Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Joanna Newsom – Have One on Me (2010; Drag City, EUA)

Joanna Newsom é uma cantora e harpista americana nascida em Nevada City, Califórnia, em 1982. Seus primeiros registros são EPs caseiros, Walnut Whales (2002) e Yarn and Glue (2003). Com eles, conseguiu atenção do cantor e compositor Will Oldham, que facilitou contato com o selo Drag City. Em 2004, lançou seu primeiro álbum, The Milk-Eyed Mender. Em 2006 veio Ys, seu segundo e mais ambicioso disco, com arranjos e co-produção de Van Dyke Parks, gravação de Steve Albini e mixagem de Jim O’Rourke. Em 2007 lançou o EP Joanna Newsom and the Ys Street Band, com uma faixa nova e duas regravações. Have One on Me, lançado em fevereiro, é o terceiro álbum da cantora. (Ruy Gardnier)

* # *

Como/quando você conheceu Joanna Newsom? E como/quando começou a gostar? As respostas às duas perguntas variam muito, e são todas aceitáveis, dada a peculiaridade da voz da cantora, do instrumento de predileção – a harpa – e da natureza singular, quase extraterrena, de suas músicas. Elas (a voz, a harpa, as músicas) não parecem com nada feito hoje, e até com o passado guardam algumas poucas possibilidades de referência. Muito difícil imaginar uma música que seja ao mesmo tempo singela e desafiadora, que seja extremamente sentimental mas não venda fácil sua sentimentalidade, e que desafia por uma necessidade interna da composição e não pelos fogos de artifício costumeiros. Difícil, sobretudo, manter os dois níveis funcionando simultaneamente e colaborando mutuamente um com o outro. E, na progressão da carreira, quase impossível supor que esse delicado equilíbrio suportasse as mudanças bruscas e inesperadas que acontecem de disco para disco, indo das extravagâncias vocais quase outsider de The Milk-Eyed Mender às profusas orquestrações e os tours de force composicionais de Ys, chegando ao country-folk de “Colleen” e do EP com a Ys Street Band.

Da mesma forma com The Milk-Eyed Mender não preparava Ys, Ys também não preparou Have One on Me: esse disco triplo (em vinil, cada parte ocupando cerca de 40min) passeia pelas canções singelas do primeiro e pelas peças longas do segundo, mas se desenha de forma bastante diferente, mais contida no vocal e nas orquestrações, mais diversa na forma. Há uma ligação mais clara com o folk de cantoras como Vashti Bunyan ou do pop-zen de Kate Bush no uso do vocal – ou seja, nada das vocalizações estridentes do primeiro nem dos rompantes dramáticos do segundo –, há uma variedade muito maior nos arranjos e mesmo um ecletismo de formas, com flertes com o country e mesmo com o gospel (na inacreditavelmente bela e direta “Good Intentions Paving Company”). Todavia, a característica principal que faz de Have One on Me um disco fantástico é o mesmo talento apresentado em Ys: uma incrível capacidade narrativa, aliada a um soberbo senso de economia, de guiar as composições por momentos de calmaria e fazê-los desaguar em clímaxes dramáticos. Apesar das delícias de pequeno formato, como “’81” ou “Jackrabbits”, é nas faixas mais extensas que Joanna Newsom mostra seu imenso talento para mexer com as flutuações emocionais de suas composições, indo do alfa ao ômega e voltando, sempre lírica e vulnerável, mas evitando os caminhos fáceis de sentimentalizar sua arte.

Num primeiro momento, Have One on Me pode soar mais “normal”, mais monocórdio em relação aos outros discos de Joanna Newsom. Mas basta algumas audições para que as faixas cresçam na sensibilidade do ouvinte e cada faixa se mostre em sua singularidade, justificando plenamente o que poderia passar por um ato de auto-indulgência ou excesso (a grandiosidade inerente à ideia de “disco triplo”). Cada faixa tem uma formulação própria de estrutura, e propõe um enorme subjetivismo da forma: cada faixa evolui como um fluxo de consciência, deixando de lado as usuais construções de clímax em nome de um intimismo do movimento, tornado claro pela precisão da dramaticidade do vocal e das incursões mais incisivas do arranjo. É o que faz a graça e a singularidade de monumentos como “Soft as Chalk”, “In California”, “No Provenance”, “Kingfisher” e a faixa-título, destaques num disco em que quase toda faixa é um destaque (perto da majestade e da perfeição geral, faixas como “Easy” e “Esme” acabam soando como menores). Mais que o uso da voz, mais do que a harpa (aqui substituída pelo piano em vários momentos), é a maneira de estruturar suas composições que faz da obra de Joanna Newsom um monolito no meio do panorama musical contemporâneo. Como bem aventou Charlie Wilmoth na Dusted, o único gênero cabível a Joanna Newsom é Joanna Newsom.

Como/quando você conheceu Joanna Newsom? E como/quando começou a gostar? Dependendo das respostas, e considerados os gostos pessoais, há de se gostar mais ou menos de Have One on Me. Não é um disco ao qual se possa ficar indiferente. E por mais que o vocal tenha perdido a estranheza dos primeiros dias, mesmo a singeleza e o registro mais palatável estão a anos-luz de cantoras que habitam searas mais tradicionais como Cat Power ou Madeleine Peyroux. Àqueles dispostos a entrar na intensa aventura íntima e emocional proposta por Joanna Newsom, Have One on Me será devidamente saudado como o primeiro grande clássico desse começo de década. (Ruy Gardnier)

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Não tenho, nunca tive simpatia pela música de Joanna Newsom. Sempre me causou certa perplexidade a devoção com que amigos próximos se referem a ela e, sobretudo, ao álbum Ys, de 2006. A voz chata, de taquara rachada, as canções óbvias e dissonâncias execessivamente calculadas, quase uma Taylor Swift que ouviu muito Frank Zappa… Tudo bem que, vá lá, arranjos de Van Dyke Park e uma beleza incomum e voluptuosa podem ter contribuido para angariar a reverência de um monte de marmanjos que estão quase lá na crise de meia idade, como eu. Mas daí a alçá-la a gênio na frente de Konono N.1, Asa-Chang, Animal Collective e Shackleton, sei lá… Para mim, e no fim das contas é tudo uma questão de opinião, ela não está nem entre as 50 coisas mais interessantes que surgiram na última década. Georgia Anne Muldrow, que faz um trabalho de acurada modulação melódica e opera estes experimentos na linguagem aparentemente petrificada do jazz e do soul me parece mais relevante, só para citar um exemplo. O que tem Joanna Newsom de tão interessante que mereça a atenção de tanta gente a ponto de converter-se em uma febre, eu não sei. Seus shows estão sold out, seu último álbum na lista de mais vendidos. Por que logo eu haveria de saber o segredo de Joanna Newsom? Pois continuo sem saber. E sei menos ainda diferenciar a lamúria de “Occident” da melancolia de “Esme”, o niilismo de “’81” da chatura sem fim de “On a Good Day” (apesar dos seus pouco menos de dois minutos…), faixas que caberiam perfeitamente num álbum da Enya. No máximo uma Kate Bush que deu errado… Ou até mesmo da Barbra Streisand, se ela comesse um space cake… Que a belíssima srta. Newsom demore mais quatro anos para lançar, me poupando do suplício de escutar por três vezes essa bomba que é Have One on Me. (Bernardo Oliveira)

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E lá se vão  quatro anos desde Ys, disco que impôs um desafio para Newsom — como poderia superá-lo? Se em 2006 a cantora californiana – cercada por gente como Bill Callahan, Jim O’Rourke, Van Dyke Parks e Steve Albini – proporcionou uma das mais belas obras da década passada, de lirismo singular e produção barroca, que o avizinha de obras como as colaborações do próprio Parks com Brian Wilson, agora, depois de um EP com a Ys Street Band, a bela cantora lança um CD triplo (com a duração de um CD duplo) contendo mais uma valiosa coleção de canções por onde estica suas cordas vocais e o dedilhado da harpa. Se em Ys havia um espaço quase fantástico nos temas (lembro na época de seu lançamento uma primeira rejeição à estética medieval da capa — seria a tal loirinha uma pseudo-elfa-fã de Enya? — ledo engano), Have One on Me é mais mundano mas nem por isso menos arrojado. A configuração e a extensão de algumas músicas mostram que Newsom não é uma cantora de intenções ordinárias. O projeto é maior, rico nos arranjos e na deliciosa voz da cantora que se entrelaça aos arranjos de sopro numa dança sutil e apaixonada. Não conseguiria aqui fazer uma análise mais dedicada às canções, mas aos discos em separado fica evidente a riqueza do primeiro terço do álbum, em irresistíveis canções como a faixa-título “Have One on Me”, “Good Intentions Paving Company” (absolutamente viciante) e “No Provenance”. Se o lado cinza de 2010 se apresentou em Going Places, dos Yellow Swans, as cores suaves da luz fracionada em cristal surgem com Have One On Me e Joanna Newsom, consolidando-a figura inconteste no panorama pop atual, fazendo música que não pertence a tempo algum e, ao mesmo tempo, tão fácil de se achar entre os trinados da jovem cantora. (Fernando Rocha)

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Um comentário em “Joanna Newsom – Have One on Me (2010; Drag City, EUA)

  1. Rafael Drummond
    27 de setembro de 2015

    Bernardo, quantas vezes escutou o disco?

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Publicado às 24 de março de 2010 por em folk e marcado , .
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