustria)
O trabalho de Hecker pode ser considerado algo entre a criação musical e o experimento eletroacústico de ponta. Possui portanto um caráter científico e uma sonoridade correlata, de difícil degustação. E por que Acid In the Style of David Tudor é um dos álbuns do ano? Simplesmente porque converge de forma atraente essas duas facetas, ocasionando, nas palavras do próprio Hecker, “desorientação espacial”. Arrebatador, acachapante e até revoltante, dependendo da perspectiva.

4. Vertical Ascent – Moritz Von Oswald Trio (Honest Jons, Reino Unido [Alemanha])
Primeiro, a vanguarda techno do Basic Channel. Depois, a inspiração dub/rocksteady do Rhythm & Sound, prenunciando o dubstep. Após uma colaboração insípida com Carl Cox, Oswald recrutou o produtor e percussionista Sasu Ripatti e o também produtor Max Loderbauer para construir uma prodigiosa combinação de percussões e sonoridades eletrônicas. Desde a compilação With the Artists, com o Rhythm & Sound, o gênio de Moritz Von Oswald não lançava um disco à altura das pequenas revoluções que ele próprio capitaneou.

5. Kluster & Friends 1969-1973 – Kluster (QBico, Itália [Alemanha])
Seis elepês contendo doze faixas nunca lançadas, gravadas por Conrad Schnitzler, Klaus Freudigmann e Wolfgang Seidel  entre 1969 e 1972. Prenúncios do industrial, do dubstep e do techno. Em um ano em que tivemos álbum novo do Cluster e o relançamento luxuoso de Tracks and Traces, esta caixa vem consolidar a idéia de que estes alemães foram experimentadores decisivos nas constituição da música eletrônica contemporânea. Ao lado dos jamaicanos, claro.

6. Contrastes – Itiberê Orquestra Família (Sala de Som, Brasil)
Por mais que a música do Itiberê Orquestra Família possa ser atribuída a Hermeto Pascoal, é inegável que este grupo formado basicamente por jovens amadureceu e vem desenvolvendo interpretações de altíssimo nível. As composições são de Itiberê Zwarg, mas é o extremo talento destes instrumentistas que dá vivacidade aos contrapontos e devaneios sonoros criados pelo líder da banda. Contrastes é um álbum indispensável e único no cenário da música instrumental contemporânea.

7. Unbalance – 2562 (Tectonic, Reino Unido)
Desde os seus primeiros minutos, Unbalance diz a que veio: primeiro, “Flashback” com seu efeito de CD arranhado, depois “Lost” com sua percussividade soturna e não para mais de surpreender, passando pela obra-prima que dá título ao álbum, e outras pérolas que o fazem o melhor álbum de dubstep stricto senso do ano.

8. The Bright Mississipi – Allen Toussaint (Nonesuch, EUA)
Toussaint é um homem de façanhas. Surge como produtor e compositor de sucesso nos anos 60, torna-se importante cantor do soul americano dos anos 70, desaparece, é dado por morto no furacão Katrina, mas ressurge no Late Show With David Letterman. Quatro anos depois ele prova que se pode dar um passo atrás e ao mesmo tempo inovar. The Bright Mississipi combina repertório impecável, timbres maravilhosos e excepcional qualidade de gravação.

9. Gigantomachia – The Naked Future (ESP-Disk’, EUA)
No sentido contrário de Double Sunrise Over Neptune de William Parker, álbum de jazz do ano passado, Gigantomachia valoriza mais a percepção lógica e timbrística do free jazz do que os aspectos intuitivos. Mas não se engane o leitor, pois o som que sai das caixas é de uma fúria incomensurável, também dado a momentos reflexivos e estranhamente silenciosos. Uma obra-prima que contraria todas as teorias sobre o esgotamento do jazz.

10. Bromst – Dan Deacon (Carpark, EUA)
Dan Deacon é um assinatura, não se parece com nada, nem com Suicide, nem com Dead Kennedys, nem com Aphex Twin… Bromst é um líbelo à cultura geek, uma ode ao fim do mundo, um convite à diversão desvairada, um manifesto pela cultura livre e pela livre circulação de dados. E, claro, um agradecimento pelo nascimento do computador, essa máquina que permitiu aos seres humanos alterar consideravelmente seu espectro sonoro.

11. Repas froid – Ghédalia Tezartès ([ tanzprocesz ]; Itália [França])
Em Repas Froid o discurso músical é sequestrado pelo que poderíamos chamar de “experiência sonora”. É nítida a referência à música concreta, claro, mas somente enquanto os sons puderem ser considerados de um ponto de vista dramático. É o drama de uma existência fantasmagórica salvaguardada pela técnica. Mas é também o balde de água fria no ouvido preguiçoso diante do turbilhão de sons anticlimáticos. Um disco tão autêntico quanto difícil.

12. Non Euclidean Elucidation of Shamanic Ecstasies – Harappian Night Recordings (IKUISUUS, EUA)
Quando eu dava por certa a posição de The Glorious Gongs Of Hainuwele entre os melhores do ano, o misterioso Dr. Sayed Kamran Ali, “the man who could walk through in-between positions”, lança este Non Euclidean… Com a audição, a cautela inicial foi sendo substituída pela certeza de que a música de Ali tende a crescer dentro de uma lógica inversa a de grupos como Tinariwen e Konono N.1. Enquanto estes chamam atenção pelos elementos compatíveis com os interesses ocidentais (efeitos de guitarra e eletrificação de kalimbas), Ali incorpora ao folk, ao rock e à música eletrônica técnicas de gravação, execução e instrumentação observáveis nos registros da música africana e oriental. Se o Harappian já era intrigante no primeiro álbum, neste mostrou definitivamente a que veio.

13. Dabke 2020: Folk And Pop Sounds of Syria – Omar Souleyman (Sublime Frequencies, EUA [Síria])
Não deveríamos considerar esta coletânea arbitrária em relação às dinâmicas reais da obra de Omar Souleyman. A partir de mais de 500 fitas cassetes lançadas pelo cantor, o selo Sublime Frequencies criou uma obra coerente, porém falsa. Como nós vivemos mesmo é de mentiras, não custa suspender rapidamente o falso amor à verdade para eleger esta como a compilação mais rica e inusitada dos últimos anos. A mistura de Dabke, do Choubi iraquiano, do canto árabe “mawal” com sonoridades eletrônicas é irresistível e impressionante aos ouvidos “ocidentais”.

14. Repo – Black Dice (Paw Tracks, EUA)
O disco mais “rítmico”, palatável e “fofo” do Black Dice. Mas ao mesmo tempo aquele que carrega na capa o signo da experimentação: “go where new experiences await you”…  Faixas como “La Cucaracha”, “Earnings Plus Interest” ou “Ultra Vomit Craze” podem perfeitamente passar por vinheta televisiva ou jingle, dado o caráter lúdico e divertido com que o Black Dice manipula os ritmos, clicks e samplers. Porém, como o aspecto teen da música de Dan Deacon, a música do Black Dice não é pueril e amadurece surpreendentemente a cada disco.

15. No chão sem o chão – Romulo Fróes (YB Music/Ôlôko, Brasil)
Muito mais do que se diz por aí de muita bandinha gringa consagrada, o trabalho de Romulo Fróes permanece como uma preciosidade restrita a brasileiros. A faixa “Anjo”, por exemplo, tem muito mais a dizer sobre o rock’n’roll hoje, com sua harmonia intrincada, sua cozinha impecável e a entonação estranhamente sóbria de Romulo. Em um ano em que se consagrou o indie insípido do Bat for Lashes e Girls, o álbum de Romulo Fróes aparece como uma luz, sob diversos aspectos. Enxerga quem quer e pode, claro.

16. Opus de Life – Profound Sound Trio (Porter Records, EUA)
Andrew Cyrille e Henry Grimes já trabalham juntos há anos e se juntaram ao saxofonista britânico Henry Grimes especialmente para o Vision Festival de NY. O que me chama atenção é a síntese muito bem realizada entre uma pegada violenta e, por outro lado, o desenvolvimento gradual de minúcias e detalhes de dinâmicas e arranjo. Pudera, pois trata de três músicos experientes em termos de improvisação, três veteranos do free jazz que se reúnem para uma só noite de improvisos dos mais contundentes da atualidade.

17. Guitars from Agadez Vol. II – Group Bombino (Sublime Frequencies, EUA [Niger])
Guardemo-nos de comentar a situação política embutida na música tuareg, para dedicar breves palavras ao conteúdo musical. O Group Bombino está mais próximo do Tinariwen que do Group Inerane, o que caracteriza um acentuada vizinhança com o blues, privilegiando o verso de guitarra límpido em detrimento dos efeitos. Claro que por vezes a sonoridade se torna árida, como em “Kamu Telyat” e “Issitchilane”, mas isso se deve mais a baixa qualidade da gravação. No geral, esse Guitars from Agadez Vol. II sustenta e amplia o interesse no cenário político e musical conturbado de Agadèz.

18. Aineen Musta Puhelin/Black Telephone of Matter – Mika Vainio (Touch, Reino Unido [Finlândia])
Álbum meticuloso, ciência do ruído que explora uma região onde os sons orgânicos e inorgânicos se confundem, Aineen Musta Puhelin/Black Telephone of Matter reúne as características mais poderosas do trabalho de Mika Vainio, ou seja, o esmero na produção do ruído e a rigorosa estratificação do som em camadas e “setores”. Mas acrescenta mais uma qualidade: é um álbum em que a rispidez, manifestada no EP posterior, Teutons, é substituída por uma placidez quase reflexiva. Recomenda-se a audição nos fones de forma a possibilitar a captação de suas diversas sutilezas.

