Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores da década (2000-2009): Discos – Ruy Gardnier

1. Joanna Newsom, Ys
E em seu segundo disco a menina da voz estridente se inspira em Stormcock de Roy Harper, chama Van Dyke Parks para arranjar orquestra e co-produzir o disco, convoca Steve Albini para gravar sua voz e sua harpa, e engaja Jim O’Rourke na mixagem. Em cinco composições e um total de 56 minutos, ela fala sobre pássaros de nome excêntrico, meteoritos e meteoros, momentos partilhados, impressões, com um preciosismo lírico só comparável à natureza vaga e evocativa de suas narrativas, e um poder imenso de criar melodias que funcionam na progressão das longas composições. Cada música de Ys tem efeito de montanha-russa, levando a sensibilidade do ouvinte a tensas subidas e vertiginosas descidas. E em dois polos contrastantes, a voz e a harpa de Joanna Newsom garantem toda a emotividade do projeto, enquanto os arranjos encorpam e equilibram o conjunto. Como já disse alhures, é o Astral Weeks e o Desertshore de nossa década. E certamente o melhor disco desses últimos dez anos.

2. Aphex Twin, drukqs
Ao contrário dos anos 90, Aphex Twin não fez muito para aparecer nessa década. Lançou singles com pseudônimo, fez a série em 12” Analord e lançou em 2001 esse drukqs, um álbum duplo (ou vinil quádruplo) que, ao invés de surpreender com novas facetas – algo que ele fazia de disco a disco nos 90 –, fazia uma síntese tudo-ao-mesmo-tempo-agora de sua carreira, e ampliava seu lado mais introspectivo e lírico, com diversas composições só para piano. Para alguns, é um disco de repetições de um artista em momento de pouco foco artístico. Para outros, e obviamente me enquadro nesse grupo, é sua magnum opus, em que todos os elementos se encontram presentes e aperfeiçoados, da fúria ADD de “Windowlicker” (“Omgyjya-Switch7”) à singeleza de “Flim” (“Jynweythek Ylow”), passando por faixas ambient, interlúdios e diversas peças irretocáveis que o confirmam como o artista eletrônico mais decisivo de sua época.

3. Animal Collective, Merriweather Post Pavillion
Feels
, Sung Tongs e Strawberry Jam já qualificavam definitivamente o Animal Collective como um dos grupos de rock alternativo mais importantes da década, com um teor experimental associado a uma sensibilidade pop que os credenciavam tranquilamente como um equivalente da nossa época – frisando, nossa época – ao que faziam ao final dos anos 60 grupos como Beatles, Love ou Beach Boys. Merriweather Post Pavillion é o estabelecimento definitivo do grupo no panteão do pop de vanguarda, com composições mais focadas e um punhado de faixas destinadas à posteridade.

4. Avalanches, Since I Left You
Podemos pensar o disco perfeito como o disco cheio de músicas perfeitas. Mas podemos pensar que o disco perfeito é aquele que se ouve perfeitamente por inteiro, com pouca ou nenhuma atenção às faixas em si, e sim à inteireza do disco. Nesse segundo sentido, Since I Left You é o disco perfeito da década, uma grande suíte de colagens geniais, clima de festa e suntuosas alternâncias de situações. Difícil imaginar que quando Coldcut, MARRS, Bomb the Bass e outros inauguraram a era do cut&paste alguém conseguiria transformar suas invenções num disco inteiro de invenções e elegância formal.

5. Spring Heel Jack with Matthew Shipp, Evan Parker, J. Spaceman, William Parker & Han Bennink, Live
Live
é a culminação de muitas coisas. Primeiro, é o grande disco da passagem do Spring Heel Jack de bom grupo de drum’n’bass ao improv. Segundo, é o melhor disco do fundamental projeto Blue Series, capitaneado por Matthew Shipp, trazendo artistas de eletrônica/hip-hop para tocar junto com músicos de jazz/improv. Terceiro, é uma incomum reunião de improvisadores americanos e europeus, ou seja, vindos de searas outrora conflitantes. Quarto, e mais importante, é a impressionante integração dos eletrônicos à manipulação improvisada junto com instrumentos orgânicos. Tudo isso faz de Live um marco nessa década. Fora isso tudo, é um disco absolutamente delicioso de se ouvir.

6.Sufjan Stevens, Illinoise
Pop de câmara. Cabe notar que a música, particularmente a indie, está infestada desses artistas meia-boca que fazem pop com um quê de delicadeza, pegam deixas de Nick Drake e Zombies, para ao final realizarem coisas requentadas e apenas fofinhas. Mas não confundam Sufjan Stevens com o resto da espécie: ele tem um real amor pela dissonância, pelos efeitos de contraste e por um senso épico que integra chamber pop à música tradicional americana e à vanguarda experimental do século XX. Orquestra, nas mãos de Stevens, não é verniz, é composição. Illinoise é seu disco mais completo, e depois de ouvi-lo a gente torce pra que ele faça todo o resto dos estados americanos com o mesmo prazer e talento com que fez este. Não vai acontecer, mas a gente espera mesmo assim.

7. Fennesz, Endless Summer
Os artistas existem por seu trabalho, e é como eles devem ser observados em primeiro lugar, mas eles também existem pelo papel que representam em seu contexto – o que, aliás, é um pouco indissociável de seu trabalho, mas isso é outra história. Sob esse viés, não brigaria com ninguém que considerasse Christian Fennesz o artista mais importante da década, por expandir mais que ninguém as interrelações entre o que é socialmente considerado música e ruído. Nos seus discos ou em suas apresentações ao vivo, o lírico vai de mãos dadas com o abrasivo. Black Sea talvez seja seu trabalho mais perfeito, mas Endless Summer tem o brilho do gesto inaugural, do momento em que o artista achou completamente o seu som.

9. Four Tet, Rounds
“Spirit Fingers” não ficaria desalinhada se colocada numa coletânea de coisas lançadas pela Warp àquela época, ou seja, Autechre, Boards of Canada etc. “She Moves She” pode vir antes ou depois, numa discotecagem, de uma música do Prefuse 73 em seus dois primeiros discos. Ou seja, Rounds rima com hip-hop abstrato, com IDM, com trip hop, com downtempo, e ao mesmo tempo não é nada disso. É o fruto do trabalho laborioso de Kieran Hebden em traduzir suas influências de jazz, de soul, de hip-hop, em uma forma própria. E tem toda a sensualidade de um Stevie Wonder ou de um Sonny Rollins vertida em eletrônica exuberante e luxuosa.

9. Kevin Drumm, Imperial Distortion/Sheer Hellish Miasma
O trabalho de Kevin Drumm, como o de Stephen O’Malley (Sunn O))), Khanate) ou o de Mick Barr (Orthrelm), se situa no limiar do metal com outros gêneros que desafiam os tímpanos e a paciência dos ouvintes, como o noise, o improv, o drone e o minimalismo. Considerada sozinha, no entanto, sua música – como a de Fennesz – é uma ode às possibilidades de retrabalho eletrônico das sonoridades e das texturas saídas de uma guitarra, sejam nas abrasivas explosões sintetizadas de Sheer Hellish Miasma ou na guinada ambient/drone/textural de Imperial Distortion. Em ambos os casos, trata-se de um músico que sabe talhar minuciosamente seus conceitos e encontrar as aplicações sônicas mais perfeitas à execução deles.

10. Radiohead, Hail To the Thief
Se a Pitchfork representa o termômetro da comunidade indie-roqueira internacional a respeito do Radiohead – e provavelmente representa –, Hail To the Thief é considerado um trabalho menor dentro da trajetória do grupo, minado pela confusão interna e a indefinição de caminhos. Em bom inglês britânico: BOLLOCKS. Hail To the Thief é o momento em que finalmente o Radiohead conseguiu orquestrar sua sensibilidade com todas as influências adquiridas no começo da década, rendendo um disco certamente sombrio e carregado, mas com uma pressão sem igual em qualquer dos outros trabalhos do grupo.

11. William Parker, Double Sunrise Over Neptune
Não sou nenhum completista no que diz respeito ao jazz mais convencional produzido nesta década, mas diria sem pestanejar que Double Sunrise Over Neptune é fácil o melhor disco de jazz composto – ou seja, não-improv – desses últimos dez anos. Trata-se de uma big band excêntrica, com violino, viola, duas baterias, guitarra elétrica e cantora indiana, entre outros, que executa ao mesmo tempo uma música multiétnica, e ao mesmo tempo recupera a enorme sensualidade e poder evocativo (espiritual, quiçá) do jazz cósmico praticado por Alice Coltrane ou Pharoah Sanders nos anos 70. Mas soa totalmente como anos 00. E tão bem…

12. M.I.A., Kala
Funk carioca com Modern Lovers? É como começa “Bamboo Banga”, primeira música de Kala, entoando a letra de “Roadrunner” (que aliás nada mais é que uma versão com letra diferente de “Sister Ray”, do Velvet Underground) com os beats de Diplo, nosso homem no hemisfério de cima. M.I.A. tem esse incrível poder de incorporação, de usar a ideia de sampler como prática (o essencial loop de “Paper Planes” tirado de Straight To Hell” do Clash, em especial) mas principalmente como conceito, criando a Central Única do Terceiro-Mundo Musical e articulando de forma furiosa e sexy diversas músicas do globo numa obra coesa e incendiária. Gang of Four com Missy Elliott, tá valendo?

13. The Books, Thought For Food
Como Since I Left You, Thought For Food se ouve como uma obra completa, composta por partes de uma suíte que, nesse caso, é uma mini-ópera de laptop-folk com colagens, sons encontrados e um incrível senso lúdico que só rivaliza com a fluidez com que o disco é ouvido. Ao longo da década, eles foram tomando mais gosto por canções pop, permanecendo sempre interessantes, mas sem encontrar a liberdade e a graça que conseguiram em seu disco de estreia. O próximo disco do grupo, que terá como tema a hipnoterapia, sugere uma volta às experimentações mais livres de composição. Mas até o presente momento é Thought For Food o momento essencial dessa dupla.

14. Boom Bip & Dose One, Circle
Hoje parece uma cena que passou, esse underground hip-hop que queria explodir com todos os clichês do gênero e advogava para si todas as liberdades para fazer raps baseados em fluxos de consciência e trabalhar com bases que pudessem incorporar tudo ao recheio. Mas essa cena, que teve em Dose One seu representante mais prolífico e talentoso, deu discos geniais como cLOUDDEAD, os primeiros do Subtle e esse Circle, parceria do rapper com o produtor Boom Bip, um sujeito que conseguia criar bases tão alucinadas quanto os raps de seu colega. A prova do sucesso, como todo projeto que desafia gêneros instituídos, é que Dose One ganhou tantos detratores quanto admiradores fervorosos.

15. Prefuse 73, One-Word Extinguisher
Guillermo Scott Herren teve na década uma trajetória errática e prolífica, com diversos projetos – Delarosa & Asora, Savath & Savalas, Prefuse 73, Diamond Watch Wrists – e mudanças de sonoridade. Mas ainda que seus últimos anos não sejam particularmente especiais, o que ele fez em seus dois primeiros discos como Prefuse 73 é absolutamente revolucionário, aplicando ao hip-hop a estética da fragmentação e dos clicks&cuts da eletrônica experimental e criando uma batida sincopada e letárgica que virou padrão entre os produtores britânicos contemporâneos. Vocal Studies + Uprock Narratives é o mais imediatamente belo e livre, mas One-Word Extinguisher é o mais perfeito. Na dúvida, fiquemos com o último.

16. Konono No. 1, Congotronics Vol. 1
Podem chamar de confluência de fatores, podem chamar de puro acaso. O fato é que, no exato momento em que muitos dos grupos inventivos de música do Hemisfério Norte buscavam sonoridades lo-fi de osciladores e sintetizadores antigos, “aparece” o Konono No. 1 com seus likembés, suas kalimbas “preparadas” pela eletrificação. “Aparece” porque o grupo existe há décadas, mas foi “descoberto” apenas através de Congotronics Vol. 1, um disco de alegria contagiante com dinâmicas de percussão, melodia e canto que deixam o ouvinte estupefato por tanto vigor e inventividade.

17. William Basinksi, Disintegration Loops
Disintegration Loops
é o Cabra Marcado Para Morrer da música nessa década. Basinski gravou algumas fitas magnéticas em 1982, e ao tentar salvá-las gravando para mídia digital, observou que elas se deterioravam à medida que passavam pelo suporte físico de leitura e o som se perdia. O projeto de vinte anos depois nada mais é que a gravação da degenerescência dessas gravações, o que se traduz sonoramente por loops que vão lentamente perdendo a definição até se perderem definitivamente. Pode-se pensar que ouvir a essas Disintegration Loops é um projeto estapafúrdio, mas nunca houve projeto em música que fosse ontologicamente uma reflexão sobre o fim das coisas, sobre a ação do tempo e dos materiais, sobre a morte.

18. Jay-Z, The Black Album
É difícil argumentar sobre The Black Album ser o melhor disco de Jay-Z na década quando ele fez The Blueprint, um disco que começa perfeito com (depois da introdução) “Takeover” e “I.Z.Z.O. (Hova)”, além de ter “Song Cry”, uma faixa de confissão de incompetência conjugal que seria infinitamente zombada se não fosse feita de forma tão fenomenal. Além de ter dado a Jay-Z o cetro do hip-hop que ele legitimamente ostenta até hoje. Mas The Black Album apresenta muito mais variações de composição, é melhor pensado como álbum (The Blueprint tem uma ou duas faixas tranquilamente dispensáveis) e, bom, tem “Encore”, “Dirt Off Your Shoulder” (Timbaland em grande momento), “99 Problems” e a fenomenal “Lucifer” (Kanye West também em grande momento), além de trabalhar magnificamente o conceito de disco final. No fim das contas, o fim de carreira foi brincadeirinha, mas isso não é muito relevante.

19. Fenn O’Berg, Return of Fenn O’Berg
Se hoje ouvimos maravilhas como Vertical Ascent, do Moritz Von Oswald Trio, isso se deve em parte porque alguns artistas, já relativamente reconhecidos em suas áreas, decidiram se juntar e ver no que dava fazer música improvisada com laptops. Podem dizer que não foram os primeiros a fazer isso. Mas, oras, o que é o ineditismo diante da excelência? Fennesz, Jim O’Rourke e Peter Rehberg fizeram maravilha juntos em 1998, e em 2001 voltaram para fazer melhor ainda, num disco de improv/glitch/noise que abriu terreno e, se a história for justa, ocupará espaço semelhante ao de discos como Karyobin e AMMusic para a constituição da improvisação livre como gênero e conceito.

20. Burial, Burial
Ainda que nenhum de seus discos seja perfeito, Burial não podia ficar de fora dessa lista. Ele foi o líder da nau capitânea que apresentou o mundo ao dubstep, ainda que ele não seja em nada o produtor típico de dubstep. Ele retirou do dubstep – um gênero quase sempre impessoal – a enorme força sombria dos andamentos lentos e dos graves de baixíssima frequência, e adicionou a eles sonoridades preciosas de contratempo, ruídos climáticos (eventualmente chuva, estalos de vinil ou outras formas de ruído branco) e especialmente as inserções vocais de diva chorosa, que dão ao som do Burial um imenso poder afetivo, pessoal. Untrue é tão bom quanto, mas fiquemos com o primeiro por seu poder inaugural, mais seco e denso.

Não-disco da década: set de Kode9 no Sonar 2007
Primeiro momento de maior legitimação do dubstep e um set perfeito que eternizará para gerações o que era concebido com dubstep até aquele momento, pelo grande DJ do movimento e por um de seus produtores inaugurais. E uma audição simplesmente formidável.

Omissões criminosas (fazer o quê? são só vinte): Limescale, Limescale; Devendra Banhart, Rejoicing in the Hands/Niño Rojo; Portishead, Third; Panda Bear, Person Pitch; Broadcast, Haha Sound; Nação Zumbi, Rádio S.Amb.A.; Hecker, Acid in the Style of David Tudor; Sir Richard Bishop, Polytheistic Fragments; Kanye West, Late Registration; Black Dice, Load Blown

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