Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Thee Silver Mt. Zion Memorial Orchestra – Kollaps Tradixionales (2010; Constellation, Canadá)

O Silver Mt. Zion é um grupo de rock composto por parte da banda canadense Godspeed You! Black Emperor. Efrim Menuk, Thierry Amar e Sophie Trudeau fazem parte do núcleo principal, que ainda conta com outros componentes do GY!BE. O grupo, que varia sua formação, também costuma batizar cada encarnação com variações do nome: já foi de A.S.M.Z até Silver Mt. Zion Memorial Orchestra & Tra-la-la Band. Fundado em 1998 em Montreal, o grupo lançou seu primeiro disco He Has Left Us Alone But Shafts Of Light Sometimes Grace The Corner Of Our Rooms… em 2000 e desde então mantém o ritmo de lançamentos a cada 2-3 anos. Seu mais recente álbum, Kollaps Tradixionales, lançado sob alcunha de Thee Silver Mt. Zion Memorial Orchestra, data de Fevereiro de 2010 e conta com canções testadas anteriormente em apresentações do grupo, como “There is a Light” e “I Built Mysef a Metal Bird”. (FR)

* # *

Originado para ser um projeto paralelo de integrantes do então ativo grupo GY!BE, o Silver Mt. Zion sempre prezou pela mudança de rumo, desde o desvio de rota em relação à banda original de Efrim Menuk e cia. E até mesmo internamente não foi só a nomenclatura que mudou, mas a proposta do grupo: de aventuras mais pretensiosas para agora desembarcar em um álbum não menos curioso, apesar de uma estrutura aparentemente tradicional. Kollaps Tradixionales é composto basicamente de quatro longas sessões: There is a Light, Metal Bird, Kollaps e a catártica ‘Piphany Rambler. Apesar disso, dentro dessas existe um vigor roqueiro há muito não visto praticado com tamanha maestria. Conceitualmente, poderíamos avizinhar o álbum de obras ditas “óperas-rock”, como mesmo “Lift your Skinny Fists…” do Godspeed You! Black Emperor também pode caber neste grupo. Entretanto, é com o trabalho de artistas como Arcade Fire e, especialmente o disco “In the Aeroplane Over the Sea” do Neutral Milk Hotel que Kollaps se aproxima melhor. De ambos, assemelha-se a catarse, a minúncia e a energia quase punk injetada no meio de divagações tímbricas. O disco abre com a enorme e bela “There is a Light” para atingir seu primeiro ápice na dupla Metal Bird que, em sua primeira parte (I Built Myself a Metal Bird) quase anuncia um pós-punk, de intensa força. Em Kollaps (Kollapz, Collapse, Kollaps) o clima torna menos combativo e mais climático, funcionando como um oásis de calmaria para, ao final, em um crescendo explodir na poderosa ‘Piphany Rambler. A força dramática do disco tende a drenar a energia de quem se propõe a ouvir o disco de cabo a rabo, e isso que o faz subverter o formato roqueiro de canções. Kollaps Tradixionales é pra fazer a cabeça sair exaurida, um belo disco de força inconteste e um rico exemplar de mudança, na sinuosa — e instigante — trilha do grupo. (Fernando Rocha)

* # *

Como bom admirador do Godspeed! You Black Emperor, acompanhei desde o começo a carreira do Silver Mt. Zion. Era o momento da descoberta de coletivos instrumentais que faziam freakouts psicodélicos e soltos, como o Jackie-O Motherfucker e a No-Neck Blues Band. Era algo que parecia estranhamente complementar e totalmente oposto ao som do G!YBE com seu cartesianismo, com suas operações muito bem pensadas, com seus clímaxes em lentos crescendos. Ainda assim, os termos “tempestade sonora” e “viagem instrumental” se prestavam aos dois tipos. O G!YBE era um coletivo com uma identidade muito serrada; dá para ouvir toda a discografia do grupo como uma mesma e bela música que encontra ligeiras variações em formas e struturas semelhantes. A volatilidade do Silver Mt. Zion parece ter brotado da necessidade oposta, a de respirar um pouco fora do robusto conceito e ter a liberdade de em cada disco propor novos esquemas, experimentar para lados diametralmente opostos. Fizeram discos notáveis, mas dentro do panorama de rock instrumental + adjacências eles se posicionavam num meio de caminho entre a melancolia “de câmara” (Dirty Three, Low), o pós-rock do coletivo de que participavam (G!YBE) e, conceitualmente, dos “jamzeiros” freeform com suas sonoridades camaleônicas. Esse meio do caminho rendeu momentos inspirados, mas nunca distintivos o suficientes para tornar o Silver Mt. Zion um conjunto de grande destaque no panorama.

