Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Chicago Underground Duo – Boca Negra (2010; Thrill Jockey, EUA)

Formado pelo baterista/percussionista Chad Taylor (Iron and Wine, Marc Ribot) e pelo trumpetista Rob Mazurek (Exploding Star Orchestra, Sao Paulo Underground, Mandarin Movie, entre outros), ambos oriundos da Chicago Underground Orchestra, o Chicago Underground Duo trabalha uma mistura de música improvisada com partes compostas, mas também lança mão de manipulações eletrônicas para construir seu trabalho. Boca Negra é o quinto álbum da dupla, gravado em São Paulo sob a batuta do baixista do Iron and Wine, Matt Lux. (B.O.)

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Boca Negra não é um disco de fácil degustação, ainda mais se você, como eu, não está familiarizado com todos os trabalhos do duo e da orquestra onde eles tocavam juntos. Mas há um atalho interessante a se seguir que é dedicar-se inicialmente à audição de seu “miolo”, que se inicia na faixa “Confliction”, seguida de “Hermeto” (óbvia homenagem ao “bruxo”) e do frevo rasgado de “Spy on the Floor”. Em “Confliction”: a introdução climática, que conta com overdubs de piano, trumpete e teclado; depois, o groove de bateria, baixo sintetizado e trumpete, uma característica esporádica mas forte nos trabalhos do duo; a hipnótica “Hermeto”, por sua vez, foi criada sobre dois loops básicos, rodeada por sonzinhos quase imperceptíveis. “Spy on the Floor”, repito, é um frevo, contruído à semelhança de “Confliction”, mas com uma abertura mais evidente ao improviso. Belíssimas faixas, mas que definitivamente não resumem as características da música criada pela dupla.

À esta altura já vislumbramos a tentativa de harmonização de música improvisada, música composta e manipulação sonora que perpassa todo o álbum. Mas e as outras faixas? Estas fazem parte dos aspectos difíceis, mas igualmente interessantes de Boca Negra. Trata-se de uma série de experimentos criados com overdubs que, de um lado, privilegiam extratos sonoros como que retirados de linguagens musicais estabelecidas (no caso, o jazz), e de outro, operam com dinâmicas de volume e silêncio. A faixa que abre o disco, “Green Ants”, começa com um loop de trumpete, e depois fica em silêncio; o tambor de Taylor passa a ressoar, o trumpete retorna, eles passam a desenvolver um groove irregular, o trumpete pára, a bateria sola sozinha, como se vagasse perdida… E toda a faixa se delienará nesta dinâmica de tira-e-põe, de sobreposições e da criação de texturas que ora lembram a parcimônia do cool jazz, ora a potência do free, ou ainda um lirismo bastante próximo de Erik Satie.

Mas, sobretudo, eu arriscaria dizer que a dificuldade imposta pelas faixas abstratas de Boca Negra advém de um forte diálogo com a dinâmica árida da música tradicional japonesa, como o Gagaku e Nougaku, onde as peças são construídas de forma irregular, como que pautadas em um estado mental contemplativo, simultaneamente dramáticas, cerebrais e emotivas. Basta escutar a já citada “Green Ants”, “Left Hand Of Darkness” ou a intrigante “Roots And Shooting Stars” para aferir esta similaridade. Como se Mazurek e Taylor pintassem quadros estruturalmente semelhantes aos da música japonesa tradicional, mas com as tintas e pincéis do jazz americano. Esta análise pode parecer meio sistemática demais para um trabalho que se pretende “free”, mas me parece inegável que parte da beleza do álbum vem da capacidade de criar esses “silêncios”, esta incisiva valorização dos timbres e dos tempos, mais até que das texturas. Não é à toa que mais de setenta por cento de Boca Negra seja composto nesta chave.

Goste-se ou não, o Chicago Underground Duo (mais especificamente, Rob Mazurek) é grande: assim como o Naked Future de Arryington de Dyoniso, tem talento, carisma e vigor suficientes para esgarçar as fronteiras do jazz e da música improvisada, trabalho que na década de 90 coube ao Masada de John Zorn. (Bernardo Oliveira)

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O “Duo” do nome às vezes é um quarteto. Mazurek mora em São Paulo e Chad Taylor em Nova Iorque. A dupla de Chicago, célula principal do Underground (seja em 2, 3, 4…) transforma pequenas anedotas idiossincráticas em adjetivos que cabem perfeitamente à musica que praticam. Boca Negra, álbum de 2010, engana a audição mais desatenta, não se trata apenas de um disco ordinário, de quem ouviu muito Ornette Coleman. Análises rasteiras, bobagens preconceituosas, aqui certamente não é campo pra ter medo ou reticências em relação à música, praticada qualquer seja o tempo e espaço, e é dessa cepa que se faz a música do Chicago Underground Duo. Tome-se “Green Ants”, um duelo vigoroso que evolui para um profusão de ritmos festivos. A faixa que abre o disco, já dá o tom do que teremos nas próxima hora: além de sensibilidade musical extrema, fica aquela sensação de prazer lúdico, típico do jogo do improviso, e levado de uma maneira leve pela dupla. Signo dessa postura, vem “Hermeto”, bela peça batizada com o nome do inventor-instrumentista brasileiro. Ritmos latinos, chocalhos e um jogo suingado dos mais interessantes, tornam o álbum tudo, menos óbvio na maneira que aproveita desse vocabulário já tão surrado. Boca Negra é um disco bem-humorado, solar e nem por isso menos instigante e profundo. Ao fim, mais um drible no clichê que diversão não combina com inteligência, desafio e inspiração. (Fernando Rocha)

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Os devotos ferrenhos de jazz e música improvisada em geral podem fazer um uso muito limitador, quando não francamente reacionário, de seu credo. Esse uso consistiria em pedir sempre ao músico improvisador que atenha-se ao “agora” da criação improvisada e que fuja de formatos sonoros populares como o diabo da cruz. Para esse tipo de fã, Boca Negra é uma heresia inconcebível. O disco brota com uma leveza devastadoramente frontal que joga para segundo plano questões como improvisado/composto, atonal/melódico, free-form/pop. Cada uma das dez faixas de Boca Negra vai para lugares absolutamente diferentes, com diferentes propostas sonoras e approaches composicionais e/ou de gravação. “Green Ants”, a que abre o disco, é uma improvisação em que trompete e bateria usam suas intervenções colorindo o espaço à frente e eventualmente criando diálogos. “Hermeto”, por sua vez, é construída a partir de um loop melódico de teclado sintentizado com linha de baixo e as variações são alguns esguichos etéreos e, às vezes, lá no fundo, o trumpete quase imperceptível de Rob Mazurek. Dir-se-ia um IDM singelo, não jazz. “Broken Shadows”, por sua vez, aproveita-se de técnicas de microfonação para deixar os tontons abafados e as reverberações de pratos de ataque eternamente mantidas, fazendo da bateria um fornecedor mais de texturas de preenchimento do que de ritmos propriamente ditos. O grande trunfo deste quinto disco do Chicago Underground Duo é sua versatilidade e sua irreverência em relação ao credo: cada faixa desenha dinâmicas sonoras diferentes e a dupla não se faz de rogada quando sente vontade de suingar com grooves pop ou levadas de xaxado, como em “Spy on the Floor” ou a segunda parte de “Confliction”.

Há muito tempo o jazz sente receio de ser caloroso e simples. O temor principal, aparentemente, é o de ser arrolado como um nostálgico pré-bop ou um diluidor na chave do fusion ou do smooth jazz. Há quem possa torcer o nariz para alguns dos caminhos trilhados em Boca Negra. “Vergence”, por exemplo, tem uma levada doce e easy listening que lembra mais algumas coisas do I Care Because You Do do Aphex Twin do que algo propriamente jazzy. Na outra chave, no entanto, existe “Quantum Eyes”, em que o baterista Chad Taylor pega sua mbira e Mazurek mete distorção em seu trompete, e os sons parecem música de outro mundo – nem jazz, nem pop, nem ambient, nem nada. No fim das contas, o próprio release do lançamento parece ter matado muito bem a charada: “o objetivo não foi mostrar técnicas de virtuoso, mas apresentar ao ouvinte uma experiência emocional que transcende a ideia de gênero ou rótulo”. Mas eu diria mais: com Boca Negra, a dupla Mazurek/Taylor restaurou ao jazz uma dimensão deliciosamente impura de prazer imediato sem deixar em nenhum momento o sopro de inspiração e experimentação em segundo plano. Dez viagens absolutamente diferentes, mesmo contrastantes, que juntas oferecem uma alegria rejuvenescedora ao terreno da improvisação. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 10 de março de 2010 por em experimental, improv, jazz e marcado , , , , .
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