Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Subway – Subway II (2009; Soul Jazz, Reino Unido)

O Subway é Alan James e Michael Kirkman, dupla inglesa que tem produzido gravações desde 2001, quando lançaram o 12″ entitulado Subway Tracks Vol.1. Em 2005, lançaram pelo selo Sunday Best o seu primeiro LP, Empty Head. O duo tem fortes influências de disco e principalmente krautrock, especialmente os projetos Cluster e Harmonia. Em 2008 foi lançado o single Simplex, causando grande curiosidade na cena inglesa. Finalmente em 2009, pela gravadora Soul Jazz, saiu o segundo LP do duo, Subway II. Gravado no estúdio caseiro da dupla, o disco foi todo produzido utilizando antigos equipamentos analógicos. (Fernando Rocha)
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Dizem os mais afoitos que cada década revisita o que aconteceu vinte anos atrás. Se depender dos recentes (re)lançamentos, já devidamente camarilhados (Harmonia’ 76 e Kluster), essa segunda década do novo século leva de bônus a sonoridade eletrônica de quarenta anos atrás. Arrisco-me soar repetitivo ao trazer à discussão Subway II, disco de 2009 da dupla londrina. Já em uma primeira audição, fica evidente a afinidade de James e Kirkman com grupos como Kraftwerk, Cluster e Harmonia. Entretanto, há uma vontade legítima de construir, a partir do vocabulário de outros tempos, uma sonoridade atual, baseada em timbres de sintetizadores analógicos.
O disco começa com “Persuasion”, e já entrega um loop hipnótico que vai paulatinamente ganhando novos elementos. Os primeiros segundos da audição do álbum são como uma apresentação aos elementos formais que irão permutar-se durante os 50 minutos de Subway II. Segue assim por “Lowlife” e “Simplex”, essa última o primeiro single do álbum. “Simplex” se apóia em uma base percursiva que remete ao New Order. Em seguida vem a grande faixa do disco, “Harmonia”, que nos presenteia com um passeio climático. Sem o ritmo marcado das faixas anteriores, a música incorpora toda a sonoridade do grupo homônimo. A partir daí, o duo começa a incluir mais ingredientes em sua mistura de referências históricas, por vezes teclados e batidas nos remetem à disco de produtores italianos como Giorgio Moroder (responsável pela indefectível trilha sonora de Scarface), outras vezes lembranças de rock progressivo. Dessa segunda, e melhor parte do disco, destaca-se a última faixa: “Xam” é apoteótica e vem num crescendo hipnótico até explodir numa faixa pronta para a pista.
Ao fim da audição, ficamos em dúvida sobre o propósito de Subway II — um disco que intercala belas composições para audição caseira e outras, feitas para a pista de dança. Assim como o modo que Alan James e Michael Kirkman jogam com suas referências, a indefinição do disco nos faz acreditar que apesar de um grande potencial, ainda falta amadurecimento na busca por uma identidade sonora mais nítida. Aliás, curioso notar que, ao menos são 3 as referências/homenagens diretas a pioneiros da música eletrônica: “Persuasion” (Throbbing Gristle), “Lowlife” (New Order) e “Harmonia”. O exagero de citações, intencionais ou não, parece impedir que a dupla vá além da cartilha trilhada por tais cânones, mesmo dando fortes indícios de que é capaz. (Fernando Rocha)
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Não é de hoje nem de ontem que artistas jovens pegam sintetizadores e instrumentos em desuso tecnológico para extrair algum som deles. Parte do que caracterizou o Stereolab nos anos 90, por exemplo, foi esse interesse que do ponto de vista de hoje é pioneiro na pesquisa do passado, de nossos “dinossauros tecnológicos”. Mas o boom foi mesmo nos últimos anos, com o sintetizador invadindo toda e qualquer área de música, do indie (M83) ao underground inglês (Joker), passando pelo drone (Emeralds) e indo ao novo indiepop do glo-fi das bandas novas de 2009 (Washed Out, Toro Y Moi). Ou então aparecem projetos como Oneohtrix Point Never, que pega um sintetizador vintage e produz uma música que no timbre e na construção não acrescenta rigorosamente nada à música de seus inspiradores, como Tangerine Dream, Cluster, Harmonia etc. Os recém-cunhados termos “pop hipnagógico” e hauntology, apesar de evocativos, não conseguem esconder o fato de que é basicamente uma onda retrô que está aparecendo. E, a se julgar pelas coisas que a Ghost Box lança (excetuado o Advisory Circle), essa onda não tem interesse nenhum além do pitoresco de suas eleições sonoras (nomeadamente a eleição de que som fetichizadamente preferido eles vão reproduzir ou samplear).
Mas tudo pode ser fonte inspiradora para o artista genuíno, mesmo movimentos revivalistas. Que o diga Aphex Twin com seu projeto Analord ou Joker, que single a single lança algumas das faixas mais eletrizantes de seu tempo, com uso criativo de batida e padrões de saturação sonora de sintetizador. O grande artista pode pegar um material já hiperbanalizado ou anacrônico e transformar em algo inaudito e interessante a ouvidos atentos ao presente. Mas aqui a ocasião é para falar do Subway, mais especificamente do segundo álbum do grupo, apropriadamente intitulado Subway II. Na maior parte, e em especial em seu começo, dá para aplicar aqui o mesmo que se disse acima a respeito do Oneohtrix Point Never: parece um projeto de repertório dos grupos alemães do começo dos anos 70., o que quer dizer que eles sequer reimaginam as sonoridades propostas por grupos como Cluster e Kraftkwerk, mas simplesmente reproduzem os padrões por eles estabelecidos em faixas originais (err…). “Persuasion” abre o disco com puro Kraftwerk da época de Autobahn; “Lowlife” é a música que o Fuck Buttons faria se a dupla Hung/Power não fosse lá grandes coisas; “Simplex” é uma improvável música de churrascaria com sonoridades de electro; “Harmonia”, bem, é uma homenagem a Harmonia que dá vontade de a gente largar o disco e ir à fonte. O disco fica mais interessante em sua metade, em que se salvam “Jupiter” e “Delta II”, facilmente as mais inventivas das nove composições de Subway II: a primeira pelos chocalhos nos padrões percussivos e por fraseados melódicos flutuantes, não totalmente inseridos no padrão rítmico, e a segunda pela reavivada que a batida reverberada dá ao poinhoinhóin do synth à Vangelis e Tangerine Dream.
Assim, cabe a dica: se você quer ouvir um projeto de hoje que remeta diretamente ao passado do kraut mais eletrônico, ouça a primeira parte do disco. Se quiser algo que remeta diretamente ao passado mas ao menos modestamente proponha uma ou outra ideia interessante, ouça o a segunda metade (em especial as faixas aqui destacadas). Mas se você realmente quiser ouvir algo que reimagina o imaginário viajante/cabeçudo da época convertendo-o em sonoridades inequivocamente pertencentes ao presentes, largue o Subway e vá ouvir Tarot Sport do Fuck Buttons. (Ruy Gardnier)
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Ora, se até a dupla Bowie/Eno literalmente assaltou o legado do krautrock, decalcando ipsis literis a faixa “Monza (Ralf und Runter)” na canção “Red Sails” do álbum Lodger (para ficar apenas no exemplo descarado), por que a geração criada dentro da economia vertiginosa das trocas de mp3’s não haveria de fazê-lo?

O fato é que de uns anos para cá algumas correntes da música dos anos 70, daqueles mesmos anos 60 e 70 execrados por revistas especializadas da década de 80, passaram a definir as linhas mestras do que de mais interessante se faz na música hoje. Ao lado do dub de “Coxsone” Dodd, Lee Perry e King Tubby, os alemães do Kluster (com c e com k), do Kraftwerk, do Harmonia, do Can, do Ash Ra Tempel entre outros tantos grupos, capitanearam uma pequena revolução, alinhando diversas experiências com instrumentos acústicos e eletrônicos e criando uma sonoridade heterogênea que vem influenciando, por razões óbvias, uma geração inteira de músicos, compositores e instrumentistas.

Mas como notei no início, há que se considerar uma forma de homenagem, como em “Losing my Edge” do LCD Soundsystem; uma outra, de influência criativa, cujo melhor exemplo é Third, do Portishead; e ainda uma terceira modalidade, que tem no álbum em questão seu exemplo mais contundente, que é o pastiche. É claro que “Red Sails” é um pastiche, mas não resume a experiência musical de Bowie/Eno. Já o segundo álbum do Subway…

Bem, o segundo álbum do Subway, embora tenha algum charme, não consegue escapar do mero pastiche. Sim, pastiche, mas com algum charme. Onde está então o charme deste trabalho tão comprometido por suas opções formais. Subway II é um compêndio muito bem realizado de emulações do krautrock, ligado sobretudo à exploração mais pronunciada dos sintetizadores. Tem lá o seu Kraftwerk em “Lowlife”, o seu Harmonia em “Harmonia” e até mesmo o seu Manuel Göttsching em “Jupiter”, mas todos compostos em boa parte tendo como parâmetro o universo de timbres do dubstep e de outros gêneros que vigoram na seara da eletrônica inglesa e americana. A despeito do arsenal analógico com o qual a dupla trabalha, faixas como “Delta II” e “Monochrome” representam a síntese entre o approach do krautrock, do techno, do house e da retomada disco no estilo DFA.

Após algumas audições, detecta-se em Subway II graça e até mesmo talento. Mas o álbum padece de força, de sangue e organicidade, embora essas características se apresentem menos como fraqueza do que como uma espécie de profissão de fé. Trata-se nitidamente de uma opção da dupla, opção representada sem dúvida com dignidade. Mas que pode levar a um caminho perigoso e passível a obsolescência precoce. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 3 de fevereiro de 2010 por em eletrônica e marcado , , .
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