Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2009: Discos – Ruy Gardnier

1. Animal Collective, Merriweather Post Pavillion
Esse aí já nasceu clássico. Cada música presente nesse disco apresenta um interesse imediato e a contínua audição só faz prolongar o interesse, revelando detalhes sutis e complexidades de construção. No caso de alguns grupos, fazer seu disco “mais pop” geralmente significa que a banda foi pra vala comum da música sem personalidade. Em Merriweather Post Pavillion toda a acessibilidade soa mais que natural, soa como a evolução natural do som do Animal Collective. No mais, é o único disco desse ano que eu vejo moleques, daqui a vinte anos, comentando faixa a faixa e sabendo todas de cor.

2. Hecker, Acid in the Style of David Tudor
Primeiro você tem que aceitar o jogo: ficar com a cabeça relativamente parada entre duas caixas de som minimamente afastadas uma da outra, colocar o som bem alto e esperar para ver o que ele faz com você. Com alguma rapidez você vai perceber que aqueles barulhinhos, sejam os estalos ou as frequências acutíssimas, provocarão poderosas sensações espaciais. Ou então você ignora tudo isso e simplesmente ouve. O disco vai perder 90% de seu poder, mas ainda assim conterá algumas das estruturações sonoras mais esquisitas que já se ouviu.

3. Moritz Von Oswald Trio, Vertical Ascent
Os três envolvidos na feitura desse álbum são do techno, o material é de techno, mas da estruturação do material ao nome do grupo, Vertical Ascent é um disco de jazz, incorporando a espacialidade do dub e os timbres minuciosamente talhados por três produtores exímios de música eletrônica.

4. Dan Deacon, Bromst
Sem maiores delongas, Dan Deacon é um populista. Em seus shows, ele manipula a multidão. Suas músicas são reflexo disso. Basta surgir “Build Voice” e já vem um imperativo de cantar junto, uma música catártica que pede a adesão total do ouvinte. E os sons que ele usa? Tudo vem de imaginário de desenhos animados, ringtones, música para videogame e assim por diante. Só que Deacon é um artista, e pega algumas deixas de Conlon Nancarrow para criar uma estética da velocidade e da cultura pop contemporânea, ou seja, usa seu talento para utilizar a cultura a seu proveito, e, assim, ultrapassá-la e fornecer uma visão livre sobre ela.

5. Mika Vainio, Aíneen Musta Puhelin/Black Telephone of Matter
Foi um ano cheio para Mika Vainio. Além do lançamento de Black Telephone of Matter, teve o excelente EP Vandal, o disco Trahnie, junto com Lucio Capece, e o lançamento do disco ao vivo de seu Pan Sonic junto com o mago Keiji Haino, Shall I Download a Black Hole and Offer It To You. Tudo de altíssimo nível. Mas Black Telephone Matter supera os outros pelo inesperado e pela minuciosa burilação de timbres, preciosíssimos.

6. Grizzly Bear, Veckatimest
Veckatimest pode não ser o grande passo adiante que se esperava do Grizzly Bear depois de Yellow House e do maravilhoso disco do Department of Eagles ano passado, mas mantém com excelência o grupo num nicho de pop setentista e pop barroco em que ele se refestela. O grupo pode ter restringido o naipe sonoro do disco anterior, mas se isso era necessário para que aparecessem coisas como “Ready, Able”, “Cheerleader” e “While You Wait For the Others”, eu é que não vou reclamar…

7. Dirty Projectors, Bitte Orca
Dave Longstreth tem uma longa carreira e uma trajetória totalmente errática. Ele adora inventar facetas e novos approachs de composição para exercitar sua forma excêntrica de tocar guitarra – algo como um dedilhado africano sem o suíngue e as notas alongadas – e de compor de forma deconstrituva e fragmentada. Bitte Orca é disparado o mais próximo que ele já chegou de um disco “pop”. Mas o pop dele é coisa de cabeçudo, hipercerebral. Ainda assim, consegue atingir estados emocionais notáveis.

8. Fuck Buttons, Tarot Sport
E pensávamos que estaríamos preparados para o que vinha. Como Street Horsssing, Tarot Sport também se constrói como uma grande faixa única. Só que dessa vez, a abrasividade do primeiro é substituída por sintetizadores saturados e oníricos, e a batida eletrônica ganha proeminência. Andrew Weatherall na produção faz com que a gente veja Tarot Sport como uma espécie de continuação de “Soon” filtrada pelos furacões do post-rock e do noise.

9. Black Dice, Repo
Seguisse a deixa de “Roll Up”, o Black Dice poderia estar tranquilamente desfrutando da mesma popularidade dos Fuck Buttons hoje em dia. Mas eles não estão dispostos a se entregar assim tão fácil. Repo é fragmentado, irregular, alterna momentos de enorme pegada e de completa descontinuidade. É um disco de molecagem, mas de uma molecagem desafiadora, experimentadora, que vai no caminho oposto de saciar a percepção do ouvinte.

10. John Zorn, Femina
John Zorn faz discos brilhantes. E faz muitos discos. No meio de tantos, às vezes é difícil pinçar o preferido. Não é o caso esse ano. Ainda que os outros lançamentos de Zorn em 2009 tenham sua envergadura, Femina retoma seu método de composição em fichário e cria suntuosas paragens em que um lindo trecho eufônico de piano solo pode desaguar numa gritalhada cacofônica no momento seguinte. Jazz – alguns momentos de liberdade dados às intérpretes, todas mulheres – e composição erudita se unem de maneira impressionante.

11. Raekwon, Only Built 4 Cuban Linx Pt. II
O disco de hip-hop do ano. Muita responsabilidade de Raekwon para retomar a mitologia de seu primeiro disco solo, lançado no ápice do fenômeno Wu-Tang Clan, justamente na época em que o legado do Wu-Tang só vinha sendo mantido com autoridade por Ghostface (Killah). O disco não apresenta grandes mudanças em relação à estética Wu-Tang, com samples de filmes de kung-fu, bases cheias de pressão, vocais impregnados de ameaça e letras sobre submundo. Mas Only Built 4 Cuban Linx Pt. II vibra de forma impressionante.

12. The Field, Yesterday and Today
Axel Willner poderia muito bem refazer From Here We Go Sublime. Era o que todo mundo queria. Quatro medidas de um loop, quatro medidas de outro, assim por diante, até desaguar em outros padrões semelhantes, sempre muito melódicos, sempre elegantemente montados para não serem fáceis demais, sempre levando a uma tensão com liberação de energia no momento seguinte. Ele fez tudo isso, mas também fez mais, compondo em progressão, bebendo da disco e dos grooves de baixo, chamando Lindstrom e Four Tet pra brincadeira, e além disso incorporando instrumentos tocados.

13. Caetano Veloso, Zii e zie
Adorei quando soube que Caetano Veloso tocaria com Pedro Sá e jovens músicos da cena rock carioca, buscando um som mais coeso e com pressão. Mas, ao contrário da maioria, não vibrei com . As composições pareciam travadas, monotemáticas e principalmente a dinâmica do grupo ainda parecia carecer de mais unidade e convivência. Zii e zie responde a tudo isso: é um disco solar, com incrível poder de coesão nos arranjos e que mostram um Caetano exercendo seu lirismo em meio à solidão e a aventuras de recém solteiro.

14. Kevin Drumm, Imperial Horizon
Metaleiro noise, interventor da guitarra na tradição fennesz-ambarchiana, Kevin Drumm foi do vandalismo sônico de Sheer Hellish Miasma para a contemplativa observação sobre vida e morte que é Imperial Distortion, ocasionando uma das guinadas de carreira mais surpreendentes da década. Imperial Horizon mantém – imagina-se já pelo título – o trabalho com frequências e modulações do disco anterior, mase se engana quem acha que é só mais do mesmo. O trabalho com variações Imperial Horizon executa muito mais variações, e o sublime trabalho de camadas consegue criar um som denso e rico, talvez menos soturno que o trabalho anterior de Drumm, mas tão potente quanto.

