Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Evan Parker – House Full of Floors (2009; Tzadik, EUA [Reino Unido])

Evan Parker (Bristol, 1944) é um saxofonista inglês decisivo na criação do terreno para a música de improvisação livre, ou free-improv, no final dos anos 60. Junto com o violonista Derek Bailey e o baterista Tony Oxley, Parker criou a gravadora Incus, e lançou por ela seu primeiro disco, o seminal Topography of the Lungs (1970). Seguiu-se uma extensa discografia com álbuns de sax solo, registros com banda, e uma infinidade de participações em discos de outros artistas, em especial Peter Brötzmann, Tony Oxley, Gavin Bryars, Alexander von Schlippenbach e Barry Guy, além de participar dos grupos Spontaneous Music Ensemble e Music Improvisation Company. House Full of Floors é o segundo disco de Parker pela gravadora americana Tzadik (do também saxofonista John Zorn), pela qual lançara em 2006 Time Lapse. Acompanham Evan Parker o violonista John Russell, o baixista John Edwards e, em algumas faixas, Aleks Kolkowski, com violino de stroh, serra e cilindros de cera. (RG)

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Até hoje, a parte mais conhecida da obra de Evan Parker continua sendo a série de discos que desencadeou o fenômeno do free jazz/free improv europeu, Karyobin, Machine Gun, Nipples, Music Improvisation Company, além do próprio e também decisivo Topography of the Lungs, com Derek Bailey e Han Bennink. O comportamento geral dos músicos nessas sessões é confrontativo, árido, com constantes acessos de selvageria. Ele sempre foi capaz de intervenções violentas, mas em comparação com o colega de instrumento Peter Brötzmann, Parker era um lord do barulho, mais parcimonioso em seus ataques. Mas seria errôneo creditar a Parker apenas essa forma de tocar num determinado período e em grupos maiores. A longeva carreira discográfica mostra que o saxofonista adora testar coisas novas, soar fora de seus registros habituais, fugir da zona de segurança para que a música de fato atinja seu status livre, ou seja, fora dos entraves da composição mas também da repetição de padrões, da circunscrição de áreas de controle. Portanto, não há de se ter surpresa em ver um trio liderado por Evan Parker (quarteto em momentos) soar discreto, e mesmo lírico por momentos, neste House Full of Floors. Como nos discos com Derek Bailey, existe aqui uma preferência declarada pelo elíptico, pela fragmentação, por pequenos detalhes que dão realce ao todo, por uma interação entre instrumentos que existe mais no aqui-agora do que na extensão (já que as intervenções são fragmentárias e apenas em raros casos pode se ver uma construção sonora em que todos os instrumentos sigam linhas convergentes). A moderação no ataque aos instrumentos (violão, baixo acústico e saxofone) faz de House Full of Floors um soberbo disco minucioso em que cada instante guarda para nós a possibilidade de um pequeno microparaíso.

A assinatura única de Evan Parker como artista do disco encontra ressonância nas primeiras faixas. Parker está proeminente no registro, com o baixo e e o violão em atuações mais modestas, atuando mais para criar tensão dinâmica do que para atuar em pé de igualdade com o saxofone. À medida que o disco passa, o trio adquire maior coesão, sem uma voz se sobrepondo às outras. Momentos particularmente interessantes são as incursões de Aleks Kolkowski, utilizando instrumentos inusitados e fazendo o som do trio pender para outros registros a fim de dialogar com os timbres de uma viola de stroh ou uma serra (Parker, como não poderia deixar de ser, faz isso particularmente bem em “Aka AK”, dobrando o som da serra por vezes, e em geral tornando-a harmônica ao conjunto). Mas o grande elogio a fazer a House Full of Floors é o mesmo a ser feito a todo grande disco de música improvisada, dentro de um determinado repertório ou não: é um disco em que se sente a aventura das escolhas feitas no momento, o efeito quase vertiginoso de acompanhar músicos interagindo, propondo timbres, volumes, fraseados. No caso de House Full of Floors, a relação entre som e silêncio também é criadora de tensão, uma vez que o comedimento dos músicos fornece sempre um caráter lacunar no qual o silêncio e a expectativa de sons por vir se inscreve. Em seu modo de tocar, em seu modo de conceber música improvisada e em seu modo de trabalhar conceito sonoro, Evan Parker mostra mais uma vez que é um dos músicos mais brilhantes em atividade. (Ruy Gardnier)

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A proposta é clara, um jogo aberto e de poucas pretensões. Como descrito no encarte: O plano era gravar o trio (Parker, John Russel e John Edwards), mas quem veio pra gravar (Aleks Kolkowski) também entrou na brincadeira. Brincadeira séria, quando se tratam de figurões do free jazz envolvidas. São seis pequenas peças e três faixas que ultrapassam os 10 minutos. Como conversas entre velhos camaradas, os instrumentos demoram pouco a se entrosar. Rapidamente se propõem desafios, que cada um responde à sua maneira absolutamente natural e potente.

Ouvir o trio (quarteto em alguns momentos) dá a impressão que tudo ali flui muito naturalmente, sem pressões. Os instrumentos oscilam entre fragmentos melódicos e ataques agudos, de uma elegância ímpar. Ocupam espaços não definidos, mas evitam sobrepor-se. Respeitosamente vão abrindo caminho para momentos cada vez mais redondos e equilibrados. Só não se sabe se para quem ouve, ou para Parker e cia. que suspeito, já sabiam aonde isso poderia dar. A chave pra definir House Full Of Floors é a intimidade, e o que ela proporciona quando colocamos em jogo craques que se conhecem de outros combates. (Fernando Rocha)

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Ah, as listas… Quanto prazer nos dão, a nós listólogos… Mas quanto sofrimento também! Quantos dedos cortados, quantos lamentos e descobertas intempestivas, fora de hora… Este não foi o caso de House Full of Floors, cujo alijamento de minha lista de escolhidos se deu mais por displicência ou sei lá que outro gênero de comportamento autodestrutivo que torna a vista oblíqua e a mão pesada… Pois se foram cometidos vinte grandes discos em 2009, o álbum em questão deveria estar entre as primeiras colocações. Pelo menos é o que diz o “gosto”, pois desde que foi lançado no final do ano passado, House Full of Floors é uma audição que não sai das paradas de sucesso… aqui de casa.

Trata-se de um conjunto formado pelo saxofone tenor e soprano de Evan Parker, pelo baixo de John Edwards e pela guitarra acústica de John Russell, três ingleses reconhecidamente competentes tanto na arte do improviso como na habilidade para extrair o máximo em novidade timbrística de seus respectivos instrumentos. Tiveram a manhã de gravar um álbum numa igreja inglesa reconhecida por sua excelente acústica (Igreja de São Pedro, em Whitstable); de elegerem um perito em instrumentos antigos do calibre de Aleksander Kolkowski, que gravou o grupo em cilindros de cêra e tocou viola em algumas faixas; e, como se não bastasse, lançá-lo através do Tzadik, selo americano que pertence a John Zorn. A chave aqui, porém, não é tanto a diversidade de timbres e possibilidades, à exceção somente da faixa final, “Wind Up”, onde se pode apreciar um raro diálogo entre os instrumentos e sons do cilindro de cêra. Aqui vale mais a trama, a criação de texturas e dinâmicas que demonstram o caráter aventureiro da música desses ingleses. Se é possível colocar nesses termos, a única “regra geral” da improvisação se refere a este caráter de aventura, de perigosa sondagem do desconhecido e até mesmo do alheio, como é o caso de House Full of Floors, onde os instrumentos buscam tecer um diálogo essencialmente ambíguo, ora construindo dissonâncias e ressonâncias, ora afastando-se violentamente uns dos outros em combate de morte… Mas qual, a beleza do encontro reside justamente no vigor próprio com que cada sonoridade investe umas contra as outras, obedecendo a dinâmica de aproximação/distanciamento que descrevi acima.

Não posso ser leviano a ponto de dizer que “não tem como errar”, sobretudo em um ano em que grandes artistas se meteram em grandes canoas furadas – no caso particular de Parker, Manafon… Mas o grande lance é que o gênio por trás dos quatro instrumentos, livres dos microfones e valorizados pela acústica monumental da renomada igreja inglesa, transforma o encontro numa experiência no mínimo impressionante, ao nível dos melhores trabalhos de improvisação da música inglesa do século que passou. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 21 de janeiro de 2010 por em improv e marcado , , , , , .
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