Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Tim Hecker – Harmony in Ultraviolet (2006; Kranky, EUA)

O Canadense Tim Hecker começou a carreira nos idos da década de 1990, com seu projeto de minimal techno Jetone. Entretanto, tornou-se conhecido principalmente após o lançamento de Haunt Me, Haunt Me Do It Again, de 2001. Seu trabalho, a partir de então, define-se por uma pesquisa sonora de ruído, música ambiente e samples. A partir daí, lançou Radio Amor (2003), Mirages (2004) e em 2006 sai pela Kranky o disco Harmony In Ultraviolet. Baseado em Montreal, tem trabalhado em trilhas para espetáculos de dança e instalações sonoras. Seu disco mais recente é An Imaginary Country, de 2009. (FR)

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Se a saudade pode ser ativada por timbres de outras eras, mais poderosa ainda é a melancolia que lhe atinge sem saber exatamente como e porquê. A aflição dessa falta de referências é que joga o ouvinte perdido no limbo, em uma sensação de estranheza íntima provocada por melodias inacabadas e ruídos familiares. Entretanto, não é a colagem a estratégia de Tim Hecker, ou pelo menos não é o acúmulo frenético de imagens que determina o que poderíamos chamar, no léxico do músico canadense, de colagem. Aqui, o efeito é sentido a longo prazo por entre texturas ruidosas e longas notas, que insistem em reverberar por paisagens nativas, evocando desolamento e angústia. A jornada introspectiva, guiada por lacunas deixadas propositalmente, como na magistral “Harmony In Blue”, constrastam com espaços de tensão (“Stags, Aircraft, Kings and Secretaries”) quando se pronunciam distorções monolíticas, como o perfil de uma cidade cinzenta, industrial. A dinâmica do Estranho/Íntimo no trabalho de Hecker se faz pelo parentesco enganosamente óbvio com outros personagens que provocam sentimentos semelhantes: dos glitches de Fennesz às guitarras do Earth, passando pela amplitude da paisagem em Leyland Kirby, Hecker se impõe como figura singular pela artesania e delicadeza, concisão e mistério arrebatador. Harmony In Ultraviolet é pra ouvir por semanas a fio e curar o gosto amargo que estranhamente nos conforta. (Fernando Rocha)

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Do time principal dos magos espectrais que trabalham na estranha interseção de ambient e noise, Tim Hecker parece ser aquele que ficou à beira de desenhar para si uma identidade mais discernível. Os dois do topo, Christian Fennesz e Philip Jeck, tanto pela inequívoca sonoridade quanto pelo processo de composição (guitarra processada + sintetizadores e glitches no caso do primeiro, detrito sonoro advindo de vinis deteriorados no caso do segundo), já se transformaram em artistas-farois desse veio musical, um desenvolvendo um approach mais lírico e intimista com seus barulhinhos e outro entrando na seara da memória física dos objetos, pessoal e comovente mas sem enorme carga subjetiva. A música de Tim Hecker fica em algum lugar entre a desses dois. Mas engana-se quem acredita que isso o torna um artista menor: a carreira de Tim Hecker está cheia de discos solidamente bons que dosam de forma preciosa turbilhões de chiado com melodias etéreas. Harmony in Ultraviolet é forte candidato a melhor disco do sujeito (só disputando, a meu ver, com Radio Amor a primeira posição).

Tim Hecker nos apresenta aqui um rico arsenal de sons carregados e densas paredes de barulho, dando a impressão – como Caretaker, Jeck ou Basinski – que alguns daqueles sons vêm de épocas remotas e insondáveis. “Harmony in Blue III”, por exemplo, tem uma repetição de três notas que cola tanto na percepção a ponto de parecer uma espécie de melodia arquetípica, atávica. “Chimeras” é possivelmente a coisa mais evocativa e impressionante que Hecker já fez, com uma repetição de arpejos reverberantes que lentamente se dissolvem no volume crescente de chiado de fundo. “Dungeoneering” é outro destaque, com drones insidiosos de sintetizador, chiado suplementar e uma melodia incipiente ao fundo. “Spring Heeled Jack Flies Tonight” e “Radio Spiricom”, as mais abrasivas do disco, são estrategicamente colocadas depois de faixas mais amenas – e, apesar de parecerem bastante com Fennesz do começo, também merecem destaque. A sensação geral é de uma grande letargia, como um sono tortuoso e pesado ou uma anestesia ligeiramente psicotrópica.

Fennesz, Philip Jeck, Tim Hecker, William Basinski, James Kirby: artistas de processos e estéticas muito diferentes, mas que demarcam um dos campos mais interessantes da música feita hoje, misturando música e não-música, barulhos sepulcrais e melodias límpidas, sons que parecem ter um milhão de anos e sons que são a fina flor da tecnologia contemporânea. Em todos os casos, música para viajar mentalmente, com doses generosas de enternecimento e desafio. Harmony in Ultraviolet é um dos belos momentos dessa história que está sendo escrita. (Ruy Gardnier)

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Nos seus quase cinquenta minutos, Harmony in Ultraviolet descreve uma curva no mínimo curiosa, pelo menos no que diz respeito às ferramentas com que Tim Hecker constrói sua sonoridade ambígua. Se bem me recordo, questionei a força expressiva de seu último álbum, An Imaginary Country, por conta de um excesso de melodias que mesmo insinuadas entre nuvens de ruídos, conferia às faixas um aspecto burocrático, como se a docilidade das notas “limpas” respaldasse a abrasividade dos sintetizadores, quando nós sabemos que o que ocorre é exatamente o contrário. A esta altura eu não conhecia ainda o álbum em questão, certamente lapidado com outras aspirações, e até mesmo com esmero e espontaneidade mais evidentes e convincentes. O fato de que sua sonoridade ainda evoque a música dos “grandes”, Fennesz, Voigt, entre outros, não interdita um quê de particularidade no som de Harmony in Ultraviolet que é conferido justamente pelo mesmo artifício que prejudicaria anos mais tarde An Imaginary Country. Por situarem-se de forma mais ambígua, delicada e minuciosa, as inserções melódicas deste álbum quase não podem ser assim chamadas tão rústicas e imperfeitas são suas respectivas compleições, tão coesas elas se parecem revestidas por informações sonoras mais ríspidas, como vozes mal gravadas e manipulação de ondas senoidais. O resultado é brilhante, pois Hecker consegue construir faixa a faixa (ou “peça a peça”) um continuum forte o suficiente para manter a atenção do ouvinte, mas que soa ao mesmo tempo como uma engrenagem vetusta, de recursos estranhamente tradicionais, uma maquinária melíflua, feminina… Uma imagem para esta sonoridade ao mesmo tempo frágil e cintilante (“ultravioleta”) poderia ser a de uma caixinha de música operada por… Fennesz. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 24 de fevereiro de 2010 por em eletrônica e marcado , .
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