Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Billy Bao – May08 (2009; Parts Unknown Records, EUA [Espanha])

Mattin é um artista basco que trabalha com improvisação e noise, além de escrever sobre Software livre e propriedade intelectual. Já colaborou com Oren Ambarchi, Tony Conrad e Matthew Bower, mas seu nome se tornou mais conhecido após formar em 2001 o grupo Sakada que contava com Eddie Prévost e Rosy Parlane. Junto com o baterista Alberto Lopez, criou o projeto Billy Bao, um compositor fictício dissidente de Lagos, na Nigéria, que descobre o punk rock como meio de canalizar sua raiva do sistema. O projeto rendeu alguns álbuns e CD-R’s, sendo este May08 o terceiro álbum. (B.O.)

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Com diversos projetos em âmbitos teóricos e musicais, além de todo o aparato militante que ele embute em suas criações, Mattin dá prosseguimento àquele que parece ser seu projeto mais radical e irônico. Até podemos cogitar a hipótese de que a urgência da música do Billy Bao advenha de uma naiveté desorientada, nutrida por um ideário no estilo extrema esquerda. Mas é claro que por mais que Mattin nos leve a cogitar a hipótese de um trabalho a ser levado a sério, vale também perceber suas nunaces irônicas. Para usufruir as composições punks do dissidente nigeriano Billy Bao, se isto é possível, é preciso em primeiro lugar perceber que muitas das barbaridades que são expostas pelas letras e por sua sonoridade irascível são fundamentadas por uma necessidade de”épater la bourgeoisie
“, não através de um embate direto, mas da sugestão de que certas sonoridades, aliadas a certas idéias, estão para além do tolerável, do concebível e do “escutável”, por assim dizer. O barulho é fundamental na estrutura de May08. Mas Billy Bao não é música chamada “erudita” e não encerra um pensamento originalíssimo, embora sua audição remeta a diversos interesses neste sentido.

Das cinco faixas sem título do álbum, apenas uma é totalmente amparada nos efeitos estridentes da guitarra de Mattin. O restante são composições punks, emolduradas por uma roupagem de alguma forma parecidas com o noise lo-fi do Hospitals, mas na verdade trata-se de uma outra abordagem. São incorporados não só um trecho da faixa “Zombie”, de Fela Kuti, que participa da melhor faixa do álbum (a segunda), mas também percussões metálicas, acordes aparentemente consonantes mas propositadamente mal executados… As vozes são entoadas com má vontade, em tom de reclamação e, às vezes, como na faixa três, podemos perceber uma estrutura musical mais ou menos concatenada. Mas tudo em May08 é tocado de uma forma tão desleixada e, ao mesmo tempo, histriônica, que o resultado parece trazer consigo uma carga niilista repleta de intencionalidade e escracho. Claro que o título do álbum colabora com essa percepção: o maio de 08 não pode reproduzir o gosto pela “cultura” que a contracultura tratou de exacerbar, revalorizando o jazz, a música negra americana e a música oriental. Pelo contrário, ela assume uma certa baixeza, uma profunda aversão a tudo aquilo que compactua com a sociedade de consumo – o “sistema”.

O fato é que May08 não é um happening, um manifesto ou até mesmo uma carta de intenções. Trata-se de uma ilustração possível dentro do universo de problemas que o autor insiste em mobilizar. Não é à toa que ele organizou um livro chamado Noise & Capitalism, distribuído gratuitamente em seu site: trata-se do aprofundamento de idéias que surgiram no início da década tanto no desevolvimento da música eletrônica como também da música aleatória de John Cage, o artista que melhor preconizou a oposição entre barulho e sons ditos musicais, tal como consonância e dissonância se opuseram no século XIX e XX. E a correlata identificação deste problema a um questionamento das forças que amparam o controle comercial das expressões artísticas. Até aí, nada demais, trata-se de um livro de considerações sobre a nossa época. Mas quando transpomos suas questões para o campo de sonoridades de May08 algo parece fazer sentido: é a depauperação das formas já codificadas que faz com que a música de Billy Bao adquira aos poucos um sentido de urgência e radicalismo que soa mais que interessante. (Bernardo Oliveira)

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É relativamente simples descrever em termos sonoros o vocabulário utilizado por Billy Bao: uma música barulhenta, furiosa, que faz uso de vocais gritados quase sempre indiscerníveis e tem como insturmentação power electronics e/ou instrumentos com tamanha distorção e baixa fidelidade na gravação que também acabam parecendo ser esses eletrônicos preparados que criam potentes fontes de ruído. Tudo se estrutura dentro de composições que se localizam entre o noise e o hardcore – no caso, sem a bateria metronômica em última velocidade; retém-se só a fúria e a frontalidade ameaçadora do vocal –, como Sightings e Wolf Eyes. Esses projetos, no entanto, se caracterizam por serem assaltos sônicos em que a enorme intensidade se deve à forma como os barulhos são minuciosamente talhados e bem gravados, criando timbres e texturas avassaladores e únicos, a sua maneira. Em May08, não vemos muito disso. Então qual a graça específica do projeto? Há duas. Em termos estritamente sonoros, é a gratuidade do instrumental que, sem qualquer relevo ou ideia particularmente interessante, mantém-se no entanto coerente com o vocal, dando ao todo a sensação de um surto descontrolado de energia, mais ou menos o equivalente em termos sonoros de uma performance. Pode-se dizer que o mesmo tipo de música poderia ser conseguido por diversos outros em circunstâncias semelhantes, e não seria falso; não é tanto a originalidade o que se ressalta aqui: é mais a consistência do projeto. A segunda graça diz respeito ao conceito por trás de Billy Bao, à identidade inventada do artista de Lagos que usa a música como forma de oposição ao sistema, e particularmente o barulho como ato de insubordinação sonora à eufonia. Pode-se dizer, novamente, que isso está longe de ser algo novo, e que desde o nascimento das músicas de agressão e confrontação, com Suicide, Throbbing Gristle, etc., a ideia já era essa. Novamente, não seria falso. Billy Bao não acrescenta outro capítulo à já extensa história do noise e da música confrontativa. Em todo caso, May08 tem a virtude de chamar a atenção, mais como projeto do que como sonoridade, para os elos entre entretenimento e política, e como trabalhar a resistência dentro desse modelo. A resposta não é muito original, mas também não se pode ter tudo. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 13 de janeiro de 2010 por em experimental, rock e marcado , , , , .
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