Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Elza Soares – A Bossa Negra (1960; Odeon/EMI/Dubas, Brasil)

Elza Soares nasceu dia 23 de junho de 1937 no Rio de Janeiro e foi revelada para todo o Brasil no final da década de 50 através do show de calouros de Ary Barroso. Seu primeiro sucesso veio em 1959, com o compacto “Se acaso você chegasse”; logo depois gravou seus dois primeiros álbuns, Se acaso você chegasse e A Bossa Negra. Na década de 60 excursionou pelo país, lançou diversos discos e cantou em programas de rádio e televisão, alcançado projeção nacional. Durante a década de 70, já reconhecida como uma das grandes cantoras brasileiras, passou a excursionar pela Europa e Estados Unidos onde adquiriu fama e reconhecimento. Em meados da década de 80 enfrentou dificuldades pessoais graças ao desaparecimento de seu filho com o jogador Garrincha, mas ainda assim participa da gravação de “Língua”, no álbum Velô de Caetano Veloso. Parte para um período de 9 anos na Europa e retorna em 97, com o disco Trajetória. Ressurge em 2002 gravando um de seus melhores discos, Do Cóccix até o pescoço, com produção de José Miguel Wisnik e participação de Caetano Veloso, Seu Jorge e Jorge Ben Jor. Com mais de 30 álbuns gravados e 50 anos de carreira, Elza foi agraciada com o título “Cantora do Milênio”, conferido pela BBC de Londres. (B.O.)

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No status do MSN de meu amigo e DJ baiano Mauro Telefunksoul está escrito: “Tim Maia é rei e Elza Soares é rainha”. Partilho com Mauro da mesma opinião, que defendo com a natural e compreensível arbitrariedade de fã. Para mim é  simples: Tim Maia é rei porque é um autêntico soul man que não só foi agraciado pela natureza com um timbre de voz excepcional como também desenvolveu uma forma muito peculiar de articular as sílabas, escolher as dinâmicas e as entonações, criando um estilo de interpretação que transfigura imediata e complatamente a canção. Porque era um compositor inspirado, que criava canções ao mesmo tempo afinadas com o gosto popular e riquíssimas nas melodias e harmonias. Porque, como um dia Caetano Veloso se referiu a Jorge Ben Jor, foi um “solucionador cultural”  que criou com sua mistura de baião, samba, soul e funk um estilo musical que até hoje sustenta 100% dessas bandinhas de “samba-rock”. Tim Maia também é rei porque era um arranjador sem igual, basta escutar os quatro primeiros discos e ver como ele sabia dosar economia de notas e acordes com pujança na execução, obtendo resultados mais que eficazes. Por fim, Tim Maia é rei e continuará sendo porque sempre reivindicou sua própria independência e liberdade em relação à mentalidade do meio musical brasileiro, muitas vezes de forma agressiva e complicada, mas sempre autêntica. Mas e Elza Soares? Elza não é propriamente uma compositora, não é arranjadora, não se notabilizou por grandes entrêveros ideológicos com a indústria do disco, não reclama acintosamente do som. Alguém poderia dizer: “Ora, Elza é uma cantora como Elizeth, como Aracy, uma grande cantora, mas porque haveria de ser a rainha?” Se eu soubesse essa resposta não teria ficado calado na tarde do dia 31 de dezembro, quando, à beira da piscina e cercado por birinaites e petiscos diversos, discuti com um grupo de familiares e amigos a respeito das grandes cantoras do Brasil.

– “Mas é evidente que a Alaíde tem uma voz muito mais bonita que a da Elza, que parece uma taquara rachada!” – bradou minha mãe com jeito de que queria guerra!
– “Não é que ela seja uma taquara rachada, ela só usa a voz para copiar aquele americano, como é o nome mesmo?…”
– “Louis Armstrong”, acrescentei, já contando os últimos grãos de paciência.
– “Não, a negona é genial, é a maior cantora do Brasil! Tem Bethânia, tem Maysa… Mas Elza é a autêntica “Voz do Morro” e não tem pra ninguém!
– “Sim, quando ela cantava samba era até legal, mas quando ela começa a “arranhar” (sic) a voz me dá nos nervos! Aliás, Bernardo, chega né? Já é a terceira ou quarta vez que ouvimos esse disco!”, prosseguiu a mãe.
– “Mãe, deixa o disco rolar, tá todo mundo gostando. O que você quer ouvir afinal?”

