Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Jacob do Bandolim e Seu Conjunto Época de Ouro – Vibrações (1967; RCA-Camden, Brasil)

Há 92 anos nascia no Rio de Janeiro Jacob Pick Bittencourt, mais conhecido como Jacob do Bandolim. Instrumentista virtuoso, compositor influente, pesquisador responsável pela constituição do segundo maior e mais importante acervo da música brasileira (o primeiro é o de Almirante), Jacob, no entanto, não era músico de profissão. Trabalhou como vendedor, corretor de seguros, comerciante e escrivão de polícia, o que lhe possibilitou compor à margem das exigências do mercado. Gravou alguns 78 rpm’s pela Continental, migrando posteriormente para a RCA-Victor, onde produziu seus primeiros trabalhos como leader. São desta época os álbuns Chorinhos e Chorões, Jacob Revive Sambas para Você Cantar e Primas e Bordões, entre outros. Montou o grupo Jacob e Sua Gente, fez parte do Conjunto da Rádio Ipanema e do regional de Paulo César Faria, pai de Paulinho da Viola, e participou como instrumentista de diversas gravações históricas, como a de Ataulfo Alves para “Ai, que saudades da Amélia”. Em 66 formou o supergrupo Época de Ouro, que contava com chorões de prestígio como Dino 7 Cordas, Gilberto D’Ávila e o já citado Paulo Cesar Faria. Em 68 participaria da gravação daquele que viria a se tornar o maior álbum ao vivo de toda a história da música brasileira: Ao Vivo no Teatro João Caetano – Elizeth Cardoso, Zimbo Trio, Jacob do Bandolim e Época de Ouro. Faleceu no dia 13 de agosto de 1969, deixando um acervo monumental de música instrumental brasileira, vários discos de carreira e diversas composições que se tornaram clássicas, como “Noites Cariocas”, “Receita de Samba”, “Doce de Coco”, “Assanhado”, entre outras. (B.O.)

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Jacob do Bandolim ficou para a história como um adorável ranzinza, parte das histórias a seu respeito trazem observações acerca do rigor, disciplina e sinceridade a toda prova. Dizia o que lhe vinha à cabeça a respeito de amigos como Donga com a mesma honestidade com que disparava críticas a artistas como Baden Powell e Wilson Simonal. Porém, nas entrelinhas deste estranho anedotário percebe-se todo um ambiente de disciplina, pesquisa, estudo, preservação e, sobretudo, realização. Me perdoem a pretensão antropológica, mas devo notar, à moda de Jacob, que o carioca não topa com essas características, não sei bem o por quê… Em carioquês a palavra “ranzinza” tem uma conotação negativa, mas devemos passar por cima dela e compreender que Jacob foi um indivíduo capaz de alterar todo um estado de coisas, o que nem sempre é visto pelo carioca como algo positivo – vide o carnaval, o futebol, etc.

Ranzinza ou não, pouco importa. Poucos artistas na música brasileira foram tão expressivos, influentes e profundos quanto Jacob do Bandolim. Particularmente no que diz respeito à música carioca, essa genialidade se exprime através de características peculiares e mal-compreendidas, que aliam pesquisa e criação, tradição e renovação, qualidade rara da música brasileira contemporânea e que pode ser claramente notada nesta entrevista. Qualidade retrospectiva, relativa à pesquisa de repertório e da história da música instrumental brasileira, mas também prospectiva, que se dedica a uma busca contínua de novas formas de executar o choro, de gravá-lo e de “timbrá-lo” – Jacob era fascinado pela tecnologia e se inteirava constantemente do universo de equipamentos e efeitos, chegando a utilizar-se de fotografias e microfilmes para facilitar a transcrição e armazenamento de partituras e de um Vibraplex, espécie de ancestral da guitarra elétrica, utilizado em 59 durante as gravações de uma série de faixas para a Rádio MEC. Ou seja, parte de seu trabalho, de conservação e pesquisa, estava necessariamente atrelado a uma outra dimensão, criativa, que se esmerava em usar a tecnologia para facilitar a trabalheira monumental e, de outro lado, inventar novas formas para o choro.

O fato é que, preocupado em preservar o que nós poderíamos chamar, como ele chamaria, de “tradição”, Jacob na verdade promoveu uma ação em vistas de um futuro, da possibilidade de que a linguagem da música instrumental brasileira, particularmente ligada ao choro, viesse a render outros frutos para além da mera reverência histórica. Alguns músicos mais jovens, como Ronaldo do Bandolim (que também fez parte do Época de Ouro), reconhecem que ele reinterpretou antigos clássicos do choro de forma a alterar consideravelmente sua forma e estrutura. E isso o fez alterando o tempo, o humor, a dinâmica e todos os elementos possíveis da composição, a partir de uma maneira incisiva e especificamente rica de interpretá-la. Pois bem, se isto é verdade, então Vibrações é ao mesmo tempo fruto das pesquisas retrospectivas, mas sobretudo resultado de um modo completamente diferente de compor, executar, gravar e timbrar o choro. Este juízo não constitui novidade, é corriqueiro e todos sabem: Vibrações é a grande obra-prima de Jacob. A tarefa é árdua, mas tentarei, em três tempos, justificar a unanimidade e a magnitude deste disco.

