Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Cold Cave / Prurient – Stars Explode (2010; Hospital Productions, Estados Unidos)

O Cold Cave é um grupo de música eletrônica experimental fundado na Filadélfia, EUA. Formado por Wesley Eisold, ex-vocalista de bandas de Punk Hardcore e Noise como Some Girls e American Nightmare. O grupo ainda conta, em apresentações ao vivo com Jennifer Clavin, Guy Licatta e Dominick Fernow. Gravando sob este pseudônimo, Eisold surgiu com o LP Coma Potion em 2008, pela Heartworm Press. Seu último disco, Loves Come Close, foi lançado em 2009 pela Matador Records. No mesmo ano, saiu pela Hospital Productions Stars Explode, um split com seu colega de palco Ian Dominick Fernow, vulgo Prurient. Prurient é um projeto de Drone/Noise capitaneado por Fernow e que mantém uma produção constante desde 98, lançando EPs, Cassetes e LPs. Artista sonoro baseado no Brooklyn, NY, Dominick Fernow já colaborou com diversos artistas como Carlos Giffoni e Wolf Eyes. Stars Explode surgiu inicialmente como um Cassete em edição limitada de 100 exemplares. Na sua segunda versão, além de uma nova arte o disco sai em vinil com uma nova faixa: “Stars Explode”. (FR)

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O Motivo principal da indicação deste pequeno LP é a natureza de sua primeira encarnação: a fita cassete. Fetiche recorrente entre artistas que circulam entre as camadas mais ruidosas da produção musical contemporânea, o meio guarda em si um dado de deterioração contínua que, em tempos de clareza absoluta: protegida por zeros e uns, enriquece a experiência musical. Penso eu que, com o passar o tempo cada fitinha ganhe certos inserções ruidosas, desmagnetizadas cada uma à sua maneira: viagens conceituais à parte (e ainda mais que muitos – assim  como eu – só irão conhecer esse trabalho via mp3) o encontro do interessante projeto de Wes Eisold com o Prurient de Dominick Fernow nos oferece uma construção sônica de riqueza sutil, entre longas passagens tímbricas, de ressonâncias atmosféricas que nos transportam para cenários semelhantes àqueles de Tim Hecker, ou mesmo o terror sintético do Throbbing Gristle. Sem a dimensão climática do primeiro nem a energia nefasta do segundo, Stars Explode fica em um limbo de potencialidades não atingidas: frustra ao mesmo tempo que alimenta a curiosidade por um trabalho mais denso da dupla. (Fernando Rocha)

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Conheci o Cold Cave no ano passado, através da campanha intensa que a Boomkat faz de seus artistas preferidos colocando-os sempre como Album of the Week, Single of the Week, Highly Recommended, Essential Purchase e quetais. Como volta e meia eles estão certos, não custa ir lá catar a banda. E qual não é a minha surpresa quando percebo que, na contracorrente até de uma certa impaciência com indie pop-rock, o Cold Cave é não só bastante pop, e mesmo um synthpop carregado de dark anos 80. Ouvi Love Comes Close eDeath Comes Close, um single e um LP (não necessariamente nessa ordem). Não fiquei impressionado. O Prurient já conheço há um tempão. É um desses artistas de drone/noise que lançam uma pletora de lançamentos por ano, cassetes, CD-R’s, edições limitadíssimas em vinil de 7, 10 polegadas. Apesar de nunca ter me apaixonado por nenhum de seus discos em particular, ouvir um disco novo do Prurient é sempre uma atividade que recebo com algum prazer, pelo costumeiro desafio da proposta e pelos sons conseguidos pelo sujeito. E ainda tem a dose de respeito: Dominick Fernow, o homem por trás do Prurient, é o responsável pelo selo Hospital Productions, que já lançou Kevin Drumm, Wolf Eyes, Carlos Giffoni – artistas com quem inclusive o Prurient já gravou em conjunto. Cabe notar que, por mais que o Cold Cave já tenha gravado pela Hospital, os dois nomes se misturavam para mim tanto como óleo e água…

Eis que aparece Stars Explode, um disquinho de vinte e poucos minutos de duração, com duas faixas relativamente grandes (mais de 6min) e duas micro (menos de 2min30s). São faixas atmosféricas dominadas por sintetizador em que o volume é sempre bem moderado (nunca excessivo, quase sempre baixinho) e as intervenções são parcimoniosas. Na primeira faixa, alguns graves com forte ressonância lembram um coro de música sacra; em outros momentos, nas duas primeiras faixas, há pequenos sonzinhos de registro agudo que evocam pequenas pinceladas celestiais, como se as estrelas explodindo sugeridas pelo título fossem uma mistura de perdição e salvação, céu e inferno. O clima moroso de solenidade persiste durante as duas primeiras faixas, com algumas intervenções delicadas e preciosas, com discretas programações percussivas e alguns sons que, vindo do nada, soam um pouco extraterrenos (ainda que timbristicamente não tenham maior destaque). As duas faixas seguintes são mais complementares do que qualquer coisa: a terceira baseia-se num sequenciamento de percussão eletrõnica e a quarta num vocal distorcido e sem maior interesse. Restam alguns adorávels momentos das duas primeiras faixas, que, se não chegam a criar maior brilho, ao menos garantem por instantes o prazer da audição. (Ruy Gardnier)

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Ainda que seja uma idéia naturalmente inferível da audição deste álbum, vale antes de mais nada indicar que o drone oscilante, repleto de harmônicos fantasmagóricos que saltam de “Gravity’s Victor”, primeira faixa desta colaboração entre o novíssimo Cold Cave e o não tão novo Prurient, pende indubitavelmente para o lado do segundo. Não comprometendo de forma alguma a audição, esta informação só ajuda a entender que uma combinação tão estapafúrdia possui, entrtanto, o mérito de encarnar uma sonoridade unilateral, e não experimentar a combinação pela combinação simplesmente. De um lado, o pop sombrio e saturado do Cold Cave; do outro, a massaroca sonora enérgica do Prurient. Pois o bom senso parece ter sugerido para que optasem por convergir esforços em favor de uma intenção mais ou menos geral, qual seja: explorar, em três faixas, feedbacks e dissonâncias em geral produzindo uma saudável e prazerosa sensação de “ondas sonoras”. Bem, em todo caso trata-se de um EP, as faixas se parecem um pouco… Mas, no fim, na coda “Injured in Sleep”, destila, um tom acima, a virulência rítmica de um Fuck Buttons. Apenas em dois minutos, toda uma concepção é como que realçada por um pequeno detalhe, isto tem valor, e muito.  Sim, é apenas um EP, mas com fôlego para uma indicação, como bem percebeu o Fernando. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 7 de abril de 2010 por em eletrônica, experimental, noise e marcado , , .
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