Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores da década (2000-2009): Músicas – Ruy Gardnier

1. Joanna Newsom “Emily”
“Emily” é o começo e a realização máxima de Ys, um disco cujas ambições só se medem aos resultados: uma espécie de épico folk para voz, harpa e orquestra com músicas de quinze minutos e diversas viradas dramáticas. “Emily” é uma carta a uma irmã, e toda a pompa envolvida no arranjo de Van Dyke Parks e da própria Joanna Newsom em momento algum acaba com o imenso poder de intimidade provocado pela voz da cantora e por suas memórias e delírios. A segmentação da faixa guarda melodias surpreendentes e um senso narrativo soberbo, alternando calmarias e clímaxes com a sabedoria dos gênios. Muito se falou de freak folk nessa década, mas aqui não tem freakiness nenhuma: é pura beleza.

2. Asa-Chang & Junray “Senaka”
“Hana” já havia surpreendido com sua aparentemente simples estratégia de fazer a tabla acompanhar a voz humana processada, mas “Senaka”, lançada alguns anos depois, foi além. Substituiu a dramaticidade letárgica da primeira por um ludismo mais pronunciado, por maiores contrastes entre os momentos e por relações mais intrincadas entre voz picotada eletronicamente, eletrônicos e tabla. AC&JR foram responsáveis por algumas das mais exuberantes músicas da década, entre elas “Kaikyo” e “Toremoro”, mas com “Senaka” eles fizeram sua composição com mais fôlego criativo e com uma perfeição no equilíbrio de timbres que dificilmente será superada. (A versão é aquela com vocal feminino)

3. Animal Collective “Brother Sport”
Uma porção de músicas do Animal Collective poderia constar aqui nesse top de melhores. “The Purple Bottle (Stevie Wonder Version)”, “Grass”, “Peacebone”, “Fireworks”, tantas outras… Mas se é “Brother Sport” que aqui se faz presente, é por atingir um limiar catártico que até então o AC só buscava em seus momentos mais introspectivos e/ou entrópicos, mas aqui é o exato oposto: é uma faixa extrovertida, ritualística, de transe, que por vias transversas dialoga com a música brasileira e com a música africana e, sem diluir nada, acrescenta uma deliciosa excentricidade como tempero.

4. Beyoncé “Crazy in Love (feat. Jay-Z)”
Considerando que nenhuma das anteriores é exatamente uma música pop, convenhamos que “Crazy in Love” é a música pop da década, e que Beoyncé é a diva r&b desses anos 00. O r&b é um bom terreno para argumentar sobre a superioridade dessa década em relação às duas anteriores: nos 80 era Whitney Houston, nos 90 era Mariah Carey. Ou seja: ao menos na música negra americana de grande consumo, a década finalmente conseguiu diminuir pronunciadamente a pasteurização pop iniciada no começo dos 80. “Crazy in Love” é pérola pop de panteão, com inescapável gancho de metais, refrão labiríntico e bridge com rap de Jay-Z.

5. Missy Elliott “Get Ur Freak On”
Só o fato de Timbaland ter sido possível como produtor de sucesso já atesta uma mudança decisiva nessa década. “Get Ur Freak On” é uma produção totalmente alienígena, com um riff de ektara (instrumento indiano de cordas), frases em japonês, mas acima de tudo um poder enorme de síntese, criando um suíngue notável apenas entre percussão e uma célula melódica. E, óbvio, toda a fúria da voz de Missy Elliott. Podem até dizer que a faixa tem antecedentes, como “Kiss” do Prince, que também é poderosíssima e ao mesmo tempo extremamente econômica. É verdade: “Get Ur Freak On” então é uma “Kiss” vinda de Marte. Ou melhor, de Vênus. Os franceses do Les Inrockuptibles uma vez disseram que Missy era a cantora negra americana mais importante desde Aretha Franklin. Comigo eles não enfrentam controvérsia.

