Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Autechre – Oversteps (2010; Warp, Reino Unido)

Combinando uma ampla gama de técnicas e equipamentos, o duo inglês Autechre criou uma das sonoridades mais prolíficas, influentes e inovadoras das duas últimas décadas. Com pouco mais de 15 anos de carreira, a dupla formada por Rob Brown e Sean Booth lançou 10 discos, sendo Oversteps o mais recente. (B.O.)

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Se você que fica irritado com as recorrentes citações na Camarilha de nomes como Fennesz, Animal Collective, Four Tet, Black Dice, etc, pode sacodir as cadeiras porque novamente o Autechre tomará essas páginas. Mas que se diga: por mérito e não por majestade. A questão é: como se reinventar permanecendo dentro de um raio de ação próprio, servindo-se de vocabulário e gramática pessoais e intransferíveis. Pois é nesse sentido que a dupla novamente se recria, embora também seja verdade que com Oversteps a mudança esteja concentrada mais em nuances situadas estrategicamente do que em transformações mais evidentes, uma vez que, por exemplo, “ilanders” e a faixa de encerramento, “Youp”, podem tranquilamente lembrar o Autechre dos últimos álbuns, especialmente Quaristice. Mas então o que é diferente, que tipo de nuance justifica a idéia de que o Autechre não continua a martelar suas convicções estéticas? Ora, basta escutar o diálogo sinuoso e imperfeito de “O=0”, a forma trôpega com que os timbres graves, médios e agudos se entrelaçam formando um quadro de silenciosa devastação; ou ainda nas extravagâncias rítmicas realizadas pelo cravo sintetizado de “known(1)”, que graciosamente se mistura às modulações melódicas de um som que eu não saberia denominar corretamente, mas que para ouvidos mais sensíveis pode causar uma irritação e até tontura (sério, aconteceu…). Na delicadeza da ambiência kraut de “see on see”, na força devastadora de “st epreo” e até mesmo no suingue indefectível de “Treale”, o que se percebe em Oversteps é que ao invés de apostar nas grandes composições dos álbuns anteriores, repletas de camadas, instrumentos e maneirismos na utilização dos sintetizadores, Brown e Booth optaram dessa vez por deixar os timbres falarem por si só, o que pelo visto implicou em rever necessariamente o tipo de composição sobre a qual a a dupla vinha labutando nos últimos álbuns. Neste sentido, “redfall” é uma espécie de corolário desta aposta: uma base sintetizada quase comum, um contrabaixo jazzístico, um xilofone super agudo e um instrumento de sopro sintetizados, isto é, no máximo quatro sons dispostos mas que, graças ao vigor da composição, se impõem. No fim da audição têm-se a plena certeza de que o Autechre é (ainda!) um dos principais motores criativos da música contemporânea, e isto em qualquer registro. Se Oversteps não é o bastante para que você acredite nisso, rapaz, abandone-os. (Bernardo Oliveira)

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Pelo que já se andou escrevendo sobre Oversteps, parece ponto pacífico afirmar que o último disco em que o Autechre parecia focado em sua trajetória era Confield, de 2001, e que depois disso o duo de Sean Booth e Rob Brown passeou por searas mais abstratas e tornou o som do Autechre ainda mais rarefeito, sem o apelo hip-hop/breakbeat nos complexos ritmos do grupo (que permaneceram complexos) e sem a interface calorosa do duo, as melodias sintetizadas que viraram marca registrada do projeto. Oversteps vem recebendo uma saudação reacionária de fãs antigos que se “perderam” no meio do caminho: elogiam o disco por ser uma volta do Autechre a seu som reconhecível e por novamente trabalhar aqueles que são os padrões mais reconhecíveis da “marca” Autechre. O elogio, no entanto, é perigoso: não só ele desrespeita o tempo da banda em seu processo criativo como também faz supor que o fã sabe mais sobre o som do artista do que o próprio artista. Fixa um ponto do passado como marco e remete toda produção subsequente a esse marco. Bela maneira de ser fã. Ugh.

Dito tudo isso, cabe dizer que Oversteps se presta ao tipo de elogio. O disco é claramente o menos enigmático do grupo há mais de uma década, e o único dos últimos tempos que pode receber o adjetivo “coeso”. Mas ao mesmo tempo seria covardia atacar Oversteps apenas porque o Autechre voltou à sua zona de segurança. Primeiro, porque uma audição mais atenta revela que o refinamento nos timbres adquirido nos últimos discos permanece neste disco novo, e que portanto a banda não “voltou atrás” simplesmente – é mais como se ela tivesse aplicado suas recentes elaborações a padrões mais definidos e focados de composição. Segundo, porque o resultado final de diversas faixas em Oversteps é nada menos que primoroso. Quando passa o desânimo de não estar vivenciando com o “novo disco do Autechre” uma aventura (algo que todo fã de longa data do grupo sabe o que é), podemos sentir todo o impacto de faixas como “Ilanders”, “known(1)”, “qplay”, “O=0” ou “d-sho qub” e perceber o quanto Booth e Brown ainda são mestres na construção de ritmos angulares e melodias descentradas que se desenvolvem em nossa fruição como deliciosos quebra-cabeças.

As três faixas finais de Oversteps são os únicos momentos em que se pode cogitar alguma espécie de desgaste no som do Autechre. Coincidentemente ou não, são os momentos que mais remetem a sonoridades de sintetizadores antigos e/ou momentos em que a melodia reina sobre o ritmo – em especial na dispensável “krYlon”, que dá vontade na hora de ouvir uma das faixas de drukqs feitas com piano preparado. Deslizes à parte, Oversteps é um senhor disco de uma dupla que definiu muito da eletrônica nos anos 90, jamais deixou de ser relevante e que ainda hoje continua fuçando aparatos eletrônicos em busca de novos timbres e ritmos para renovar sua música. (Ruy Gardnier)

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O Autechre sempre foi, pra este que vos escreve, um grupo que esteve sempre na beira para construir um novo clássico. Tri Repetae, Quaristice, LP5 são alguns dos trabalhos onde Booth/Brown ousaram pôr os pés no parapeito e ensaiaram um vôo mais coeso, constante. O pecado do passado é a energia criativa de Oversteps, álbum de 2010 que já se desenha um elemento divisor da obra dos ingleses.

Aqui a música se torna mais coesa, evoluindo de forma menos interrompida por entre as faixas, numa evolução constante que pouco lembra a exploração frenética de discos anteriores. Não que isso faça falta (ou que tenha sido calado por uma nova atitude mais comportada), na verdade fica mais a sensação de um trabalho em processo de maturação — ainda mais visto em perspectiva — já que o histórico da dupla é dos mais louváveis. Entre texturas e uma complexidade de composição das mais inteligentes, Sean Booth e Rob Brown tecem um tapeçaria eletrônica arrojadíssima que só tem melhorado a cada audição. O tempo acaba falando mais alto, concreta e metaforicamente em Oversteps. O espaço é calculado meticulosamente, como em um campo que expande e contrai em curvas complexas. Ouça “pt2ph8” e “O=0” e não sinta saudades do pavoroso rótulo de Intelligent Dance Music. Desde o uso contido e maduro de ruídos, samples e timbres até a persistência num jogo que se estende, Oversteps é de fato, um passo a mais, pra botar abaixo, qualquer suspeita que ainda ficara de pé, em relação ao trabalho dos caras. (Fernando Rocha)

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Publicado às 10 de março de 2010 por em eletrônica, experimental e marcado , , .
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