Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Liars – Sisterworld (2010; Mute, EUA)

Liars é um grupo americano de rock (Nova York, com origens em Los Angeles), capitaneado pelo cantor e guitarrista Angus Andrew, australiano de origem. Originalmente a banda se completava com Aaron Hemphill (guitarra, percussão e sintetizador), Pat Noecker (baixo) e Ron Albertson (bateria), formação que gravou o primeiro álbum do Liars, They Threw Us All in a Trench and Stuck a Monument on Top, em 2001. Logo em seguida Noecker e Albertson saíram do grupo e Julian Gross assumiu a bateria. Com essa formação gravaram todos os discos seguintes: They Were Wrong, So We Drowned (2004), Drum’s Not Dead (2005), Liars (2007) e este Sisterworld, lançado em 9 de março de 2010.  O álbum foi integralmente concebido e gravado em Los Angeles. (RG)

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O lendário John Peel formulou uma frase sobre o grupo The Fall que adquiriu status de clássico: “Sempre diferentes, sempre os mesmos”. Ela atenta para o fato de que o Fall disco a disco conseguiu achar facetas novas para desenvolver seu som, mas sempre soando inequivocamente como eles mesmos e mais ninguém. O mesmo pode ser dito ipsis literis do Liars, um grupo que apareceu coincidentemente no momento em que a fama discopunk grassava na cena novaiorquina (via DFA, com Rapture, LCD Soundsystem et al.) e que a cada disco posterior se reinventou a ponto de desapontar os fãs de ocasião, frustrar as tendências mercadológicas, impor-se como enigma e ainda assim manter uma enorme coerência de trajetória e de sonoridade. A cada disco novo, a repercussão é a mesma: críticos e fãs elogiam ou deploram a guinada mais para o palatável ou mais para o experimental, dependendo da índole e do gosto pessoal. Com cinco discos (além de diversos eps, singles e splits), fica claro que o processo do grupo é de reinvenção constante, e que ainda que se atenha a alguns padrões de composição e arranjo – alternância entre rocks ríspidos com riffs potentes e faixas mais climáticas/melódicas, grooves insidiosos, repetições maníacas e a utilização de poucos elementos (em timbres, em instrumentação, em número de notas) –, o Liars só funciona expandindo seu leque de possibilidades. O dado estético mais marcante dos Liars é algo que eles partilham com um grupo como o Wire em seu primeiro momento: é basicamente o punk filtrado por uma sensibilidade experimentalista/modernista (ou seja, que não toma a forma do gênero como um dado, mas como um ponto de partida sobre o qual se brinca) que se aproveita da crueza mas troca a canção pelo conceito.

A maior diferença de Sisterworld em termos de sonoridade é a adição de instrumentos melódicos, como o fagote, o violoncelo, o violino e a viola, colorindo os arranjos de quatro faixas, as três primeiras e “Goodnight on Everything”. Mas basta irromper em “Scissor” o riff demoníaco de guitarra e a bateria galopante para que estejamos completamente em casa, no permanente clima de ameaça e paranoia que torna o som do Liars tão cativante. O jogo não é tanto entre as faixas abrasivas e as faixas melódicas – em todas as faixas há motivos sonoros que convidam à perturbação, e todas as intervenções melódicas colaboram mais para um senso de preenchimento do arranjo (e da tensão provocada pela composição) do que efetivamente para a fruição “bela”. A partilha, na verdade, se dá entre faixas de andamento rápido e lento, e a progressão do disco se aproveita estrategicamente das alternâncias para criar grande fluidez e afastar o perigo da monotonia. Vai demorar até a quinta faixa, “Scarecrows on a Killer Slant”, para surgir outro rockão devastador. O vocal de Angus Andrew é outro componente que se presta à variação, entre o grave nickcaveano de seu registro natural e seu falsete pretensamente acalentador, passando por sussurros e momentos de coro. É uma música das sombras, uma trilha sonora para seitas secretas e jogos de conspiração, e nisso o Liars permanece lapidar. Se Sisterworld acrescenta algo à discografia do grupo, é a maior coesão das canções e principalmente a lapidação do sentimento de “slow burn”, evitando situações mais óbvias de catarse e permitindo a instalação da tensão por toda a duração do álbum.

Eu jamais saberia hierarquizar os discos do Liars por ordem de preferência. Todos são capítulos de uma mesma história, ou melhor, a mesma história contada por ângulos diferentes – como filmes de Chabrol ou discos do… ahn… The Fall. Mas eu sei hierarquizar muito bem o Liars dentro do panorama de rock atual, e o lugar deles é lá em cima. Sisterworld demonstra com autoridade o porquê da colocação. (Ruy Gardnier)

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Só a abertura desse disco, com o teaser “Scissor”, já me faz, exultante de alegria, dizer: os Liars são demais! Se Sisterworld é mais do mesmo, se leva o grupo à frente… Não sei dizer ao certo porque ainda estou escutando, degustando a mistura de pegada punk, ironia fina e inteligência nos arranjos que marca o trabalho deles desde que apareceram no início da década que passou. Olha, eu assumo que o historicismo, essa mania escrota de “enfiar” os fenômenos culturais dentro de seus contextos políticos, poderia ser comparado à uma doença criticista que só prolonga virtualmente o legado de Kant e do pensamento moderno. E essa doença prende a força criativa, mas o encontro da arte com a crítica foi inevitável, ao contrário dos que pensam os puritanos da academia. Vejamos: o Liars pode ser enquadrado em um fenômeno de reavaliação crítica do rock’n’roll, tipo post-Rock? Quero dizer, será que o fato de que os discos anteriores, e também este Sisterworld, não demonstrarem uma independência formal, tal como o Sonic Youth manifestava em seus primeiros discos em relação ao Velvet, sua fonte primeva, será que isto depõe contra o Liars? Será que para elogiar o trabalho do Liars e embasar adequadamente esta resenha eu deveria indicar que a) eles não são tão originais, apontando uma a uma as influências com as quais eles trabalham de forma crítica, ironizando-as, mas com amor, e b) mas que há uma explicação no “espírito da época”, que alçaria este processo de trabalhar criativa e criticamente com o material multifacetado do rock’n’roll a um patamar de alto grau de sutileza, visto que hoje a releitura atingiu um caráter criativo que põe em xeque as categorias mais comuns à crítica de uma forma geral? É uma questão que se põe, sobretudo em uma revista como a Camarilha, que busca trazer à tona aqueles que fazem trabalhos mais desafiadores, aqueles que brincam com a arte de forma a elevar a consciência crítica e o gosto do ouvinte. Por ora, no entanto, devo dizer que mesmo tomado por esses problemas, o gosto falou mais alto, o que me faz repetir com toda a convicção que Sisterworld é um disco excelente, repleto de faixas poderosas, divertidas e que esbanjam talento na composição e nos arranjos. Após o esporro célebre da já citada “Scissor”, vem “No barrier fun”, que contém o genial insight de inserir uma linha melódica no estilo “caixinha de música”, reforçando aquele clima de filme de terror que o grupo tanto gosta – e que aliás perpassa Sisterworld de cabo a rabo. A mesma coisa se pode dizer da melodia de “Here Comes All The People”, e dos barulinhos climáticos da genial “Drip”. E assim, o disco enfileira, faixa a faixa, alguns dos mais refrescantes e autênticos exemplos de como o rock’n’roll pode ser hoje: super-referencial, mas ao mesmo tempo criativo, irônico, iconoclasta e sobretudo divertido. Se há ou não originalidade, não me importa, contanto que o Liars continue destilando essas características. Bem, pelo menos por enquanto, mesmo com todas as questões que envolvem a “criança”, o veredito é esse: discaço. (Bernardo Oliveira)

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Não conhecia o trabalho do Liars até a indicação de seu mais recente álbum pelo colega Ruy, na semana passada. Assim sendo, não pude compreender o álbum sob a perspectiva histórica do grupo (em minhas pesquisas, o trio de NovaYork parece ter imposto muitas mudanças no seu trabalho durante os anos). Ruim ou não, essa ignorância me permitiu uma audição livre de qualquer análise comparativa, levando única e exclusivamente o que de fato Sisterworld tem a nos oferecer. O disco começa com “Scissors”, uma canção que desde os primeiros minutos me lembrou uma mistura de Tom Waits com Queens of the Stone Age. Mas, por mais que se espere um resultado interessante de tal amálgama, não foi isso que transpareceu no trabalho do grupo nas primeiras audições. Mudanças de tempo pouco criativas e uma eterna sensação de déjà-vu se espalham por canções como “Scarecrows on a Killer Slant” e “The Overachievers”, que prestam pra nos lembrar de gente mais interessante, de Gang of Four até mesmo o QOTSA do Rated R. Porém, se o disco não preza pelo novidadismo (precisa?), ao menos nos oferece momentos interessantes, a cargo da simpática abre-alas “Scissors” e de “Proud Evolution”, onde o trio se arrisca em uma estrutura menos óbvia passeando, veja só, por arranjos faustianos. O clima geral é soturno, arrastado. O ritmo inebriante traz ainda mais pra próximo de uma sonoridade stoner que, apesar de pouco inventiva, impõe um clima energético, essencial para a sonoridade do grupo. Se o Liars peca por não assumir riscos — em composições bem elaboradas porém opacas — sobram no álbum faixas que ao menos não envergonham. (Fernando Rocha)

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Publicado às 24 de março de 2010 por em rock e marcado , .
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