6. Fennesz “A Year in a Minute”
Noise sentimental. Em 1999 ninguém poderia intuir que isso se transformaria em filão, e que drones e ruído branco poderiam ser tão evocativos e poderosos emocionalmente quanto melodias adocicadas. Tem Philip Jeck, Caretaker, Tim Hecker e mais um monte, mas o campeão definitivo é o guitarrista austríaco Christian Fennesz, capaz dos ruídos mais abrasivos, dos timbres mais delicados e, quando quer, dos lirismos mais atordoantes. “A Year in a Minute” faz parte dessa última categoria, e é a faixa ambient que o My Bloody Valentine jamais fez. Uma melodia de seis “acordes” com algumas variaçõs de fundo, uma paradinha para sons sintetizados, e uma volta épica. Basta isso para uma obra-prima.

7. Black Dice “Roll Up”
O noise teve algumas das mais interessantes mutações pelas quais um gênero pode passar, e em especial um gênero tão confrontativo quanto esse. No caso do Black Dice, uma mudança que até ameaçava a natureza do gênero, porque eles conseguiram transformar a gratuidade do noise em ruído bubblegum, repetitivo e pop, mas sempre ameaçador a sua maneira. “Roll Up” é reminiscente da época em que o Black Dice passou pela DFA e flertou com o shoegaze eletrônico. A faixa é movida por um potente padrão rítmico eletrônico e guiada por um riff magro de guitarra, com direito a inúmeras disrupções e voltas. Mas quem disse que isso os torna mais pop? No Tim Festival eram só uns 50 lá na frente… mas todos embasbacados e/ou deslumbrados.

8. The Rapture “House of Jealous Lovers”
Todo o hype em torno da DFA foi um dos episódios mais bobos da década, e o modo como James Murphy foi içado à categoria de Midas transcende qualquer análise. Mas “House of Jealous Lovers” justifica tudo isso e também toda a comitiva de bandinhas discopunk que vieram sugar um pouquinho da cena. “HoJL” epitomiza o conflito rocker/dance do começo da década – e da identidade da própria banda em seu começo –, mas se aproveita do melhor dos dois, com potente cowbell e baixo de disco de um lado, e guitarra angular e vocal alucinadamente gritado por Vito Roccoforte do outro.

9. Konono No. 1 “Lufuala Ndonga”
Ainda me lembro do espanto de ter ouvido Congotronics Vol. 1 e a primeirona “Lufuala Ndonga” pela primeira vez. Hoje o espanto é divisível entre elementos que a percepção discerne e separa, como a intensa sessão rítmica que faz uma balbúrdia dos infernos, os apaixonantes timbres lo-fi dos likembés, executados quase como agogôs com maior potencialidade melódica, e as dinâmicas de chamado e resposta entre cantor e coro. Mas no momento inicial foi tudo junto e contágio arrebatador pela alegria e vitalidade transmitida pela música do Konono.

10. Aphex Twin “Jynweythek Ylow”
Que caminho longo até ter a liberdade de pegar um piano, convencional ou preparado, e relacionar-se com ele como se fosse um instrumento novo, tão novo quanto os sintetizadores analógicos de estimação ou o mais novo software de música eletrônica. “Jynweythek Ylow” começa drukqs de forma surpreendente, mas ao mesmo tempo as melodias criadas e as quebras de notas dentro da composição são claramente perceptíveis para quem acompanhava a obra de Richard D. James em todas as suas manifestações. O que talvez ninguém esperasse é que Aphex Twin ao piano soasse ao mesmo tempo tão contemporâneo e tão atemporal, como uma melodia de caixinha de música da nossa era. E o genial de drukqs é que, depois dessa beleza, vem “Vordhosbn”, outra obra-prima, mas eletrônica e ultrarrápida, obrigando o ouvinte a rapidinho mudar de registro emocional.

