Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Four Tet – There Is Love in You (2010; Domino, Reino Unido)

Four Tet é o projeto mais conhecido de Kieran Hebden (n. 1977, Londres), multiinstrumentista e membro do grupo de pós-rock Fridge. Iniciou sua carreira solo sob o pseudônimo de Four Tet em 1998, lançando no ano seguinte seu primeiro álbum, Dialogue. Seguiram-se Pause (2001) e Rounds (2003), discos que consagraram o artista como um dos mais inventivos do cenário eletrônico europeu. Depois vieram Everything Ecstatic (2005) e o EP Ringer (2008). Além de sua produção regular como Four Tet, Hebden produziu diversos remixes para outros artistas (entre eles Aphex Twin, Radiohead, Madvillain, Battles, The Notwist, entre outros) e desenvolveu parceria com o baterista Steve Reid, com quem lançou quatro álbuns de música improvisada. There Is Love in You é o quinto disco de material inédito do Four Tet. (RG)

* # *

Como se sobrevive à obra-prima? Deve ter sido a pergunta que se fez Kieran Hebden quando deu-se conta que com Rounds tinha chegado à perfeição de seu estilo e à confecção de uma sonoridade única, cheia de calor, sensibilidade e associações inauditas de ideias. Resumidamente, o Four Tet pegava deixas do downtempo, batidas de hip-hop e melodias de jazz. Mas, uma vez que Rounds levou isso à sua mais completa manifestação, o negócio era traçar outros caminhos. Everything Ecstatic e Ringer respondem com um traçado mais incisivo, BPMs mais acelerados e o metrônomo típico do techno. Mas até agora o techno ainda não havia se instalado perfeitamente no tipo de sensibilidade do artista. Até agora. There Is Love in You é a consolidação de todas as lutas de Hebden para se reformular e levar adiante seu som para além dos padrões que o consagraram. Um disco que evolui a seu tempo, sem pressas e sem o menor esforço de agradar a qualquer custo. É um disco de alguém em pleno domínio de seu próprio ritmo e que reencontra todas as disposições para fazer sua melhor música.

No caso do fã de Four Tet ter se desgarrado quando começou a guinada techno, existe uma faixa, “This Unfolds”, que serve de projeto didático para o admirador traído. Ela começa no padrão de uma faixa do Pause, com uma batida sinuosa e uma melodiazinha de teclado angelical, até que aos quatro minutos entra o bumbo marcando os tempos pares. Genialmente, o final da música proporá uma fusão de ambos, conciliando os dois modi operandi de batidas à Four Tet e nos deliciando com a mistura. Mas, no fundo, There Is Love in You não é a “obra-prima techno” de Hebden. O disco vai para diversos lugares, e o techno é definitivamente um deles, mas os interesses são diversos. Tomemos a primeira faixa, avassaladora, “Angel Echoes”: um loop de vocal picotado de cantora que parece entoar o nome do disco, um contratempo acústico marcando o tempo (cabe notar como diversas das céulas percussivas do disco vêm de bateria acústica) e diversas camadas que aos poucos vão se acrescendo ao som, provocando um misto de encantamento e estranheza que é puro Four Tet, a fusão de algo claramente eufônico com algo que demanda uma disposição da consciência para mostrar sua beleza.

There Is Love in You se constrói como um disco clássico, com momentos de ataque e momentos de respiro, e com um timing perfeito de duração de faixa e passagem para a seguinte. Quando é para ser matador – caso claramente de “Love Cry”, “Sing” e “Plastic People” –, Hebden dá um banho nesses neo-ritmistas do house (UKF e quetais) fazendo chacoalhar com elegância e personalidade, seja pela inovadora e contagiante batida da primeira, pela inusitada melodia sintetizada da segunda ou pela dinâmica entre chocalho e teclado da terceira. Quando é para pegar leve, faz muito bem com “Pablo’s Heart” e “Reversing”, e quando é para encantar em modo mais introspectivo – “Angel Echoes”, “Circling”, “This Unfolds”, “She Just Likes To Fight” –, alcança perfeitamente todos os seus objetivos. E ali, quando todos esperavam que Kieran Hebden continuasse seu périplo de lançar vigorosos discos imperfeitos, There Is No Love in You começa acachapante nos entregando uma joia preciosa, minuciosamente desenhada, para degustar durante todo 2010 e pelos anos por vir… (Ruy Gardnier)

* # *

Kieran Hebden deu um tempo do Four Tet, investiu na parceria com Steve Reid e, mais recentemente, com Burial, com quem lançou o EP “Moth/Wolf Cub”. Ringer, EP de 2008 que constava até então como o último rebento de seu projeto mais conhecido, indicava a possibilidade de uma guinada, pois apostava todas as suas fichas em incursões ao techno, o que destoava consideravelmente de seus trabalhos anteriores. Com o Four Tet, Hebden mostrou ao mundo como a produção da chamada “música eletrônica” não precisava ater-se necessariamente a ritmos e gêneros específicos, como o techno, o house, o dubstep ou a gêneros mais errantes como a ambient e a música concreta. Assim nasceram os primeiros álbuns do Four Tet, direcionados majoritariamente à criação de ensandecidos mosaicos de gêneros como o jazz, o soul, o rock e a ambient, reinterpretados a partir de um arsenal de sonoridades acústicas e eletrônicas e dentro de uma lógica minimalista extrema. There Is Love in You incorpora a estes elementos as experiências desenvolvidas com Reid e Burial, que sem dúvidas conferiram novas colorações para a sonoridade do Four Tet.

O disco começa com “Angel Echoes”, ao mesmo tempo etérea e tensa, talvez a obra-prima do disco. Aliando batida house ralentada com vozes femininas talhadas por reverbs e sobreposições (sampler?), a faixa se caracteriza por um belíssimo continuum rítmico e harmônico que, de fato, atinge nunces angelicais, para não dizer “metafísicas”. “Love Cry”, já devidamente camarilhada, é um techno centrado nas percussões, repleto de chocalhos e aros de caixa, e que finaliza com uma harpa elétrica que se poderia chamar de celestial. O álbum prossegue com o country-rock (?) “Circling”, com seu dedilhado lírico e comovente, e adentra por “Sing”, um outro techno bem mais sintético e minimalista do que “Love Cry”. “This Unfolds” pode lembrar o Four Tet de Pause aos que acompanham o trabalho de Hebden mais de perto, já que mescla sonoridades convencionais, dentro de um gênero específico (talvez o rock) com a batida techno que, reitero, perpassa todo o álbum. O crescendo ao mesmo tempo delicado e dançante de “Reversing”, com suas modulações e barulhinhos diversos começa a indicar que o disco se encaminha para o fim, mas é em “Plastic People” que esta sensação se consolida com ares antológicos. A deliciosa batucada de “She Just Likes to Fight”, que lembra algumas coisas do African Head Charge, encerra o disco com a justa medida que caracteriza o trabalho de Hebden. Parece que com a delicadeza inteligente dessas faixas, emolduradas pelo título singelo, o autor pretende nos comunicar o intuito geral do álbum, qual seja, despertar o amor que há em você. Cute, isn’t it?

Cinco anos depois, o Four Tet retorna com o garbo e a competência que lhes são caros. There Is Love in You, assim como Rounds e Everything Ecstatic, é daquele tipo de álbum que entra imediatamente para o rol dos grandes discos de hoje e de outrora. Mas isso ocorre surpreendentemente sem sobressaltos nem grandes alterações de rota, tamanha a retidão com que o autor ratifica seus propósitos, muito embora se deva notar que em sendo o bom e velho Four Tet, esses mesmo propósitos carregam consigo também pequenas diferenças de tendência e enfoque que só aumentam a pujança e a beleza do trabalho. (Bernardo Oliveira)

*  # *

Kieran Hebden é o cara. Por trás do pseudônimo Four Tet, o sujeito é uma das figuras mais interessantes da década que passou: lançou discos que consolidaram uma estética própria como Rounds, fez remixes para artistas tão díspares como o lúgubre Radiohead da fase Hail To the Thief e o divertido e criativo projeto Madvillian, de Madlib e MF Doom. Além disso ainda sobrou tempo para parcerias interessantíssimas, com o veterano baterista de free jazz Stevie Reid e com seu colega de escola William Bevan (Burial). Ufa!, além disso a própria rotina de produções para outros artistas e seu próprio projeto, o Four Tet. Pois então surge There Is Love in You, disco que já despertava grande curiosidade desde que o primeiro single, “Love Cry”, surgiu no apagar das luzes de 2009. O LP não deixa a peteca cair e apresenta faixas dignas da discografia do artista.

A experiência de Hebden como DJ residente do clube londrino Plastic People, diga-se, possivelmente ditou o aspecto mais dançante do disco. O disco abre com a excelente “Angel Echoes”, que por cima de uma base de graves marcados surge uma doce voz, que instantaneamente remete a “Archangel” do segundo disco de Burial, Untrue. A colagem hipnótica, os glitchs e o ritmo fraturado de outros trabalhos do Four Tet continuam presentes, mas em uma roupagem ainda mais festiva. O clima segue por “Love Cry”, o já comentado single que teve remixes de outros figurões do dubstep, como Joy Orbison e Roska — diga-se, sem superar a original.

Definitivamente, “Love Cry” é o grande acerto do disco e é, em certa medida, o resumo da sonoridade de Hebden nesse início de década. Segue-se então uma miríade de inventivas construções rítmicas, como em “Sing” e “This Unfolds”. A Faixa-homenagem “Plastic People” é um convite à pista em um clima festivo-introspectivo (!?). E finalmente, “She Just Likes To Fight” fecha o álbum num tom de despedida de uma grande noite de diversão, onde todos insistem em manter as luzes apagadas, mesmo que lá fora o sol já tenha se posto de pé. Em seu novo LP, Kieran Hebden faz um elogio à noite, à diversidade de ritmos e sabores da cena eletrônica atual — e um atestado de que ainda tem muito com o que nos surpreender. (Fernando Rocha)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 10 de fevereiro de 2010 por em Uncategorized e marcado , , .
%d blogueiros gostam disto: