Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores da Década (2000-2009): Músicas – Bernardo Oliveira

1. “Hana” – Asa-Chang & Junray
Combinação de música japonesa tradicional e eletrônica, que suplanta em estranheza até mesmo as melhores faixas de Merzbow e Boredoms, “Hana” prima pelo contraste entre o loop de cordas e a dinâmica rítmica variada formada pela sobreposição de tabla e voz. Um clássico absoluto de uma década cheia de clássicos relativos…

2. “The Pleasure is All Mine” – Björk
Atmosférica, intrigante, apocalíptica, “The pleasure is all mine” é composta por vozes, cantos, grunhidos, beatbox e graves profundos que entoam versos e melodias surpreendentes… Mas o que mais surpreende aqui, ao lado da instrumentação inusitada, é o aspecto melódico invulgar da canção. Sob qualquer roupagem musical, “The Pleasure is all mine” é, antes de mais nada, um linda canção.

3. “Lufuala Ndonga” – Konono No. 1
A década que passou foi a primeira que possibilitou a emersão de sonoridades antes consideradas folclóricas ou primitivas de um ponto de vista criativo. Ao invés do registro, a invenção. Muitos são os exemplos deste fenômeno, mas Konono N. 1 é talvez o grupo que mais confunda a cabeça dos admiradores da música africana com suas kalimbas eletrificadas e seu aspecto simultaneamente tribal, extático e extremamente experimental.

4. “Brother Sport” – Animal Collective
“Brother Sport” já foi brevemente camarilhada pelo Ruy, já entrou nas listas de melhores do ano e da década, já declaramos insistentemente nosso amor por ela. Eu acrescentaria somente que não entendo o porque da unânime preferência por “My Girls”… Parece que o single (isto é, o mercado) dita qual a faixa que deve ser eleita e não a audição atenta e a tentativa de análise. Sob esse ponto de vista, “Brother Sport” é uma música espetacular, sem igual dentro do próprio Merriweather

5. “Machine Gun” – Portishead
Não há dúvida de que a reviravolta mais inusitada da década ocorreu com o Portishead. Com sua instrumentação seca e super-econômica e a interpretação desesperada de Beth Gibbons, “Machine Gun” é um clássico desde que apareceu em 2008, horrorizando os fãs antigos e deliciando aqueles que, como eu, não topavam o estilo high society do trip hop de outrora…

6. “Bird Flu” – M.I.A.
É um banghra? É uma Timbalada? Um avião, um disco voador, um E.T., o que vem de lá? Pois bem, trata-se da segunda faixa de um dos álbuns mais curiosos da década, Kala… M.I.A. grita em alto bom som que é “big on the underground”, imediatamente respaldada pela sonoridade alienígena desta faixa adorável.

7. “Hands” – Four Tet
Ahhhh, então é possível fazer música eletrônica sem referir-se a todo momento a loops e música para as pistas? Kieran Hebden criou este clássico intrincado a partir da seleção e manipulação de timbres jazzísticos, mas com personalidade e  coerência únicas na seara eletrônica contemporânea.

8. “Point to B” – Prefuse 73
A primeira vez que a expressão rap experimental fez sentido para mim… Não que não haja uma dimensão experimental no rap que vai de Bambaata a Public Enemy, mas Guillermo Scott Heren assume a tarefa, criando nesta faixa um jogo cubista de sílabas e ritmos, onde cada elemento é como que retirado de seu contexto e situado de forma a tirar o fôlego do ouvinte.

9. “Ô Simpático” – Mr. Catra
Se o funk foi o único gênero a evoluir no Brasil durante esta década, então Catra foi o poeta da década. Ninguém soube como ele aliar a prosódia, o duplo sentido, uma forma crua de relatar o sexo, uma antropologia do crime e ainda uma maneira de executar o funk carioca de forma nitidamente brasileira, incorporando um indelével sotaque de música de umbanda que perdura até hoje.

10. “Hey ya” – Outkast
A faixa de festa mais divertida da década. Os maneirismos “princeanos” de Andre 3000 desta vez explora uma releitura empolgadíssima da música pop americana dos anos 50 e 60. É curioso observar que os ritmos quebrados e o clima histérico da faixa não interditam sua extrema popularidade.

11. “Death is Not Final” – Shackleton
Shackleton não podia faltar nessa lista, muito embora eu não soubesse até agora qual faixa seria a mais adequada para representar o seu talento. Mas “Death is not Final” contém as melhores características que fizeram dele o produtor da década: tambores retumbantes, sotaque orientalizado, timbres lapidares…

12. “Idioteque” – Radiohead
Hoje é fácil identificar as motivações que fizeram Thom Yorke e sua turma misturar canção indie com miami bass, mas na época em que surgiu, “Idioteque” parecia à primeira vista a mera inscrição do grupo em um universo eletrônico sem maiores conseqüências. Mais tarde vimos que não era bem isso, pelo contrário: não houve guinada mais legítima para o universo eletrônico que a do Radiohead e “Idioteque” representa perfeitamente este êxito.

13. “Caranguejo da Praia das Virtudes (Madame Satã)” – Nação Zumbi
Banda renascida das trevas, posta constantemente em dúvida: tudo parece conspirar contra o Nação Zumbi. Mas com aquela pinta de “maloqueiro”, com concertos simplesmente inacreditáveis e com uma inigualável abertura para o novo, o Nação conquistou o posto de uma das maiores bandas do mundo. Com este tema polêmico, belamente versado por Jorge du Peixe, e uma instrumentação ousada que mistura eletrônicos e acústicos, esta faixa deu provas da força criativa do grupo, posta em dúvida à época do retorno.

14. “99 Problems” – Jay-Z
Tá certo, não constitui propriamente uma novidade a mistura de rock com rap. Mas estamos falando de um dos maiores rappers do mundo, daqueles que tem a manha de ser inovador e popular ao mesmo tempo, aliado a um produtor tradicionalmente relacionado à inovação, Rick Rubin. Bateria cheia de cowbell e levada de guitarra distorcida contribuíram para tornar “99 problems” a faixa de hip hop da década.

15. “Persistent Repetition of Phrases” – The Caretaker
Depois da trigésima repetição do tema melancólico que compõe esta faixa sugestivamente batizada, somos tomados por um estado mental essencialmente memorial, mas sem conteúdo específico… Trata-se de um experiência vazia, preenchida somente por sensações, pelo sentimento de nostalgia, pela lembrança. É esse o “feeling” da faixa em questão, um dos experimentos mais esquisitos e exitosos dos últimos tempos.

16. “Crazy in Love” – Beyoncé com Jay-Z
A colaboração entre Beyoncé Knowles, Jay-Z e o produtor Rich Harrison é sem dúvida a farofa da década. Sampleando The Chi-Lites, eles criaram uma faixa que em outras épocas seria produzida pela Madonna.

17. “Good girl/Carrots” – Panda Bear
Como se não bastasse a participação em uma das melhores bandas dos últimos tempos, Noah Lennox criou também alguns discos solos, entre eles o aclamado Person Pitch. “Good girl/Carrots” é a melhor justificativa para o seu trabalho solo. A sucessão de climas e referências, que vão de Kraftwerk a Beach Boys, demonstram a originalidade e o amadurecimento constante de Bear e sua turma.

18. “Roll Up” – Black Dice
“Roll Up” é daquelas faixas que te ganham imediatamente, apesar de um aspecto irascível que a primeira vista salta aos olhos. Em sete minutos, Eric Copeland e sua turma desenvolvem uma estrutura musical aparentemente careta, mas totalmente manipulada, saturada, mexida… Procedimento que se repetiu em Repo, mas que tem aqui seu maior exemplar.

19. “Perdeu” – Caetano Veloso
Nem Dylan, nem Lou Reed, nem Bowie: o sexagenário da década foi Caetano Veloso, com sua poesia continuamente recriada, com sua busca constante por sonoridades condizentes com esta poesia… Se o autor já não lhes deu provas deste talento, nada posso fazer. Sem maiores esclarecimento, “Perdeu” é a faixa mais impressionante deste Caetano dos 00´s.

20. “Boa tarde povo” – Baianas Mensageiras de Santa Luzia
Tal como o Konono N. 1, Candombless de Carlinhos Brown, Toda Vez que Eu dou um Passo…, de Siba e Fuloresta, Seya de Oumou sangaré, entre outros tantos exemplos, esta faixa demonstra uma modalidade criativa de registro que, em última instância, inviabiliza a própria idéia de registro. O tambor das baianas mensageiras se assemelha a um drum and bass, mas é justamente a timbragem acústica e seu canto microtonal que faz a graça e a singularidade desta faixa surpreendente.

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