Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

William Basinski – Vivian & Ondine (2010; 2062, EUA)

William Basinski (n. Houstou, Texas, 1958) é um compositor americano de música ambient. É clarinetista de formação clássica e estudou saxofone e composição na North Texas State University. Começou a formar seu próprio estilo no final dos anos 70, quando, influenciado por Steve Reich e Brian Eno, passou a trabalhar com loops de fita magnética. Seu primeiro disco, no entanto, veio apenas em 1998: Shortwave Music, pela gravadora Raster Noton. A partir daí, montou sua própria gravadora, 2062, e lançou diversos de seus trabalhos, muitas vezes utilizando-se de suas fitas antigas, como é o caso de Disintegration Loops (2001), seu mais conhecido trabalho, mas também Melancholia (2003), The Garden of Brokenness (2005), 92982 (2009), e este Vivian & Ondine, recém-lançado. (RG)

* # *

Esse é o tipo de disco que o detrator da Camarilha dos Quatro se refestela em saber que a gente preza: uma única faixa de 45 minutos composta basicamente de um loop repetido à exaustão e outros registros de fita que raramente quebram a monotonia da audição, em geral apenas adicionando-se ao compacto ruído de fundo que acompanha o loop como se fosse uma sombra pesada que dura 500 anos. Mas o homem responsável por esse a princípio extenuante exercício é William Basinski, o homem que já nos deu uma infinidade de peças criadas a partir de loops cuja sonoridade remete a tempos imemoriais, com sons envoltos numa fumaça espessa de detrito e distorção (causada pela ação do próprio tempo nas fitas, ou pela amplificação, por processamento ou pela própria retroalimentação sonora que cria uma massa incrivelmente densa). Seus loops são instigantes: eles nos colocam no meio do caminho entre artistas como Philip Jeck ou Caretaker, que distorcem materiais já existentes e dão a eles uma forte carga de mergulho num passado longínquo (ou qualquer outro estado nebuloso e letárgico da percepção), e artistas como Steve Reich, em especial o trabalho com loops descontínuos que causam vertigem pela confusão de tempo que provocam. Nos 45 minutos de Vivian & Ondine, cabe dizer, ouve-se quase sempre a mesma coisa, mas essa “mesma coisa” é imantada de um intenso poder encantatório que nos hipnotiza por seu caráter dir-se-ia arquetipal e nos desorienta pela repetição que em dado momento embaralha nossos dados sensoriais. O loop central é sumário: três acordes vindos como uma maçaroca que parecem ter sido tocados em algum canto recôndito da memória, alguns estalos (às vezes de maior, às vezes de menor intensidade) e um chiado de fundo rodeado de névoa. As inserções, discretíssimas e por vezes indiscerníveis – justamente por conta da overdose letárgica provocada pelo loop –, não acrescentam cor ou movimento, mas apenas um acréscimo de densidade no ruído de fundo.

E ainda assim Vivian & Ondine é um disco intensamente emocional, envolvendo o ouvinte numa espécie de nostalgia infinita – ou seja, não relativa a nenhum momento específico do passado, mas à ideia de passado –, num embriagamento com o tempo, do momento passageiro à eternidade. Vivian e Ondine foram as duas novas meninas que nasceram na família Basinski (filhas de parentes, não dele), fechando um ciclo em que já havia entrado a morte (Disintegration Loops), o perene (The River) e agora o nascimento. Não que uma característica específica conforme qualquer uma dessas obras: a música de William Basinksi é intuitivamente uma música sobre tudo isso ao mesmo tempo, desde o doce envolvimento do cotidiano que as repetições de seus loops presumem até os instantes de começo e fim de uma obra. Nesse caso, os 45 minutos de Vivian & Ondine querem dizer “Tenham uma longa vida, meninas!” (Ruy Gardnier)

* # *

A experiência sonora nem sempre se dá por headphones, salas de concerto ou pelas caixinhas do seu antigo estéreo. Imagine-se em um longo e amplo corredor coberto por um belo piso de mármore, perceba a vibração do vento nas janelas, a conversa nos corredores, o barulho da caminhada de um estudante solitário… Esse aspecto tridimensional do som e a capacidade de manipulá-lo de maneira escultórica é a janela por onde escolhi entrar no trabalho de William Basinski.

Artista sonoro de formação clássica, Basinski utiliza-se de loops para moldar espaços sonoros, e em Vivian & Ondine ele parte de um curto sample repetido ao infinito, ditando uma modulação que aos poucos envolve o ouvinte e traça o não-limite desse espaço a ser explorado. É impossível não ser influenciado pela arte da capa e, quando menos se espera, somos transportados para um ambiente submerso, onde uma orquestra fantasmagórica repete uma melodia que reverbera como um sinal de alerta, para todo o sempre. Basinski não submete seu trabalho a parâmetros da música popular: Vivian & Ondine é um exercício estético na busca por dimensões sonoras que ultrapassam o território da audição, tomando de empréstimo sensações táteis, visuais e até olfativas. O ritmo assemelha-se à respiração humana num estado contemplativo. Pequenas inserções aleatórias, quase imperceptíveis, não permitem uma regularidade mecânica — o ritmo é ditado por uma disciplina mental, orgânica. Talvez por isso mesmo, os 45 minutos de Vivian & Ondine nos soam absolutamente naturais. É essa capacidade de construir sonoridades tão vivas que faz com que o trabalho de Basinski seja tão especial. (Fernando Rocha)

* # *

Vivian & Ondine é um obra experimental que tem na exploração do tempo sua matéria-prima. Não que haja novidade nesta premissa, ainda mais quando ela se reveste das benesses que a repetição traz quando lapidada com minúcia. Mas as técnicas e construções sonoras propostas por Basinski remetem o ouvinte a uma dimensão onde a repetição não é mais do que um aspecto superficial da composição, apenas um primeiro olhar, uma primeira visada. Por baixo (ou seria mais adequado dizer através?…) da impressionante densidade das camadas ruidosas que compõem Vivian & Ondine, o ouvinte acessa uma dimensão onde habitam delicadíssimas nuances, espectros sonoros, fantasmas e manifestações radicais da materialidade dos suportes sonoros que somente a boa vontade e a paciência na audição podem iluminar. Assim como suas Disintegration Loops, peças nas quais a manifestação desta materialidade constituía a pedra de toque, Vivian & Ondine indica que Basinski insiste em operar sobre um material sonoro desde já corrompido pela ação do tempo, insiste portanto em revelar uma correspondência entre o que está presente na matéria e o modo como os aparatos tecnológico “interpretam” esta materialidade. Pensem em Caretaker, claro, mas pensem também em Alva Noto e sua série dedicada à decodificação sonora de softwares e dados digitais. Ao fim da audição nos perguntamos se a música é tão somente uma reformulação criativa de intrumentos executados, isto é, apenas um aspecto auricular do som “cultural”, sabido e reconhecido. Nos questionamos portanto se música, enfim, não é toda e qualquer experiência que confira significado a toda e qualquer matéria sonora, seja ela “musical” (moral) ou não. Vivian & Ondine pode nos conduzir a extravagante conclusão de que não há espaços para moralismos hoje e que desponta no horizonte da música do século XXI uma inclinação que poderíamos afirmar como “pitagórica”, uma inclinação que pretende borrar as fronteiras entre artes e técnicas em prol de uma expressão forte, inominável. Vivian & Ondine representa à perfeição esta inclinacão. (Bernardo Oliveira)

Anúncios

2 comentários em “William Basinski – Vivian & Ondine (2010; 2062, EUA)

  1. o.Oo 0
    11 de julho de 2010

    Excelente!

    Qual o nome das obras do Reich com os “loops descontínuos”? Nunca ouvi nada parecido com isso, quero conhecer.
    Agradeço se puder dizer.

    • corazondiablo
      11 de julho de 2010

      Tente “It’s Gonna Rain”, partes 1 e 2, e “Piano Phase”. Esse procedimento é conhecido como phasing, e consiste em colocar em duas fontes sonoras o mesmo loop, só que com velocidades muito ligeiramente diferentes.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 9 de fevereiro de 2010 por em ambient e marcado , .
%d blogueiros gostam disto: