Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Vibracathedral Orchestra – Joka Baya (2010; VHF, Reino Unido)

Vibracathedral Orchestra é um coletivo de música experimental, free-improv e drone situado em Londres. Desde 1998 vem lançando uma porção de CDr’s e álbuns originais, ora pelo selo VHF ora às próprias custas. Sua formação original inclui Mick Flower (parceiro de Chris Corsano no Flower-Corsano Duo), Julian Bradley, Neil Campbell, Bridget Hayden e Adam Davenport. Bradley deixou o grupo em 2004 e em 2006 foi a vez de Campbell e Hayden, o que fez com que o coletivo abrisse para participações especiais de diversos nomes como Chris Corsano, Matthew Bower e Tom Greenwood, do Jackie-O Motherfucker. Joka Baya é um dos LPs que com Smoke Song e The Secret Base fazem parte de uma trilogia lançada este ano. (B.O.)

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Nos CDr’s de 98 até 2001, como por exemplo o inaugural Corpse e os sensacionais Mothing e Music for Red Breath, se podia observar que a principal virtude do Vibracathedral se resumia a uma intuição privilegiada na arte de criar texturas com regularidade e impressionante riqueza de timbres e sobreposições. Deve-se notar também que estas texturas possuíam um caráter eminentemente sombrio, muito embora se afastassem consideravelmente do drone, do dark ambient e de outros gêneros que caberiam muito bem em um filme do Dario Argento ou do John Carpenter. Em 2001, três CDr’s vieram indicar novas direções para o já abundante mosaico de sonoridades do grupo: o split com o Jackie O Motherfucker, MMICD e mais especificamente Dabbling With Gravity and Who You Are. A partir destes três álbuns, parte do tom lúgubre passou a ser gradativamente diluído por uma leveza de timbres trazida pela inclusão de sopros, eletrônicos e dissonâncias mais leves e, sobretudo, uma ênfase no ritmo e nas percussões bastante acentuada em relação aos trabalhos anteriores.

Por estar ciente deste processo, não me surpreendeu em nada que a entrada de Joka Baya aludisse a um ritmo tão próximo como o nosso baião. Não surpreendeu, mas instigou. Sendo este o primeiro de uma trilogia de elepês, cabia perguntar o que viria pela frente. E as faixas que se sucederam, deste álbum como também dos seguintes, não só corroboraram minha percepção em relação as correções de rumo tomadas pelo grupo, como também se mostraram das mais certeiras e possantes investidas de seus últimos anos. Joka Baya é composto por 6 faixas, embora desconfie que as três primeiras tenham sido arranjadas em conjunto e posteriormente separadas. Em todas elas podemos observar uma diversidade estrondosa de possibilidades, sempre envoltas em uma aura solar, bem contrária aos arroubos sinistros de outrora.

“The Bad Serpent” dá início ao álbum com sua levada abrasileirada, mas antes dos dois minutos é abalroada pela profusão psicodélica de bleeps e sons de guitarra mesclados de “A mirrored Pyramid (for JS)” que, por sua vez, acrescida de uma guitarra bastante convencional se transforma na terceira faixa, “Es inaceptable para mí”. A partir dessas três faixas conclui-se que de fato há algo menos complexo no som do Vibracathedral, algo menos ríspido para ouvidos desacostumados, mas isso de modo algum se traduz em complacência por parte do grupo. A exploração de contrastes rítmicos é novamente citada em “Rich Witch”, desta vez incorporando uma sonoridade árabe com flauta e guizos, quando abruptamente somos presenteados com “Natterjack”, uma faixa que relativiza a tendência a uma sonoridade mais simples, apostando na força do noise e de sons mais industriais, ainda que na mesma chave, digamos, impressionista. “Rag Alap IV” vem confirmar este impressionismo, retomando uma forma de improvisação climática com a qual o grupo trabalhou em seus primeiros anos. Em seus quinze minutos, “Rag Alap IV” imprime uma dinâmica de saturação contínua, repleta de minuciosas alterações que tensionam o ambiente sonoro, mas que em nenhuma momento extrapolam a medida estabelecida pelo próprio grupo.

Não que a música do Vibracathedral tenha se tornado mais fácil ou harmônica, pelo contrário: ocorre que novos elementos foram adicionados às estratégias do grupo, mantendo-os na mais alta conta com aqueles que admiravam o seu caráter mais explosivo, manifesto belamente na última faixa do split de 2001, “Baptism Bar Blues”. Sem dúvida que neste percurso alteraram bastante sua sonoridade. Podemos dizer que nesta mudança ocorreu, repito, um enfoque cada vez mais centrado nos ritmos, particulamente árabes e marroquinos, que se anunciavam na pequena mas significativa faixa “20/02” de MMICD ou logo na introdução de Dabbling…, “Hypnotism In Yr Hips”. Desde então, o grupo não lançou mais álbuns sombrios, optando por desenvolver sonoridades situadas na escala da estranheza e do excesso. E isto sem a afetação e os trejeitos exagerados de um Emeralds, por exemplo. Neste sentido, os três elepês, especialmemente Joka Baya, assumem e apontam um caminho bastante interessante para este que é um dos mais interessantes grupos da atualidade. (Bernardo Oliveira)

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O uso de instrumentos variados, possivelmente orientais e/ou de grupos étnicos ancestrais, é a marca forte das sessões de improviso registradas pela Vibracathedral Orchestra em Joka Baya. O disco abre com uma seqüência de três peças curtas que dão o tom do que será ouvido a seguir. “The Bad Serpent” é mais misteriosa, determinada principalmente pela percussão abafada e sons metálicos. A seguir, “A Mirrored Pyramid” é mais adocicada, com uma linha melódica salpicada de ruídos que evocam imagens mais luminosas que as da faixa anterior. Em “Es inaceptable para mí” é a guitarra que se coloca em primeiro plano. Fechado esse ciclo, o disco continua dentro desse vocabulário que transita em um campo místico-ritualístico.

O contraste entre climas soturnos e imagens idílicas engendrado nas primeiras faixas de Joka Baya é por vezes muito pouco dinâmico — o grupo prefere definir claramente que cor terá cada peça ao invés de entrelaçar os climas. Essa opção torna a audição quase ilustrativa das possibilidades estéticas dos timbres, texturas, melodias e ritmos explorados. Salvo alguns momentos ali no meio do disco — “Rich Witch” parece acenar para uma interação mais complexa dos climas –, Joka Baya nos dá a sensação de uma polarização estética e uma timidez em explorar os elementos que eles mesmo apresentam. O jogo se torna mais interessante ao final, quando tais separações se tornam menos claras e faixas como “Natterkack” e “Rag Alap IV” levam ao limite as definições sonoras do que veio anteriormente. “Rag Alap IV”, última faixa do disco, é uma longa e vibrante jam session que oscila entre a densidade e leveza de Joka Baya em uma tensão que quase faz explodir a fina camada que o divide conceitualmente. Ao final, fica a sensação de rigidez em lidar com tais elementos sonoros, arriscando-se quase a uma exploração burocrática de um universo que não os pertence. Falta um pouco aquele espírito menos cerimonioso e antropofágico ao disco. Um pouco disso definitivamente não iria fazer mal. (Fernando Rocha)

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Não sou versado na discografia do Vibracathedral Orchestra, mas, pelo que ouvi, situo a sonoridade da banda entre o improv-jam de um No-Neck Blues Band ou Jackie-O Motherfucker, de um lado, e o Harappian Night Recordings de outro. Do último, existe o mesmo tipo de preocupação em utilizar instrumentos não-ocidentais (ou mesmo modelos de estrutura, como o raga) e trabalhar baixa fidelidade e saturação sonora dando aquela sensação “encorpada” dos registros ditos étnicos, documentais. Dos primeiros, fica clara a semelhança no approach de grupo grande que faz grandes jams improvisadas, envolventes e psicodélicas, bastante longe do vocabulário do rock mas definitivamente com uma pegada rock. Como o NNCK e o Jackie-O, as faixas de Joka Baya privilegiam a construção na extensão, a obtenção de um arranjo relativamente estável, com um drone tomando a dianteira da faixa, a percussão marcando o tempo e os outros instrumentos ornando a música com variações pontuais (e isso vale também para a percussão). Há uma clara predileção pela criação de climas inusitados em que a pesquisa de timbres desempenha papel predominante e a repetição na extensão provoca um efeito “em transe” que é digno de nota.

Mas o que em Joka Baya não chega a exatamente convencer? Em resumo, o chamado à música árabe e indiana. Uma coisa são o Sun City Girls e o Harappian Night Recordings criando mosaicos multiculturais e brincando de forma muito bem humorada com as questões de autenticidade. O problema de Joka Baya não é nem que não exista senso de humor (ainda que, de fato, não exista). Nem, tampouco, que o grupo se aproveite da faceta exótica dos instrumentos típicos de países não-ocidentais para impressionar seus ouvintes. A questão principal é que, quando surgem com nitidez os traços “étnicos”, eles dominam o imaginário das faixas de maneira quase subserviente, dialogando pouco com o “outro” material do grupo (“Rich Witch” constitui o melhor exemplo disso). Mas o disco valeria a pena nem que fosse pelas duas últimas faixas, “Natterjack” e “Rag Alap IV”, esta última um raga de 15 minutos em que aflora toda a criatividade do grupo, com trabalho soberbo de inserções sonoras impressionantes e/ou assustadoras na extensão da faixa.

Improvs que buscam criar estados hipnóticos geralmente trabalham a música como entidade meta-religiosa. Aceder a um estado extático ou transcendente, ou algo do tipo. Trazer elementos de músicas de outras culturas que também utilizam a música dessa forma é algo tão redundante que acaba se transformando em mau passo. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 16 de fevereiro de 2010 por em experimental, improv e marcado , , .
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