15. 2562, Unbalance
Great Lengths, de Martyn, é um disco muito bom. Tem até, se excluirmos “Unbalance”, algumas faixas superiores às de Unbalance, como “Vancouver” e “Natural Selection” (lançadas anteriormente em 12”, mas pouco importa). O que faz, então, de Unbalance, um disco necessário num top 20 ao passo que o de Martyn é um daqueles que no máximo ganham menção honrosa? A palavra é foco: Unbalance faz alguns desvios de caminho, mas todos soam apropriados e perfeitos para “contar uma historinha” na progressão das faixas. Dave Huismans também não se deixa levar por subjetivismos, popismos ou interlúdios etéreos: sabe que funciona como máquina rítmica, e faz isso incrivelmente bem.

16. Shackleton, Three EPs
Mais um assombroso ano para Sam Shackleton, entre remixes, lançamentos conjuntos e solo. Esse disco colige três disquinhos no formato de preferência do produtor, com mais timbres percussivos de outro mundo organizados de forma a criar ritmos intrincados e soberanamente belos, enquanto linhas melódicas e graves pulsantes fazem sua evolução. Three EPs também mostra – em especial no segundo disquinho – que o trabalho conjunto com o Mordant Music rendeu frutos inesperados porém promissores.

17. Keith Fullerton Whitman, Dream House Variations
As instruções para esse disco são quase proibitivas. Quatro cassetes de durações diferentes, para serem executados simultaneamente, e de preferência ad infinitum de modo que as combinações de fita da primeira audição serão diferentes da segunda, da terceira, da quarta e assim por diante. As fontes sonoras têm que ficar nos extremos da sala e o ouvinte no meio. Só assim a gente entende o que é a “casa dos sonhos” projetada por Keith Fullerton Whitman, um paraíso em que o ruído ambiente circundante é composto de drones, glitches e ruídos brancos deliciosos de ter como “mundo circundante”.

18. Romulo Fróes, No Chão Sem o Chão
Pode-se até ser prudente e dizer que o disco tem momentos irregulares e duração excessiva. Mas No Chão Sem o Chão deve ser amado do jeito que é, como trabalho de um compositor multifacetado e talentoso que preferiu não escolher faceta e mostrou-se por inteiro, do rock à MPB de mulherzinha. Feliz de quem entra no jogo, porque vai usufruir de belíssimas composições e petardos como “A Anti-Musa”, “Qualquer Coisa em Você Mulher”, “Anjo”, “Mochila”, etc.

19. Leyland Kirby, Sadly, The Future Is No Longer What It Was
Quem além de jornalista especializado e estudante universitário tem tempo de ouvir um cd triplo? Eu, depois do dia 23 de dezembro. E, de fato, é preciso tempo para entrar no mundo tortuoso de Leyland Kirby, em que a gente percebe um poder dramático das notas de piano reminiscente de Angelo Badalamenti, um poder de tensão do silêncio evocativo de Erik Satie, um artesanato ambient que vai direto até Brian Eno mas acima de tudo uma capacidade de dar à música um poder espectral – já observado por quem conhece seu trabalho como The Caretaker – que faz com que ela pareça ser de tempos imemoriais… Com mais tempo de disco, talvez ele galgasse diversas posições para cima.

20. Lightning Bolt, Earthly Delights
Reis da pegada, Brian Gibson e Brian Chippendale mais uma vez nos entregam um disco cheio de pressão, nervoso, daqueles que lavam a alma de qualquer um que goste de rock tocado com energia e intensidade. Adoraria colocar mais alguns disquinhos na lista, como OOIOO, Acid Mothers Temple, Harappian Night Recordings, os dois de William Basinksi, Kantarell do Spunk, mas 20 é 20 e o Lightning Bolt fica fielmente representando esses que não foram citados.

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