Kollaps Tradixionales é outra coisa. A presença do vocal é constante, as músicas têm uma inclinação decididamente rock e existe um nervosismo pregnante nas composições que mantém a atenção em alta o tempo todo. É como se subitamente o trio de Efrim tivesse bebido de Superchunk e de Arcade Fire e assimilado o pathos desavergonhado dos vocais do primeiro e das composições do segundo para dar oriente às trips instrumentais do grupo. Surpreendentemente, a coisa funciona. Não é apenas o disco mais acessível do trio (acessibilidade, em si, não quer dizer nada); a boa nova é que é o disco mais focado do grupo, mais ciente de onde deve ir (ainda que, em matéria de timbres, formas e estruturas, não vá muito longe) e mais firme em seus momentos instrumentais. Em Kollaps Tradixionales, o Silver Mt. Zion tem passagens que chegam a lembrar mais o power rock de um King Crimson da segunda trilogia do que o eternamente referenciado pós-rock. A característica mais forte do grupo ainda é a guitarra de Efrim (em momentos aguda como um violino amplificado e aveludada como os solos de Robert Fripp), sempre veemente e emotiva, carregando rockões como “I Built Myself a Metal Bird” ou alternando instantes pastorais e agressivos como em “There Is a Light” ou na parte “Bury 3 Dynamos” da suíte que dá nome ao disco. A única nota negativa diz respeito às cordas tangidas: nos momentos “de câmara”, os arranjos não são muito inspirados mas são orgânicos e atingem uma intensidade até óbvia, mas robusta; em momentos mais agitados, ao contrário, há floreios um bocadinho constrangedores, tipo orquestra arranjando música do Metallica… Nada, em todo caso, que comprometa a recomendação desse vigoroso disco de rock que é Kollaps Tradixionales. (Ruy Gardnier)

* # *

Pode-se observar uma diferença considerável entre álbuns comprometidos com segundas intenções e álbuns que aos poucos nos revelam segundas intenções. Álbuns cujo método, as técnicas de gravação ou até mesmo uma guinada estética são alardeados em entrevistas que antecedem seu lançamento participam do primeiro grupo. Às vezes, são acompanhados por “livrinhos” que explicam tim tim por tim tim sua construção, tamanha a intencionalidade com que seus autores produzem um contexto no qual mútilplas funções, muitas vezes inaudíveis, operam em favor de um “conceito”. Blood Sugar Sex Magik, do “finado” Red Hot Chili Peppers, Out of Time, do R.E.M. e o ábum duplo de Romulo Fróes são bons exemplos desta modalidade. Exile on Main Street dos Stones, por sua vez, representa perfeitamente o segundo grupo, isto é, daqueles em que os autores descobrem possibilidades que não se supunham antes da execução, nos quais imediatamente se percebe algo superior no que diz respeito à mecânica interna da composição, mas, sobretudo, por conta do timbre, da pegada e do “espírito”, se se pode dizer assim. Mas Kollaps Tradixionales parece incorporar ambas as modalidades em sua realização. Não só ele, claro, outros discos são assim. Mas, sem dúvida, vale notar que este é tanto projeto e minúcia na execução quanto “tempestade e ímpeto”.

Efrim Menuck e sua turma criam uma obra caprichosamente desequilibrada e sombria, cuja sonoridade deixa clara uma certa ambição de soar antigo sem parecer retrô, uma grandeza que se ampara mais na convicção do que na criatividade. Não são raros os momentos em que a sonoridade revela um alto nível de comunhão, firmeza de propósitos e, sobretudo, “sentimento” (“feeling”, whatever…), como se pode ouvir nas duas tour de force “There is Light” e “”Piphany Rambler” ou nos riffs pesados e compassos quebrados de “I Built Myself A Metal Bird”. As segundas intenções do Thee Silver são tão ambíguas que tornam a audição de Kollaps Tradixionales um tanto quanto confusa. De qualquer forma, o disco me atrai tanto pela forma, como pela força, embora me incomode um pouco seu flerte direto e sem rodeios com o rock sinfônico dos anos 70. (Bernardo Oliveira)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 18 de março de 2010 por em rock e marcado , , .
%d blogueiros gostam disto: