Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Gorillaz – Plastic Beach (2010; Parlophone/EMI, Reino Unido)


Projeto do líder do grupo Blur, Damon Albarn e do cartunista Jamie Hewlett, co-criador da HQ cult Tank Girl, o Gorillaz é um grupo composto por quatro personagens animados: 2D, Russel, Murdoc e Noodles. Além dos seus criadores, o grupo conta com colaborações das mais diversas como Dan The Automator, Danger Mouse, Miho Hatori (Cibo Mato) e, mais recentemente Lou Reed, Mos Def e De La Soul, entre outros. Criado durante o hiato do Blur, o Gorillaz já lançou três LPs, além de EPs e compilações de lados B. Em março de 2010, lança seu mais recente trabalho: Plastic Beach, contando com diversos convidados e gravado durante o ano anterior em Beirute, no Líbano. (FR)

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Lembro bem quando, nos idos de 2001 o vocalista do então moribundo grupo de britpop Blur aparecia com o Gorillaz, uma extravagância pop que já se anunciava, ao menos para este que vos escreve, mais um capricho de um popstar em fim de carreira. O disco, entretanto, já mostrava que pouca coisa na banda-cartoon lembrava os arqui-rivais do Oasis na pseudo-batalha pelos tablóides musicais britânicos. Mergulhado em uma mistura bem mais rica, desde o princípio o projeto se anunciou como uma janela para testar novos caminhos para a música pop. Entenda aqui pop não como uma diversão pueril sem maiores intenções artísticas, mas sim a capacidade de construir melodias irresistíveis e invertendo fórmulas pré-estabelecidas nas FMs, ou coisa que valha nesse tempo de peer-to-peer. Pois bem, o “capricho extravagante” de Albarn e Hewlet sobreviveu ao teste do tempo e além de um fenômeno midiático notável, o grupo produziu uma penca (no pun intended) de singles de qualidade inquestionável.

Plastic Beach, álbum de 2010, foi resultado de um longo trabalho que começara em 2008 com o nome de Carousel. Com mais convidados do que geralmente se via nos discos anteriores, o LP é um exemplar precioso da receita alquímica que produz o pop: podemos dizer que, após tanto trabalho e com a ajuda de figuras acima-de-qualquer-suspeita como o Legendário Lou Reed, Mos Def e os Clash Mick Jones e Paul Simonon, os personagens animados conseguiram achar sua pedra filosofal. Com ingredientes que vão desde o Indie Rock até a Eletrônica Underground britânica (e suas denominações Wonky, Funky, Grime, Dubstep…), o grupo atinge a maioridade sendo irônico com a mesma indústria que permitiu que, quatro macacos-zumbi pudessem lançar discos e fazer turnês, no melhor estilo The Rutles. O disco começa com “Cloud of Unknowing”, uma faixa climática com ambições orquestrais-pop. O álbum segue em um clima que nos remete a uma narrativa cinemática, movimentos e tensões pronunciam uma espécie de ópera-pop despretensiosa. Recheado de convidados de peso, Plastic Beach atira em diversas direções, quase como uma amostragem dos interesses musicais da dupla Hewlett/Albarn, viajando entre paisagens musicais das mais diversas mas ainda assim se mantendo coeso dentro do seu propósito inicial. Um esforço criativo que vai contra a corrente da indústria, cada vez mais histérica e descartável. Plastic Beach é um sinal de vida inteligente na música e, se não pavimenta novos terrenos musicais, ao menos torna o caminho mais atrativo aos menos ambiciosos. (Fernando Rocha)