19. Seya – Oumou Sangaré (World Circuit, Reino Unido [Mali])
Oumou Sangaré é fiel representante do Mali, e não só por sua música, mas também por suas atitudes. Como Toumani Diabaté e Ali Farka Touré percorre o caminho inverso de artistas africanos que migram para a Europa, isto é: ao invés de se adequar aos gêneros já assimilados pelos europeus, impõem seus maneirismos, seu estilo, seus ritmos. Seya é mais um exemplo da pujança e da riqueza da música malinesa, a meio palmo das influências americanas e européias, mas completamente apoiada na música de sua terra natal, Wassoulou. Um álbum cuja força reside na força da música malinesa.

20. Zii e zie – Caetano Veloso (Universal Music, Brasil)
Caetano Veloso: que personagem! Aos quase 70 anos recruta a turma de instrumentistas mais esperta do Rio de Janeiro, retoma a palavra Transamba que dá título a um álbum de 1973 gravado por Marcos Moran e Samba Som Sete e grava 13 faixas dignas de seu melhor repertório. Destaque para a instrumentação sutil e inteligente, para o delicioso hit “A cor amarela” e para a tensão profundamente poética de “Perdeu”.


Outros álbuns relevantes:
Chutando o Balde – Nei Lopes, Imperial Horizon – Kevin Drumm, May08 – Billy Bao, Treeg Salaam – Group Doueh, Imidiwan Companions – Tinariwen, Treibgut – Grischa Lichtenberger, House Full Of Floors – Evan Parker, Oblivio Agitatum – Bruce Gilbert, Ununtrium RN-RHYTHM-Variations – AOKI Takamasa, Detroit – Gerald Wilson, Shall I Download A Blackhole And Offer It To You – Pan Sonic/Keiji Haino, Armonico Hewa – OOIOO, Kantarell – Spunk, Tarot Sport – Fuck Buttons, Earthly Delights – Lightning Bolt, +2 – Imã, keith fullerton whitman – Dream house variations, Brötzmann / Kondo / Pupillo / Nilssen-Love – Hairy Bones, hayward, coxon, thomas, taylor – about, Wolf Eyes – Always Wrong, Dälek – Gutter Tactics, Umsindo – Georgia Anne Muldrow, Asa-Chang & Junray – kage no nai hito, Doom – Born Like This, Great Lenghts – Martyn, Information inspiration – Mulatu Astatke & The Heliocentrics, Tantinho canta Padeirinho da Mangueira – Tantinho da Mangueira, Haih or amortecedor – Mutantes, Central Market – Tyondai Braxton, La Llama – Savath Y Savallas, The Eternal – Sonic Youth, Veckatimest – Grizzly Bear, The Dirty Projectors – Bitte Orca, Flaming Lips – Embryonic, Tyondai Braxton – Central Market, Sa-Ra – Nuclear Evolution: The Age of Love, Crystal Antlers – Tentacles, Oneida – Rated O, Phillipe Jeck – Spool, Leyland Kirby – Sadly, the future is no longer what it was, Ilyas Ahmed – Goner, John Zorn – Femina, Evangelista – Prince of True, Eliane Radigue – Tryptych, PJ HARVEY & JOHN PARISH – A Woman A Man Walked By, Faust – C’est Com Com Complique, Sir Richard Bishop – The Freak Of Araby, scott tuma & mike weis – taradiddle, The Field – Yesterday and today, Tim Hecker – An Imaginary Country, David S. Ware – shakti, matthew shipp – harmonic disorder, russell haswell – wild tracks, Actor – St. Vincent, Don’t Steal My Goat – Merzbow, Only Built 4 Cuban Linx… Pt II – Raekwon, Kage no Nai Hito – Asa-Chang & Junray, Peter Brötzmann – A Night in Sana’a, Coptic Dub – The Embassadors, The River – Chihei Hatakeyama, Genie Head Gas In The Tower Of Dreams (Jesters Midnight Toys) – James Ferraro, Vladislav Delay – Tumma, Caboladies – Crowded out memory, Chris Corsano   Another Dull Dawn, Evan Parker – House Full of Floors, Monoliths & Dimensions – Sunn O))), Lee “Scratch” Perry – Return from Planet Dub, Sepultura – A-Lex, Mad professor – Audio Illusion of Dub, 5 Years of Hyperdub, Cesária Évora – Nha Sentimento, Siba e Roberto Corrêa – Violas de Bronze, Babe Terror – Perdizes Dream, Egberto Gismonti – Saudações, Bibio – Ambivalence Avenue, Cluster – Qua, Vivian Girls – Everything Goes Wrong, Otto – Certa manhã…, Lucas Santanna – Sem Nostalgia, BLK JKS – After Robots, Staff Benda Bilili – Trés Trés Fort, Fanga – Sira Ba, Radiq – People, Uwe Oberg/Christof Thewes/Michael Griener – Lacy Pool, William Parker & Giorgio Dini – Temporary, Rogério Skylab & Orquestra Zé Felipe, No-Neck Blues Band – At 6AM We Become the Police.

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