11. Grizzly Bear “Plans”
Arranjos burilados, progressões inspiradas, harmonizações vocais emocionantes e uma sensibilidade pop vinda direto do túnel do tempo, entre pop barroco e pop anos 70. Tem algo extremamente solar e emocional nas músicas do Grizzly Bear, mas há algo nas baladas soturnas que torna tudo ainda mais especial. Em “Plans”, não se sabe o que é mais catalisador emocional, se são as notas esparsas de saxofone, o coro harmonizando ou a sensação geral de um destino pairando sobre a impossibilidade de chegar à América do Sul para se encontrar com alguém. Logo depois em Yellow House há a preciosíssima “Marla”, mas “Plans” é como uma balada bêbada de Matt Elliott convertida em joia barroca.

12. Shackleton “Death Is Not Final”
Já há alguns anos Shackleton nos arrepia com sua estética sombria e com sua inacreditável manipulação de células percussivas, tanto em timbre quanto em ritmo. O que ele fez para o dub e para a música eletrônica nessa seara é incalculável, e seu estilo é tão único que, como Aphex Twin (ou Zappa, ou Hermeto),  arrisca se transformar num gênero próprio. “Death Is Not Final” tem duas das atrações mais incisivas da música de Shackleton, a fala – já presente em “Blood on My Hands”, por exemplo – de um homem de voz grave e seca fazendo comentários solenes e samples árabes. Mas o que torna a faixa absoluta são os tilintares dos elementos percussivos agudos, que passeiam por toda a espacialidade do som e de coadjuvantes transformam-se em protagonistas.

13. Four Tet “Everything Is Alright”
A obra definitiva de Kieran Hebden é Rounds, certamente. Mas aquilo tudo já estava lá antes em alguns momentos bem pinçados de Pause, em especial nessa que é a faixa mais marcante do disco. O “efeito Four Tet”, se assim quisermos, se encontra da união de algo reconhecido socialmente como eufônico com algo que de alguma forma se constitui como ruído, emoldurado por beats de hip-hop (até Rounds) ou de techno (de Ringer até agora). O “ruído” em “Everything Is Alright” acontece pela falta de preenchimento (geralmente cabido à linha de baixo) entre a bateria pulsante e as duas melodias, um dedilhado de violâo e uma frase de teclado. Para além de serem dois dos melhores fragmentos de melodia já concebidos por Hebden, a faixa “desevolui” de maneira impressionante, remetendo tudo a alterações de volume e reiteração dos fragmentos.

14. The Bug “Skeng (feat. Flow Dan & Killa P)”
Kevin Martin quando acerta sai de baixo. Em “Skeng” temos uma faixa lentíssima, quase andamento de doom metal, com fortes doses de grave e caixas de bateria eletrônica em delays demolidores. Por cima de tudo isso, temos Flow Dan do Roll Deep e o misterioso Killa P mandando um dos raps/toasts mais ameaçadores já ouvidos, nem tanto pelo teor da letra quanto pelo timbre e pela força do vocal de Flow Dan (ainda que ouvir “You don’t wanna see me get evil” faça propriamente sua parte).  A Hyperdub lançou muitos singles maravilhosos nos últimos cinco anos, mas “Skeng” se mantém insuperável.

15. Antony and the Johnsons “The Lake”
Esta pode ser vista como uma opção excêntrica, visto que “The Lake” foi lançado em EP, nunca foi relançado em nenhum álbum de Antony e, que eu saiba, nenhuma outra revista ou site advoga esta faixa como item essencial da obra de Antony Hegarty. Pouco importa. “The Lake” é um poema de Edgar Allan Poe musicado por Antony e executado ao piano, com ligeiros detalhes de violão aqui e acolá. O canto é bastante menos dramatizado do que em “Hope There’s Someone” ou “Aeon”, por exemplo. Essa limpidez, no entanto, permite melhor desfrutar do inacreditável timbre do cantor e ver a intensidade progressivamente crescendo até chegar em “My infant spirit would awake/To the terror of the lone lake”. Dito isso, “Hope There’s Someone” também não é menos do que uma obra-prima.

16. M.I.A. “Bird Flu”
E o mundo conheceu um furacão chamado Maya Arulpragasam. Parecia já meio cafona evocar luta de classes na música pop, depois de um histórico cheio de grandes momentos envolvendo, entre outros, Gang of Four, The Clash e Public Enemy. Ultimamente, artistas como Manu Chao viram rapidamente caricaturas bestas de algo grosseiramente associável a militância. Aí chega M.I.A., constrói uma persona de rainha unificadora de todos os sons do terceiro mundo e da parte baixa do primeiro mundo, mete tudo num caldeirão e sai com uma mistura tão irresistível quanto sonoramente coerente. “Bird Flu” é talvez a faixa mais selvagem da cantora, com turbilhões de percussão e gritinhos de meninas. “Bird Flu gonna get you”, canta ela. “Paper Planes” pode ser mais deliciosa de ouvir, mas “Bird Flu” é, como a gripe aviária, muito mais infecciosa e arrebatadora.

17. Nação Zumbi “O Carimbó”
Todos aqueles que admiram o trabalho do guitarrista Lúcio Maia desde Chico Science & Nação Zumbi sempre sonharam com o momento em que uma faixa do grupo fosse capaz de sintetizar ao mesmo tempo o lirismo, a psicodelia e a “soltura” do estilo de tocar do músico. Quem via os shows tinha isso já em “Coco Dub”, ao menos em parte, nas interveções improvisadas do guitarrista. Mas em disco isso apareceu pela primeira vez em “O Carimbó”, entrecortado por um padrão de percussão influenciado por drum’n’bass e por um possante vocal de Jorge Du Peixe. Rádio S.Amb.A. pode ter momentos de maior energia, como em “Quando a Maré Encher”, mas “O Carimbó” tem um poder mais misterioso e subterrâneo.

18. Jens Lekman “You Are the Light (By Which I Travel Into This Way and That)”
Se alguém perguntar onde nos anos 00 esteve o lirismo ao mesmo tempo sofisticado e brincalhão, autoderrisório e ainda assim pungente de uma tradição que existe desde Cole Porter e passa por Jacques Brel, Scott Walker e Morrissey, eu respondo oferecendo “You Are the Light”, uma pérola de pop sueco, entre o kitsch e o sublime, que começa com o sujeito sendo preso e usando a única ligação telefônica a que tem direito para ligar para a rádio e dedicar uma canção à mulher que ama. Musicalmente, é um coquetel de referências girl-group anos 60 e Scott Walker do período crooner, e perfeito em todos seus excessos.

19. The Avalanches “Frontier Psychiatrist”
Essa foi uma década particularmente prolífica para os magos das batidas: os produtores depois de décadas foram novamente alçados à categoria de inventores dentro do pop (Timbaland e Pharrell na dianteira), o hip-hop instrumental ou abstrato teve diversos artistas de destaque (Alias, DJ Shadow, RJD2, Madlib) e teve todo esse élan de DJ como inventor a partir de colagens e mashups. Mas a colagem dançante essencial da década veio logo em seu começo, por um bando de australianos misteriosos chamados The Avalanches. “Frontier Psychiatrist” é a declaração de princípios, pinçando sons de fontes sonoras diversas e criando um mosaico tão genial quando bem-humorado. “That boy needs therapy”.

20. Gnarls Barkley “Crazy”
É muito fácil esnobar “Crazy”. Afinal, foi um megassucesso, e um megassucesso acompanhado de posterior silêncio, o que sempre é algo meio suspeito. Mas basta reouvir a música e o efeito é impressionante: as estrofes são construídas apenas com uma batida sumária, um riff magérrimo de baixo tocando três vezes a mesma nota e um coro feminino discreto. O segredo da música é esse: ao mesmo tempo dar toda a liberdade possível para o cantor Cee-Lo Green, mas também aproveitar o momento da chegada do refrão para tornar o “vazio” das estrofes um elemento de contraste para os violinos e o vozeirão do cantor. Por maior superexposição que a faixa tenha tido, a economia da composição ainda hoje faz com que ela consiga o efeito desejado, e sejamos impelidos a cantar junto “Does That Make Me Crazy?” e perceber como, apesar de muita porcaria, foi uma excelente década para a música.

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