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Se os Gorillaz são muito bem-humorados, então eu sou inevitavelmente mau-humorado. Não consigo enxergar muita graça, ou mesmo muita propriedade, no clima de descontração com que é tocada a coisa toda, na identidade visual composta de bonequinhos de cartum e na miríade de convidados que a cada faixa deixa a sonoridade do projeto com uma cara diferente. Não como princípio – em tese isso tudo soa muito interessante, até mesmo instigante. Ainda mais quando se vê o número de participações de peso presentes num disco como Plastic Beach: Lou Reed, Mark E. Smith (Th Fall), Paul Simonon e Mick Jones (The Clash), Mos Def, De La Soul, Bobby Womack, Hypnotic Brass Ensemble e outros. Mas quando se chega de fato à audição, os piores pressentimentos parecem se concretizar. Colocar em questão o som do Gorillaz é talvez acima de tudo problematizar e posicionar-se quanto ao ecletismo indiscriminado praticado pelo grupo, que faz questão de não ver barreiras e regozija-se, por exemplo, de colocar na mesma faixa a Orquestra Nacional de Música Árabe com dois MCs de grime. O exemplo é o mais extremo do disco, o que pode ser ruim para considerar como exemplo, mas ao menos ele deixa ver bem claro algo que parece ser a (altamente louvável, em princípio) ideologia do grupo: todas as misturas podem ser feitas, todos os sons se complementam. A despeito do excelente libelo de miscigenação sonora praticado pelo grupo, a premissa do grupo considera como um dado que todos os sons conseguem se combinar naturalmente e, inocência ainda pior, que nossas codificações sociais-auditivas reconhecerão os sons em sua singularidade. Ledo, e tolo, engano.

Comecemos no exemplo dado, um erro exemplar, “White Flag”: ao misturar um gênero que na simplicidade 8-bit de suas melodias já tem algo de videogame, o som da orquestra árabe acaba inevitavelmente parecendo trilha sonora pro personagem Hadji Singh de Jonny Quest. Como em química e no amor, alguns opostos se atraem, outros se repelem mesmo. Outro caso de triste associação de signos se dá em “Some Kind of Nature”, em que o estilo vocal introvertido e travado de Lou Reed nada combina com a frugal melodia ou a batida eletrônica alegrinha da faixa. Há casos em que as participações são absolutamente banais, como “Glitter Freeze”, com Mark E. Smith servindo de alegoria barata, ou “Plastic Beach”, em que a reunião de dois membros do Clash não se faz sentir com nenhum relevo (se fosse só cantada por Damon Albarn, daria no mesmo). Acaba que, no meio de tantos convidados, as faixas mais coesas acabam sendo aquelas em que a banda está sozinha, como “Rhynestone Eyes”, que no estilo nonchalante de vocal parece repetir o charme de “Clint Eastwood”, e “On Melancholy Hill”. O clima de despretensão generalizada faz com que tudo soe muito descartável, e até umas melodias bonitinhas como “Superfast Jellyfish” e “Sweepstakes” cansam em audições consecutivas. Sobressaem aqueles que não dependem muito das composições porque fazem seus shows com qualquer uma, os rappers: De La Soul, Mos Def e Snoop Dogg são os destaques desse disco que se ouve de forma tão indolor e insípida quanto água morna escorrendo entre os dedos. (Ruy Gardnier)

P.S.: Quanto à guinada rumo ao tecnopop ou tecnodark que o grupo dá em faixas como “Stylo” ou “Empire Ants”, quem achou que viveria um dia pra sentir Damon Albarn querendo gritar “Mamãe quero ser The Knife”?

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Com aquele tom meio impaciente que vem caracterizando suas declarações recentes (justificável, visto o policiamento que vem sofrendo por parte da imprensa), Carlinhos Brown afirmou recentemente que “todos querem ser pop, eu quero ser canção”. A despeito das implicações mais profundas que essa frase e sua entonação podem adquirir conforme trazemos à tona os problemas raciais e culturais que a envolve, inclino-me a refletir sobre o que separaria o termo “pop” da “canção” na concepção de Carlinhos Brown. Assim que começo a especular sobre a diferença, Plastic Beach começa a tocar e a coisa se confunde ainda mais. Por “pop”, Brown entende a busca por celebridade, a vanidade artificial que esta busca implica, enquanto que por “canção”, aquela adesão popular de que gozam canções como “Carinhoso” ou as de Jorge Ben e Tim Maia. Me lembrei da frase de Brown ao escutar Plastic Beach porque me parece que Albarn e Hewlett conjugam esses dois aspectos, antagônicos para Brown, de forma integrada: de um lado, assumem o artificialismo de maneira plenamente afetuosa, como convém aos filhos diletos do capitalismo, muito embora se possa dizer também que em vários momentos eles sejam críticos bem humorados; de outro, asseguram a consistência do trabalho, não no casting estelar, não nas jogadinhas malandras de arranjo, mas sobretudo no poder da canção, cuja técnica Albarn, sem dúvida, domina. A “magia” de Plastic Beach, mesmo com todo verniz de metalinguagem que aladeia, se ampara no poder básico e direto da canção, na sua capacidade de introjetar-se na memória afetiva das pessoas, tornando por um momento a vida leve e colorida, ou de criar elos de identificação com certos momentos históricos (como “O bêbado e o Equilibrista” e “Lithium”)… Mas as cancões, por sua vez, só fazem sentido dentro do contexto pop-irônico que a dupla criou, contexto este que num país que ainda chafurda nas vicissitudes de um mercado tacanho e limitado não faz o menor sentido – inclusive, a ironia é cada vez mais rara na música brasileira, e por ironia eu não entendo humor e gracinhas em geral.

Essas observações caberiam a qualquer disco do Gorilaz, mas penso que com Plastic Beach muitas características do projeto foram exacerbadas, positivamente exacerbadas. Logo nos primeiros minutos se percebe a reiteração do jogo de metalinguagem que caracteriza o grupo, precisamente quando Snoop Dogg canta “The revolution will be televised”, invertendo a fórmula incendiária de Gil Scott-Heron. Se a capa e o título já indicam a continuidade das inclinações cartunescas de Albarn e Hewlett, aos pouco vamos percebendo que desta vez o próprio artificialismo foi alçado a tema central. Sim, Plastic Beach é um disco conceitual, que trabalha os limites da representação de forma mais concreta e variada que nos dois primeiros discos. A quantidade prodigiosa de participações (Mark Smith, Lou Reed, Snoop, Hypnotic Brass Band, De La Soul, etc), indicam um equilíbrio curioso entre o aspecto comercial de banda “inventada” (“pop”…), o que depois do Milli Vanili ficou meio mal visto, e a qualidade de alguns momentos que levam a crer que se trata de “música séria” – sobretudo em ótimas faixas como “White Flag”, que conta com nomes da cena grime, Bashy e Kano, e da National Orchestra of Arabic Music, e o hit “Stylo”, de onde irrompe a linda voz de Bobby Womack e do quase membro Mos Def. Guardadas as devidas proporções, Plastic Beach é uma espécie de The Who Sell Out do século XXI, é até semelhante em termos de sonoridade, como em “Superstar Jellyfish”. Os arranjos são tão “artificiais” quanto o tema do álbum pede, misturando de tudo um pouco como num supermercado, mas conservando uma preferência por timbres eletrônicos e beats dançantes que lembram bastante o rap e o tecnopop dos anos 80. Lá pelo final, o disco desanda, pois, como chamei atenção no início, o trabalho depende muito do talento de Albarn para criar as canções. Às vezes este talento dá em água, e aí o disco toma o rumo do vazio, como na dobradinha ultrapop “On Melancholly Hill” e “Broken”, duas faixas “ralinhas” que ainda por cima vem em sequência… Mas o resultado geral de Plastic Beach é satisfatório e, como seus autores parecem desejar, saboroso e divertido. Ao menos alia, sem grandes esforços, dois aspectos que o gênio de Carlinhos Brown infelizmente opõe, é obrigado a opor, cedendo à impaciência diante da pequenez da imprensa brasileira. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 7 de abril de 2010 por em hip-hop, pop, rock e marcado , , , , , , , .
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