A resposta veio de bate-pronto, aquele rompante feminino, indecifrável e incoveniente, mas que aparenta introjetar uma autoridade de mãe-natureza:

– “Eu adoraria escutar aquela menina que… joga o cabelo e pinta o olho… como é mesmo o nome?!”
– “Amy Winehouse!”
– “Extatamente!”

Respirei fundo e comecei como que a palestrar para minha mãe, meus irmãos e amigos, todos entre uma alegria recém-adquirida pelas primeiras latinhas de cerveja:

– “Eu posso até tirar Elza para ouvirmos a Amy, uma boa cantora mas que se perdeu em arranjos bobocas e canções frágeis…”
– “Lá vem ele…”, sussurra minha mãe entredentes.
– “Mas o fato é que não existe no Brasil cantora mais inovadora que Elza Soares. Ela representou a música brasileira, não como expressão de uma identidade, mas como força viva e presente, um elemento metafísico da música brasileira, um sincretismo absoluto!” (Imaginem agora apupos, gritos, assovios, palavrões: reações decorrentes da utilização das palavras “metafísica” e “sincretismo”…) “Calma, calma, eu explico. Temos cantoras maravilhosas, cada uma delas com características próprias que vale enumerar. Aracy e seu timbre rascante, Elizeth e seu trânsito livre entre morro e asfalto, Marlene e a vanguarda, Emilinha e a performance, Dalva e o virtuosismo, Dolores e a simplicidade pré-bossa, Clementina entre o passado e o futuro, Alcione e a exuberância, Beth Carvalho e o samba, Bethânia e o teatro… A lista seria longuíssima e acho que eu não conseguiria encaixar minhas cantoras prediletas em um ranking, pois me ocasionaria muito sofrimento… Mas uma certeza eu tenho: Elza está em primeiro lugar! E isto por uma razão simples: ela possui todas as grandes características das grandes: as variações de timbre, a indiferença na seleção do repertório (o ‘trumpete’, os cacos…), a novidade na interpretação, o virtuosismo, a performance irretocável, o teatro, o samba e por aí vai… Elza joga um molhos na síntese desses atributos…” (risos generalizados) “Ela mistura esses atributos e joga sobre eles uma energia, uma variedade de possibilidades, uma riqueza de entonações, de climas, de possibilidades com as quais ela trabalhou a vida inteira, sempre burilando-as, modificando-as, mas nunca da mesma forma, nunca reduzindo-se às fórmulas pastichentas dessa MPBzinha sem graça que anda por aí…”

A situação anda tão dramática que neste momento até minha mãe concordou. Mas logo depois, um dos presentes se virou para mim e perguntou:

– “Mas Elza teria um grande disco, Bernardo? Algo como Álibi, Drama, Na fonte, Elizeth sobe o morro, Marinheiro só… Todas as grandes cantoras possuem seus grandes discos, mas e a Elza?”
– “Bem, Elza foi uma das mais prolíficas e regulares artistas do disco no Brasil. São muitos trabalhos, todos muito bons, mas a julgar pelos álbuns que você sugeriu, parece se referir a uma obra-prima, certo?”
– “Certo…”
– “Então, Elza pede passagem, Na roda do samba, Com a bola branca, os discos com Miltinho, Baterista: Wilson das Neves… Vários discaços…”
– “Mas estes que você citou… são obras-primas?”

Parei para pensar e não sei se pelo sol escaldante ou pela quantidade considerável de atividades paralelas, como a “beberagem” e a comilança, o assunto se perdeu. Mas fiquei encasquetado, forçando a barra para descobrir o grande disco, aquele momento fonográfico irretocável em que Elza não só desfila todos os seus trunfos como também está cercada por grandes instrumentistas, arranjadores e compositores. Cheguei a cogitar a pérola Baterista: Wilson das Neves, mas uma bobagem como “Edmundo”, mesmo gravada com toda aquela energia maravilhosa, compromete o resultado final.

Assim, cheguei naturalmente ao álbum A Bossa Negra, gravado no mesmo ano de Se acaso você chegasse, seu primeiro disco. A escolha entretanto não se deu por conta dos tópicos listados acima, mas sobretudo porque, em primeiro lugar, seu nome provocador, cunhado por Ronaldo Bôscoli, evoca algo como uma troça ao legado sem suingue da bossa de Tom, Vinícius e Menescal, o que me compra imediatamente. Segundo a própria Elza, este foi um momento em que ela se identificou com o suingue de João Gilberto, o que é óbvio, sendo a bossa negra de João consideravelmente mais suingada que a bossa branca de Tom e Menescal. Em segundo lugar porque considero que é neste álbum que Elza desfila seu arsenal de possibilidades de forma pungente. São entonações e articulações vocais que podem variar de forma vertiginosa da ironia ao drama, do barroco ao minimalismo, da irreverência ao lirismo… Os improvisos, os cacos, nem sempre respondem ao que pede a música e nesta desproporção reside o que há de mais maravilhoso no disco, seu clima incontido, desassossegado. E isso tudo em cima de um repertório relativamente pobre, com canções nem tão brilhantes mas que crescem de forma absurda com sua interpretação. Exemplos desta modalidade: “Fala baixinho”, de Arcênio Carvalho e Édson de Menezes e “O bilhete” de Dunga, entre outras. Imaginem o que ela não faz nas grandes canções do disco?… Na faixa de abertura, “Tenha pena de mim”, sucesso em 1937 na voz Aracy de Almeida, Elza parece retomar o legado estridente da “dama do Encantado”, mas lançando cores jazzísticas em seu trinado original. Em “Marambaia” de Henricão e Rubens Campos, ela pinta o sete assim como na lindíssima “Cadeira Vazia”, gravada anos antes por Francisco Alves, composta pelo mesmo Lupicínio que a presenteou com seu primeiro hit. Sem contar o trumpete “armstrong” de “Perdão”… Ah sim, tem “Beija-me”, aquela que Zeca Pagodinho celebrizou através de uma novela e que aqui conta com uma interpretação precisa e transbordante, contagiante. E “Boato”, com as impagáveis e divertidas imitações de Dalva, Miltinho e Alaíde? Genial… Um disco irretocável que conta com arranjos do mestre Astor Silva e instrumentação de gigantes como Das Neves, Pedro Sorongo, Hélio Delmiro e Luiz Eça… Mas exitoso sobretudo por obra da genialidade de intérprete de Elza Soares. Genialidade que me leva a crer que nem sempre as mães têm razão. (Bernardo Oliveira)

* # *

Antes do renascimento cultural de Elza Soares, ocorrido há mais ou menos dez anos com reedições e o lançamento de discos de músicas inéditas, a minha referência era que Elza era a viúva de um dos maiores gênios do futebol, o anjo das pernas tortas Mané Garrincha. Injustiça, pois a intérprete sempre teve méritos próprios. Exemplo disso são os explosivos 30 e poucos minutos de “A Bossa Negra”, o disco é daqueles que mal se termina a audição e já dá vontade de voltar pra primeira faixa… e recomeçar a festa.

Em um repertório composto por canções que circulam em temas familiares ao samba, Elza trabalha magistralmente fazendo a banda, competentíssima por sinal, tentar lhe acompanhar em canções como “Eu quero é sorongar”. “Beija-me” nos dá a impressão que a cantora desperdiça o seu último sopro de fôlego, mas daí que novamente nos surpreende. Com arranjos de Astor Silva e uma banda estelar que equilibra doses de música norte-americana e samba-canção, Elza tem o terreno ideal para exibir todo seu arsenal. A cantora soa poderosa e, em alguns momentos, misteriosamente frágil. Em canções como “Boato”, simula a participação de estrelas do rádio. Em todas, afirma sua personalidade vibrante e apaixonada. Elza não é perfeita, e é aí que ela torna-se genial tal qual o camisa 7 do Alvinegro que, com suas pernas tornas, reinventou o espetáculo. A cantora trabalha no limite, transformando em trunfo sua falibilidade. (Fernando Rocha)

* # *

As faixas extra do relançamento deste A Bossa Negra pela Dubas dão uma boa dimensão do que era Elza Soares em seu começo de carreira. São músicas de compactos lançados em 1959 como “Mack the Knife” e “In the Mood”, standards do repertório jazz/music hall americano, e Elza deslumbra de desenvoltura, exercitando seu gingado com notas rápidas e um clima lúdico-festivo que lhe cai muito bem. O domínio do aspecto performático, moldado pela experiência com o rádio e como crooner, é evidente. E uma certa postura também: Elza se constrói e constrói seu estilo de canto como atração, para o bem e para o mal. Para o bem porque ela faz miséria cantando, tem um vozeirão, uma força na empostação, uma fúria de mulata – que aliás dá toda a propriedade para ela cantar “As Polegadas da Mulata” – que deixam imediatamente as marcas na memória de quem ouve. Para o mal porque existe o aspecto circense, certamente adorável por vezes, mas por vezes também limitador da força que une cantora e canção. Esse aspecto circense pode ser observado em momentos mais claramente extravagantes de Elza, como nas brincadeiras com o timbre de Louis Armstrong (ele mesmo um artista que também usou do circense para se relacionar com seu público, de forma até mais subserviente), nas imitações de Alaíde, Miltinho e Dalva, nos gritinhos… Mas ele existe até mais presente numa forma de afetação técnica que prestigia a força da voz em detrimento da força da interpretação. Isso, todavia, não é nenhum problema em grande parte do disco, que realmente pede uma relação irreverente, charmosa e algo desassociada do material a ser cantado, como os sambões, a extática “Eu Quero É Sorongar” ou a dengosa “Fala Baixinho” (e a deliciosa “Avec no Leblon”, também nos extras). Os sambões, particularmente, são os grandes destaques do disco: tanto “Tenha Pena de Mim” quanto “Beija-me” são versões irretocáveis, com presença, suíngue e energia. Mas nos sambas-canção ou em faixas que pedem um pouco mais de invstimento sentimental na interpretação, somos presenteados com faixas em que curiosamente ouvimos faixas sem dúvida dramáticas, mas despidas de intimidade, a voz pairando acima da canção. Mesmo a Dalva de Oliveira, cujos arroubos vocais e tecnicismos a Elza inicial parece querer tomar como farol, tem uma inequívoca relação emocional com o material que canta. Elizeth, então, nem se fala: é ao mesmo tempo a lady da canção e emoção à flor da pele, elegância e sentimento. A Elza de A Bossa Negra é certamente capaz de suscitar maravilhamento, mas apenas como sambista ou crooner – ou seja, longe de jogar nas onze. Ainda demoraria um tempinho para que ela desenvolvesse com o material mais sentimental um tipo de atuação que não fortalecesse só a cantora mas também a canção. Mas onde se pede suíngue, suor e malandragem, A Bossa Negra de Elza é maioral. (Ruy Gardnier)

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2 comentários em “Elza Soares – A Bossa Negra (1960; Odeon/EMI/Dubas, Brasil)

  1. Joao Henriques
    26 de janeiro de 2010

    O texto d’hoje é simplesmente genial. Além disso, tenho dois amigos que fazem anos a 23 de junho, ambos geniais também no uso da voz, do ritmo, das entoações, mesmo não sendo cantores (fazem rádio). Tá muita bom Bernardo, só tenho pena de não conhecer nada da Elza, onde é que eu posso arranjar estes discos?

  2. ronny
    2 de junho de 2012

    com certeza elza e rainha e tim maia e rei salve ambos viva esses reinados………..

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Publicado às 26 de janeiro de 2010 por em samba, Uncategorized e marcado , , .
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