Para começar, o repertório. Vibrações pode ser considerado o melhor disco de Jacob por reportar ao sentido da sua vida, que foi criar música entre o passado e o futuro. Mas Jacob não é modesto: ele é o futuro, posicionado estrategicamente entre seus ídolos e parceiros, como Benedito Lacerda, Luiz Americano, Pixinguinha, e o maior homenageado do disco, nas suas próprias palavras um “Chopin mais popularesco”, Ernesto de Júlio Nazareth. O conjunto das composições de Vibrações, já explica por si só a grandeza sintética do álbum. Destaque especial para as três últimas faixas de Nazareth, verdadeiros achados de Jacob. “Brejeiro” é aquele choro assanhado e saltitante, que transpira alegria, ao contrário de “Floraux”, de uma melancolia ímpar que, como os fados de Alfredo Marceneiro, tocam a sensibilidade através de recaídas constantes nas modulações menores. As faixas de Jacob são maravilhosas também, clássicos do choro e também do samba, como a perfeita “Receita de samba” e a nostalgia das varandas que traz o evocativo tema de “Vibrações”. Sem falar na mais bela e pungente gravação de “Lamento”, talvez o choro mais bonito de todos os tempos. Nem o próprio Pixinguinha o gravou com tanta alma e propriedade.

Um outro aspecto é o time: trata-se do primeiro álbum de Jacob com o Época de Ouro, composto pelos maiores chorões da época, como Dino 7 Cordas, Paulo Cesar Faria, Carlinhos, Jonas, Gilberto D’Ávila e Jorginho. Em Vibrações podemos ouvir em cada faixa a forma sábia e comedida de conduzir o ritmo, criar com parcimônia os floreios, delinear com dinâmica e inspiração os arpejos… Pode-se afirmar tranquilamente que com Vibrações o Época de Ouro se impôs como o maior grupo e choro de todos os tempos. Por fim, o próprio Jacob e seu estilo inconfundível. Já citei a opinião do maior bandolinista da atualidade, Ronaldo do Bandolim, segundo a qual Jacob redefiniu o instrumento antes utilizado por José Alves, que acompanhou os Oito Batutas de Pixinguinha, Joventino Maciel (autor da belíssima e suingada “Cadência”, presente no disco) e, sobretudo, pelo pernambucano Luperce Miranda, aquele que mais se destacou nesse instrumento antes de Jacob. E em que consiste essa diferença? Bem, são poucas as fontes, sendo Luperce Miranda um caminho mais ou menos seguro de obter um termo de comparação, mas ao mesmo tempo um termo injusto, pois não se trata de situá-lo como uma “transição” ao estilo de Jacob, muito pelo contrário. O fato é que Luperce, com sua palhetada firme e interpretação repleta de variações de dinâmica e virtuosismo de velocista, foi nítida inspiração para o estilo de Jacob. É evidente pela comparação que Jacob é mais seco, mais econômico e interpreta aquilo que é melhor para a composição, critério que se tornou corrente entre a maioria dos bandolinistas brasileiros. Esta característica faz de Vibrações uma espécie de summa, de resumo e síntese do estilo preciso e ao mesmo tempo emotivo de Jacob.

Vibrações é produto de um espírito inclinado a “fazer melhor”, ao trabalho minucioso e, no mesmo passo, ao trabalho de recriação e reinvenção pelo qual qualquer tradição que queira prosseguir tem que passar necessariamente. Quando nos aproximamos da dupla característica desse espírito desbravador, chegamos perto do real valor de Jacob e percebemos a qualidade dos grandes homens: a retidão de caráter e propósito, a capacidade de se auto-impor metas e cumprí-las. Não há como ser medíocre e procurar fazer média com os outros somente por uma questão de costume, é preciso pôr as cartas na mesa em vistas de preservar somente o que importa. E o que importa aqui é a música. O resultado, a música que emana de Vibrações, é “uma promessa de felicidade”, é algo para além da felicidade e da satisfação, é gigantesca, é total… (Bernardo Oliveira)

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A grande arte é capaz de sentimentos  simultâneos contrastantes, paradoxais. Nela, por vezes o mais rigorosamente sóbrio é ao mesmo tempo o mais alucinatório, o mais concreto torna-se inefável. É o poder da criação, a brincadeira séria de mexer com equilíbrios e desequilíbrios, acelerações e ralentamentos, matizes, volumes, continuidades, descontinuidades, infinitas possibilidades de inflexão… Jacob do Bandolim é um desses exemplos estupendos de músicos que chegaram a um tal controle de sua arte  que pode ser tudo ao mesmo tempo. Nas notas da contracapa de Vibrações, Jacob lista as gravações anteriores de cada composição e, nos casos apropriados (“Lamento”, “Murmurando”), faz um histórico da repercussão popular da obra. O trabalho de pesquisador-CDF é tão minucioso que até os códigos de cada lançamento são listados. Uma relação, portanto, de muito respeito com o passado. Mas quando o disco vai à vitrola, nota-se um artista claramente vivendo no presente, deslizando suas palhetadas pelo andamento com domínio absoluto, realizando interpretações que têm mais a ver com a verdade do momento do que com a observância à jaula da partitura (“O chorão distante que pega o papel para tocar eu repudio”, dizia em entrevista no mesmo ano de Vibrações; na contracapa do disco, a propósito de uma interpretação pessoal de “Brejeiro”, de Ernesto Nazareth, ele dispara: “Perdoem-me os tradicionalistas”). O que não quer dizer que Jacob barbarize. Pelo contrário. Ele não está em oposição com o passado, nem pretende “atualizar” a tradição. Mas sabe que a música, para ser viva, se faz no presente e precisa soar nova para fugir da museificação.

“Vibrações” dá a partida no disco como um turbilhão. Faixa inédita de Jacob, a melodia de rápida identificação e forte teor evocativo se presta também a uma infinidade de variações, e antes do estabelecimento definitivo Jacob já está brincando com trêmulos à vontade, preenchendo os intervalos entre as notas principais com uma profusão de toques para depois, na segunda parte, usar o procedimento oposto e subtrair diversas notas, construindo um bom momento de respiração e suspense para a retomada da melodia. Logo depois, ele começa bem baixinho e vai subindo o volume progressivamente. Por toda sua extensão “Vibrações” é mutante, e as diferentes estratégias empregadas constroem a percepção de que o bandolim de Jacob passeia inteiramente senhor das velocidades, inventando um ritmo enormemente subjetivo dentro do ritmo fornecido pelo andamento. O disco conta ainda com majestosas composições de Jacob (“Pérolas” e “Receita de Samba”, também inéditas até então), versões primorosas de Ernesto Nazareth (“Brejeiro”, “Floraux”), Fon Fon (“Murmurando”) e Pixinguinha (“Lamento”, “Ingênuo”), todas executadas com igual vivacidade e essa estranha união de desprendimento e disciplina que caracteriza o trabalho e a arte de Jacob. Note-se também o incrível trabalho de repertório operado pelo músico, pinçando faixas de Nazareth até então não-gravadas (“Fidalga”, “Vésper”), referenciando compositores como Joventino Maciel e Luiz Americano e criando seu próprio cânone de Pixinguinha — só cabe dizer que como curador de chorinho ele é tão senhor de si quanto como bandolinista. Por fim, note-se a coesão do Conjunto Época de Ouro, complemento elegante nos acompanhamentos e nos contrapontos ao bandolim de Jacob. Que mais dizer? Vibrações é um momento precioso e fundamental da música brasileira. (Ruy Gardnier)

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4 comentários em “Jacob do Bandolim e Seu Conjunto Época de Ouro – Vibrações (1967; RCA-Camden, Brasil)

  1. josué ribeiro carneiro
    16 de setembro de 2010

    Pense num disco maravilhoso!!!!Dá pra ouvir cada instrumento ao seu tempo, é incrível como o epoca de ouro consegue isto em 1967.É uma universidade do choro, indispensável ao amante da boa,digo boa MPB em todos os seus tons. Só o grande mestre Jacob mesmo e seus comandados de ouro.

  2. Armando
    1 de dezembro de 2015

    Excelente texto, mas não foi o primeiro álbum de Jacob com o Época de Ouro. Foi na verdade o primeiro álbum em que o conjunto usou esse nome.

    • willians d'avila
      5 de março de 2016

      quero ressaltar que a entrada de jorginho foi após a saida de gilberto dávila que se dedicou como arregimentador na gravaora RCA e BMG Ariola lembro também que o Sr. Gilberto além de ter sido um dos melhores panderista tambem um excelente percusionista tendo gravado com muitos artistas desde da era de carmem miranda até os mais novos artista de hoje conforme narrativa do disco feito pelo maestro rildo hora…

      • Armando Andrade
        19 de fevereiro de 2017

        Não. O Jorginho entrou no grupo como ritmista ainda com o Gilberto no pandeiro do Época de Ouro.

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Publicado às 30 de março de 2010 por em Chôro e marcado , , , , , , , .
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