Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Leyland Kirby – Sadly, The Future Is No Longer What It Was (2009; History Always Favours the Winners, Reino Unido)

Leyland James Kirby (n. 1974, Inglaterra) é um músico eletrônico de noise, drone e ambient. Na segunda metade dos anos 90 ele criou com Andy Mac Gregor a gravadora V/Vm Test, onde gravou com inúmeros pseudônimos, entre os quais V/Vm, The Caretaker, Billy Ray Cyrix, Notorious P.I.G. e Bored in Columbia. Como V/Vm, seu projeto mais prolífico, fazia colagens de terrorismo sônico em cima de hits de Chris de Burgh, Bee-Gees, Paul Young ou, em outra chave, Aphex Twin. O projeto The Caretaker trabalha em cima de discos de 78rpm lançados nos anos 20 e 30. Passou a lançar discos como Leyland Kirby apenas em 2009. Sadly, the Future Is No Longer What It Was é um álbum de 3 CDs ou três vinis duplos. Há um CD duplo com o mesmo nome e 80% de material inédito. (RG)

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Algo muito curioso e instigante acontece quando artistas que gravam sob pseudônimos começam a lançar discos com seu nome de batismo. No começo da década, o choque foi com Keith Fullerton Whitman, que largou inteiramente a estética do Hrvatski e começou a lançar discos de noise/ambient com seu nome próprio. Com Matt Elliott aconteceu coisa semelhante, largando as texturas abrasivas e o drum’n’bass experimental do Third Eye Foundation para pesquisar territórios mais íntimos gravando baladas desencantadas de cabaré. Leyland Kirby, ou até ano passado James Kirby, era um artista de música que podia ser intensamente sentimental e frágil, como Caretaker, mas sob o modo de uma memória atemporal, em todo caso impessoal; e o V/Vm era basicamente música confrontativa e irônica. Quem já ouviu The Caretaker vai ter amparos muito claros para ouvir Sadly, the Future Is No Longer What It Was, mas a percepção de que algo mudou é muito patente, e essa variação também é da ordem da intimidade. Seja nos desencantados títulos das faixas do disco, seja nas morosas teclas de piano ou teclado acionadas com abandono, seja nos densos drones que ativam o trabalho da memória, existe essa enorme impressão de um disco executado em primeira pessoa, um disco confessional.

Imagino que poucos admiradores do Caretaker ou do V/Vm imaginavam que iriam ouvir um novo projeto de Kirby e se ver instalados num limiar entre o dark ambient e o piano climático/melódico de Angelo Badalamenti. Mas, exceto pela emocionalidade por momentos desbragada, SFINLWIW não é um passo tão longe do que já acontecia com The Caretaker (em termos sonoros, não no conceito, absolutamente diferente). A sensação predominante continua sendo a de uma grande desolação, de um universo enevoado e intangível tendo como único acesso palpável a memória, e o poder de reconstrução diáfana que tem a memória. Como as matrizes do tempo do onça que sãod o material de base do Caretaker, as sonoridades em SFINLWIW remetem – sem reconstituir: não tem nada de retrô rolando por aqui – a um tempo passado, talvez imemorial, talvez irrecuperável, vivido apenas através da lembrança, do sonho, dos estados que não são vividos como “realidade”. A própria duração do disco é a princípio desencorajadora (quem dispõe de quatro horas seguidas para ouvir o disco na íntegra), mas ela se revela integral às preocupações do projeto: realizar um rigoroso trabalho de imersão em que aos poucos as balizas do tempo passam a não mais funcionar, porque aos poucos os drones, as notas de piano, as melodias parecem estar ali há horas ou desde sempre.

Mesmo assim, talvez o conceito não agrade a todos. Nesse caso, ainda resta a atentar para o fato que Leyland Kirby é, junto com Fennesz, com Philip Jeck, com Keith Fullerton Whitman, um artista que consegue talhar timbres inauditos, impressionantes porque inefáveis e ao mesmo tempo pesados, incrivelmente emocionais mas ao mesmo tempo abrasivos, entrópicos, ameaçadores. Para um atalho ao disco, a faixa título oferece em brevidade o porquê (ou não) de se ouvir o disco. É uma música que engaja a emoção sem recorrer a expedientes banais ou óbvios – mesmo quando começa a aparecer aquelas coisas envernizadas e pseudoprofundas da Type Records, as composições revelam sua natureza mutante, sem rumo, deambulatória, sobretudo nos insistentes momentos de piano, que parecem apontar para alguma evolução mas acabam sempre remetendo à reiteração do agora. Sadly, the Future Is No Longer What It Was é uma obra imprescindível de nosso tempo, que nos assombra e encanta tanto pela maneira como a música nos afeta a temporalidade e nossa relação com estados evanescentes de percepção, quanto pelos preciosíssimos timbres e texturas únicos conseguidos por Leyland James Kirby. (Ruy Gardnier)

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Não são poucos os motivos pra chamar esse projeto de pretensioso: uma obra que se estende por mais de quatro horas, faixas com títulos que não nos permitem outra leitura senão puro pessimismo e um inegável apreço aos detalhes fazem deste Sadly, the Future Is No Longer What It Was um trabalho que deve ser apreciado com muita atenção.

Dividido em três partes, o disco se apresenta como um exercício estético em torno de temas ricamente ilustrados por ruídos numa longa viagem sônica. Sadly, the Future Is No Longer What It Was tem um quê de drone e, em seus melhores momentos, remete à série de discos ambient de Brian Eno. Kirby demonstra uma enorme capacidade em construir ambientes sonoros tão complexos que nos preenchem de angústia e melancolia, como um silêncio perturbador numa terra desolada eliotiana. Sem pressa, adiciona camadas de texturas aos poucos, apoiadas em longas melodias que se estendem tal qual um deserto sem fim. Há um tom nostálgico, quase fantasmagórico. Uma sensação estranha, como se ouvíssemos anotações sonoras de um futuro que, paradoxalmente, já nos é familiar.

Atravessar esse longo trajeto é um feito para poucos (são quase quatro horas de paisagens climáticas), e é neste ponto que Sadly… deixa a desejar. A falta de concisão dilui a força da obra que, ao se arrastar por tanto tempo, acaba também por exaurir o ouvinte menos persistente. Entretanto o saldo final é positivo. O disco não arrebata como Persistent Repetition Of Phrases mas suas paisagens permanecem vivas na retina por um longo tempo. (Fernando Rocha)

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Moças e rapazes, vou lhes dizer: poucos músicos hoje requisitam tanta atenção e mobilização do ouvinte como James Kirby. E não me refiro somente à extensão intempestiva do álbum em questão, cuja audição pode durar dias, no meu caso, meses. Sua obra também é de uma variedade de propósitos que se insinuam sob os seus diversos pseudônimos. Através do mais instigante deles, The Caretaker, ele produziu uma das peças mais fascinantes da década que passou, a faixa “Persistent Repetitions of Phrases”, uma sondagem poética dos recantos mais recônditos da psique humana, um estudo a respeito do comportamento e da própria natureza da memória. Agora, sob um heterônimo sugestivamente timbrado com seu nome próprio, Kirby desafia o ouvinte em outra quitanda, propondo, através de um tour de force, uma experiência do presente, representada por uma ampla gama de discursos sonoros compatíveis com o que se produz hoje em termos de ambient, drone, modern classical e outros rótulos que mais confundem que explicam. Ainda que este álbum seja mais referencial e “musical” que todos os anteriores, percebe-se que Kirby carrega cada uma das vinte faixas de Sadly… com sua assinatura peculiar. Trata-se portanto de um exercício de cunho prático, puro suor de compositor, que aparentemente não se confunde com o intelectualismo carregado do The Caretaker. Se por muitas vezes ouvimos os pianos preparados de Drukqs, as névoas ruidosas de Wolfgang Voigt ou mesmo algo dos trinados singulares do glitch, estes se apresentam como uma reinterpretação evidente, cunhada sob a batuta parcimoniosa e pungente de Kirby.

Até por isso a relação entre novidade e pastiche aqui é de uma tensão que em certo sentido compromete o disco… E mesmo assim podemos enumerar em suas quase quatro horas de audição diversos momentos em que as referências explodem em uma musicalidade autônoma e mais que interessante. Na destreza ao mesmo tempo terna e melancólica com que ele mistura ambiências com sintetizadores e pianos preparados em “When Did Our Dreams And Futures Drift So Far Apart?”, na riqueza das variações timbrísticas de “Stay Light, There Is A Rainbow A Coming”, no contraditório comedimento noise de  “The Sound Of Music Vanishing” e na utilização extravagante dos sintetizadores da faixa título, Sadly… é um disco que se põe diante do ouvinte como um livro, que lhe exige paciência e atenção para que apreenda todo o seu conteúdo e, só assim, seu significado. Pois o que determina a relevância deste novo heterônimo é o seu modo peculiar de redimensionar as correntes da música atual, operando mais por sobreposições de estilos do que por burilações autônomas; por outro lado, a extensão das faixas faz parte da concepção do álbum, análoga a de um compêndio que funciona ao mesmo tempo como declaração de amor ao aqui e agora, ao instante, ao momento, à intensidade dos corpos e do universo… Perdoem-me o filosofema, mas assim como a música de Hecker ou até mesmo dos grandes compositores do século XX, a de Kirby é assumidamente pretensiosa em relação a esses termos. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 21 de janeiro de 2010 por em ambient e marcado , , , , .
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