Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores da década (2000-2009): Discos – Bernardo Oliveira

1. Björk –  Medulla [Elektra; 2004]
Em Medúlla, a música de Björk adquire um patamar de complexidade jamais visto por uma cantora de porte popular. Muito embora a burilação das vozes seja um dos trunfos do álbum, me chama a atenção a beleza extrema do repertório, surpreendentemente compatível com as referências daquele momento. Um diálogo amplo e aberto com a música de Stockhausen e Robert Wyatt, com a poesia de E.E. Cummings, com as vozes de Rahzel, Mike Patton e Dokaka, com a música anômala do Matmos e de Nico Muhly, com a percussão do Ilê Ayê e com a throat singer Tanya Tagaq…
2. Hermano Vianna, Beto Villares (org.) – Música do Brasil [Abril Music/Abril Entretenimento; 2000]
Em quatro cds, o antropólogo Hermano Vianna e o músico Beto Villares gravaram e compilaram 82 registros: carimbós, cocos, marujadas, maracatus, tambor de crioula e outros ritmos catalogados pelos cadernos de antropologia, mas interpretados à luz de perspectivas culturais específicas, que transformam o sabido em não sabido, o conhecido em desconhecido, e transborda vivacidade rítmica e poética. Isto fica evidente em faixas como “Boa tarde povo”, com as Baianas Mensageiras de Santa Luzia e “Toque da Zambiapunga”, da Zambiapunga do Taperoá, com uma percussão toda realizada por enxadas (!). Silenciosamente revolucionário.

3. Konono n. 1 – Congotronics [Crammed; 2004]
Tomada em boa parte das manifestações da etnia bazombo, a música criada por Mawangu Mingiedi e sua turma não se reduz tão somente a uma técnica de eletrificação de kalimbas. Em sete faixas, podemos observar ritmos diferenciados (alguns em 4/4, outros em 3/4), nuances harmônicas e melódicas ocasionadas pela sobreposição das kalimbas e um arsenal percussivo que combina chocalhos, percussões de ferro e tambores. A inserção destes elementos em uma estrutura musical vigorosa possibilitam um painel musical sem igual no cenário contemporâneo.

4. Asa Chang & Junray – Jun Ray Song Chang [Leaf Spain; 2002]
À primeira vista, o trio formado pelo percussionista japonês Asa-Chang, pelo tocador de tabla U-Zhaan e o programador Hidehiko Hurayama, pode ser confundido como um renovador do gagaku e do shomyo, gêneros tradicionais da música japonesa. Mas é só caminharmos adiante para tomarmos a exata medida de que tipo de renovação eles privilegiam. Refiro-me à síntese entre a música tradicional e as influências indianas e IDM que fazem de Asa-Chanag & Junray uma das mais surpreendentes da produção japonesa e mundial recente. A beleza irretocável de “Hana”, “Jippun” e “Goo-Gung-Gung” justificam a singularidade deste autêntico OVNI, como escrevemos recentemente na Camarilha.

5. Aphex Twin – Drukqs [Warp; 2001]
Ora, não bastasse Richard D. James ter ditado norma para a música eletrônica, não bastasse a genial parafernália conceitual de “Windowlicker”, não bastasse representar inovação sob muitos aspectos na música eletrônica mundial, o cara me sai da toca depois de ficar alguns anos em recesso com um álbum duplo cuja primeira audição traduziu-se em maravilhamento e espanto. Burilando as formas rítmicas do drill’n’bass como ninguém, ampliando sua gama de timbres com a utilização acentuada do piano preparado, mas também abrindo espaço para faixas mais palatáveis como “Bbydhyonchord” e samples de conversas estranhas (?), Drukqs apresenta uma série de clássicos imediatos: “Gwarek2”, “Jynweythek Ylow”, “Meltphace 6”. Como poucos, James tem a manha de renovar em diversas searas ao mesmo tempo, construindo uma obra-prima de estranheza e vanguarda, extremamente diversificada.

6. Hermeto Pascoal – Mundo Verde Esperança [Radio Mec; 2003]
Juntam-se os hermetismos pascoais, ou seja, a mistura bem resolvida e original de música regional brasileira e jazz, com a interpretação de uma banda poderosa e totalmente entregue às conspirações secretas e rompantes do mestre. Pode-se até afirmar que a música de Hermeto permanece igual por muitos anos, mas sendo Mundo Verde Esperança uma autêntica balbúrdia “hermética”, seu espaço nesta lista entre as primeiras colocações está garantido. Sugiro as camadas vertiginosas de “Celso”, a combinação de baixo e sopros em “Caio”, a melodia sinuosa de “Camila” e até mesmo o lirismo lutuoso de “Victor Assis Brasil”. Se resistires a este teste, esqueça Mundo Verde Esperança.

7. The Avalanches – Since I Left You [Modular; 2000]
É realmente admirável e gratificante reouvir este que é o melhor álbum de festa da década. Since I Left You é simultaneamente música de festa, compilando de forma irresponsável trechos oriundos de 3500 discos (isso mesmo!); é música para arrebatar porque é música êxtática, feita com o descompromisso típico da cultura punk; e, por fim, é também música para pensar, mas sob este aspecto leia o post sobre o disco. Vale salientar que embora não tenha criado propriamente um método de composição, o Avalanches foi o que melhor traduziu o cut and paste em termos artísticos, criando nexos simultaneamente com nítida consciência e um alegria desvairada.

8. Portishead – Third [Universal Island Records; 2008]
Desde que foi lançado em 2008, Third não sai da minha lista de audição pessoal. Arranjos secos, percussões preciosas e belas canções entoadas pelo canto desesperado de Beth Gibbons: desta combinação, surgem pérolas absolutas como “We Carry On”, “The Rip” (aqui belamente executada por Thom Yorke e Jonnhy Greenwood) e a comovente “Machine Gun”. Um disco que surpreende não só pela radical correção de rumo, mas pela própria excelência do trabalho.

9. Prefuse 73 – One Word Extinguisher [Warp; 2003]
Talvez tenha feito a opção mais reacionária, já que Vocal Studies… contém de fato a novidade concentrada, com a obra-prima “Point to B” e um punhado generoso de samples os mais interessantes de que se tem notícia. Mas One World Extinguisher é uma enxurrada quase vinte minutos maior que a anterior, um excesso de energia criativa, um aperfeiçoamento e abertura de perspectiva que serviu para confirmar o nome de Herren entre os grandes produtores da década. Basta escutar “Detchibe”, com sua estranha dinâmica de volumes e andamentos, a saturação dos timbres em “Plastic”, o aspecto aphextwínico de “90% of My Mind Is With You” para entender do que estou falando.

10. Shackleton – Three EPs [Perlon; 2009]
Já falamos de Richard D. James, de Guillermo Scott Herren, falaremos mais abaixo de The Caretaker, Kieran Hebden e Moritz Von Oswald. Shackleton, como vocês já devem saber, não poderia faltar nesta lista de grande produtores musicais da década. Poderíamos eleger algumas das compilações da Skull Disco, que possuem faixas até melhores que algumas de Three EPs, como “Death is not Final”, mas este primeiro disco já traz indícios suficientes de que sua sanha sangrenta prosseguirá por mais algum tempo. Shackleton faz parecer que já estamos de fato no século XXI.

11. Radiohead – Hail to the Thief [Capitol; 2000]
Em Hail to the Thief, os experimentos presentes em Kid A e Amnesiac, que ainda negociavam com sonoridades mais dóceis que o grupo parece ter evitado  dali em diante, foram adequados a um excesso, a uma despreocupação com as convenções e a um extravasamento criativo. Deste contexto surgiram faixas geniais como “The Gloaming” e “Myxamatosis”, que afastaram defintivamente os fãs da banda indie.

12. The Caretaker – Persistent Repetition of Phrases [Install; 2008]
James Kirby desafia nosso aparelho auditivo, nossa percepção, nossas opiniões sobre o que é e pra que serve o discurso musical. Como The Caretaker ele deseja sondar o estranho campo da memória através de procedimentos musicais que utilizam a repetição e a manipulação de timbres e de suporte. O resultado é um disco cuja audição dificilmente ultrapassa o “gosto”, mas quando isso acontece cada minuto se converte em uma experiência intrigante.

13. Animal Collective – Merriweather Post Pavilion [Domino; 2009]
Um grande disco de uma grande banda, Merriweather Post Pavilion inscreve o nome do Animal Collective definitivamente entre os grupos que mais podem nos surpreender no futuro. Afinal é exatamente o que eles vem fazendo desde seus primeiros álbuns. Neste, o trunfo são as canções, brilhantemente plasmadas por um saboroso verniz experimental, sem que esse procedimento resulte em uma audição superficial. Pelo contrário, repito aqui: Merriweather… é um álbum desde já clássico pela legitimidade de sua proposta.

14. Carlinhos Brown Presents Candombless [Candyall Music; 2005]
Carlinhos Brown deixou sua marca na década de 80, fazendo percussão para Caetano Veloso. Na década de 90, lançou o excelente Alfagambetizado, com canções e arranjos seus. Na primeira década do século XXI ele também deixou sua marca como produtor e idealizador. Seleção de toques de candomblé, muito bem gravados e executados, junto a baterias eletrônicas, guitarras e sutilezas mil. Outro exemplar de uma aparente rusticidade que se pronuncia com outros sotaques graças às possibilidades da era digital.

15. Limescale – Limescale [Incus; 2003]
Conheci Limescale a pouquíssimo tempo, mas posso afirmar sem medo de errar que se trata de um dos mais impressionantes momentos da música improvisada não só desta década, mas da história recente da música improvisada. Tijolos arranhados, violentos pizzicatos e até mesmo um ditafone são utilizados para extrair as sonoridades rascantes que atropelam o ouvinte.

16. Fennesz – Black Sea [Touch; 2008]
Ao invés de optar pelos loops e timbres abrasivos que marcam Endless Summer e Venice, preferi eleger o momento atual de Fennesz, mais preocupado com nuances e com a diversificação dos timbres, além de uma atenção pronunciada em relação à composição. De oito faixas, muitas podem ser consideradas como destaques do universo fennesziano como “Perfume For Winter”, “Glass Ceiling” “Black Sea” e “Saffron Revolution”. Um disco lírico e surpreendente, talvez o melhor do autor.

17. Nação Zumbi – Rádio S.Amb.A [YBrasil Music; 2000]
Na minha opinião Rádio S.Amb.A é um obra-prima que pôs o Nação Zumbi entre as bandas efetivamente relevantes do rock brasileiro. Como o Sepultura de Roots, o Mutantes do primeiro e segundo discos e o Novos Baianos de Acabou o Chorare, a cada álbum o Nação pós-Chico é uma promessa de felicidade. Rádio S.Amb.A é o marco zero desta nova fase, o início e uma abertura do campo de ação. Um disco matador e efusivo, que bate no peito como Usain Bolt.

18. Rhythm & Sound – With The Artists [Burial Mix; 2003]
Mais um capítulo da carreira de Moritz Von Oswald e Mark Ernestus, a segunda coletânea do Burial Mix com Rhythm & Sound é uma obra prima que com certeza prenuncia o dubstep, mas não se reduz a ele. Ao lado de verdadeiras legendas do reggae como Cornel Campbell, Paul St. Hilaire, The Chosen Brothers, Love Joy, Jennifer Lara e Jah Batta, Oswald e Ernestus cria uma série de riddims personalíssimos, delicados e etéreos. Absolutamente maravilhoso e precursor, como tudo o que a dupla em questão costuma fazer.

19. Caetano Veloso – Noites do Norte [Universal Music; 2000]
Entre o período em que confiou os arranjos de seus discos e shows a Jacques Morelembaum e a fase atual, a obra de Caetano Veloso foi absorvida por uma experiência intermediária mas de primeira ordem. Noites do Norte contempla tanto a combinação de orquestrações com virtuosa percussão baiana que caracaterizava Livro, como já apresentava os maneirismos roqueiros que ganharam espaço com a parceria com Pedro Sá. A esperteza da letra de “Rock’n’Raul”, o arranjo em loop de “Cobra Coral”, a regravação bluesy de “Zumbi” e, sobretudo, o ritmo quebrado e a letra genial de “13 de Maio” são apenas grandes momentos de um disco cheio de surpresas.

20. Four Tet – Rounds [Domino USA; 2003]
A vida é dura. Muitos discos importantes ficaram de fora, mas eu não poderia ser desonesto comigo mesmo a ponto de deixar este Rounds. Sua presença nesta lista se deve a um descompromisso total com a correspondência entre o suporte e o gênero musical, isto é: não é preciso fazer música dançante caso você se utilize de um equipamento eletrônico. Mesmo após ouvir Stockhausen, Ligeti, Kraftwerk, Aphex Twin e outros monstros da eletrônica, este disco permanece para mim um dos mais adoráveis experimentos que já ouvi nesta seara, pela exploração indiscriminada de ambient, hip hop, jazz, etc.

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