Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Breakage – Foundation (2010; Digital Soundboy, Reino Unido)

Breakage é o projeto do produtor James Boyle, nascido em 1982 em Slough, cidade 35km a oeste de Londres. Seu primeiro lançamento é o EP Numbers, de 2001. Conta com cerca de 30 EPs e singles de 12”, em gravadoras como Reinforced, Bassbin, Scientific Wax e Digital Soundboy. Desde o começo estabeleceu-se na cena londrina como produtor de drum’n’bass, mas recentemente abriu o leque para outras manifestações de música eletrônica inglesa, em especial o dubstep. Seu primeiro álbum é This Too Shall Pass (Bassbin), de 2006. Foundation, lançado em março, é seu segundo álbum. (RG)

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Finalmente chegou! Você, admirador de dubstep que estava temendo aterrorizado pela housificação generalizada da música eletrônica inglesa representada pelo boom de funky (ou UKF) que se apoderou até de Kode9 e de sua prestigiada gravadora, a Hyperdub; você, que sentia a falta daquela precisão suingante de aliar subgraves poderosíssimos a hábeis ritmos 2-step; você também, fã de Margins Music e London Zoo, discos que encompassam toda (ou ao menos boa parte) da gama de sonoridades do underground eletrônico que envolve subgraves num conjunto coeso e coerente: não tenham dúvida, esse é o disco de todos vocês. Foundation, com seu suntuoso preciosismo técnico e sua pegada vindos direto do quase morto mundo do drum’n’bass, dão uma injeção de sangue novo no algo estagnado cenário do dubstep que já há uma dezena de meses não vê outra saída além de “tribalizar” seus sons com os padrões percussivos exotizantes do funky. Em Foundation o objetivo não é fazer charme; é fazer pressão.

Comecemos falando de “Open Up”, petardo que abre o disco em pleno esplendor. É uma faixa que tem a simplicidade originária de obras-primas como “Lean Forward” do Mala ou o remix de Kode9 para “Find My Way”, do Massive Music, só que passada por um trato escultural à Dave Huismans (vulgo 2562) para lapidá-la em elegância e senso de espacialidade. É coisa de desde já propor como uma das melhores faixas do ano. Passa o interlúdio e logo vem “Hard”, um grime (raps dos Newham Generals) com produção soturna, pesada, em que a dinâmica entre o grave e os pratos frenéticos dá o diferencial. Logo após vem “Old Skool Ting”, um drum’n’bass particularmente quebrado no padrão de caixa e bumbo e cheio de ornamentos não-óbvios e variações de equalização que evitam qualquer sensação de mais do mesmo esperável de um ritmo já bastante desgastado e previsível. Mais à frente, um ragga poderoso cantado por Roots Manuva, “Run Em Out”, e uma pérola soturníssima chamada “Temper”, com um clima denso de profecia maligna que parece uma mistura de Tricky com as faixas de Shackleton cantadas por Vengeance Tenfold (“Death Is Not Final”, “The Rope Tightens”) e a parede de graves do King Midas Sound de Waiting For You. Até aí, é um disco perfeito.

O grande problema de Foundation são três faixas que aparecem na segunda parte do disco, “Over”, “Justified” e “Speechless”. Todas cantadas com inflexão r&b/soul, com refrão e tudo. São canções compostas sem grande relevo, com refrões que não provocam efeito catártico quando se vê que foram feitas para isso e que, pior de tudo, parecem ter sido arranjadas como faixas instrumentais em que tem uma voz cantando por cima. Tranquilamente, sozinhas essas faixas balançam a vibração e a excelência de Foundation. Ao menos, a segunda parte também apresenta algumas pérolas, como “Vial”, faixa com participação de Burial nos vocais e na composição – e mais uma vez preenchendo a impessoalidade do dubstep mais voltado para a pista com sua carnalidade fantasmática, se é que isso é possível –, “Foundation”, mais um drum’n’basszão de andamento alucinante e ecos infinitos, e “If”, fechando o disco em modo etéreo.

Há discos que são grandes por sua absoluta coesão. Foundation não é assim. No entanto, considero Foundation um grande disco pela incrível coerência do todo construída ao nível da produção, fazendo a audição variar profundamente de atmosferas sem entrar numa salada louca (algo que não pode ser dito totalmente de Triangulation, do Scuba, em todo caso um bom disco também), e sobretudo por uma meia-dúzia de canções totalmente deslumbrantes que seriam orgulho de qualquer produtor ou ouvinte que admira a ciência dos graves. (Ruy Gardnier)

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Tudo o que foi produzido nestes últimos quinze anos na música eletrônica inglesa, particularmente concentrada nos breaks e nos graves robustos e altíssimos, possui um representante em Foundation. Quer The Bug? Tem “Run’em Out”, com participação de Roots Manuva; quer Roni Size, Krust e todo o pessoal da Full Cycle, com seu drum and bass repleto de graves e percussões agitadas? Tem o interlúdio “Digiboy Radio”. Quer a idiossincrasia de Goldie e dos Metalheadz? Tem “Old Skool Thing”. Quer o dubstep de 2562, Kode 9 e Burial, o grime de Dizzee Rascal, com toda a virulência e esperteza rítmica deste gênero que sacudiu esta mesma eletrônica inglesa? Tem a rodo, à torto e a direito.

Alguém poderia dizer: ah, mas então esse cara é um embuste, no máximo um espertalhão que conhece a história e domina a linguagem, manipulando-a de foma desonesta e tirando proveito para si próprio. Ou, de forma mais suave, poderiam dizer que este disco é até legal, mas não traz nada de novo. Ambas as opiniões teriam a seu favor o fato curioso de que o álbum ostenta o nome Foundation, porque parece pretensioso, à primeira vista. Mas, em primeiro lugar, não se trata de homenagem. Breakage possui o raro talento de conferir uma energia autêntica a cada uma dessas faixas, às vezes fazendo jus a própria influência, às vezes extrapolando-a. Não é raro neste álbum nos deparamos com uma faixa que nos lembre vivamente um artista que gostamos, percebendo no entanto que a faixa parece ainda melhor e mais interessante. Talvez seja por este motivo que Breakage, junto com Four Tet, Yellow Swans, Chicago Underground e Eleh, não saem da “vitrola” lá de casa.

E digo mais: nestas correntes, Breakage vem se destacando nitidamente dos outros, talvez porque a matéria com que ele trabalha seja mais “reconhecível” e assimilada, sem dúvida, mas mais ainda porque ele consegue reforçar qualidades, atribuir valores, enriquecer a música através de um curioso método de trabalho que consite em valorizar só o que é mais importante. Como exemplo desse “minimalismo” elementar, sugiro a audição das três primeiras faixas, que exemplificam perfeitamente o método de Breakage: batidas exatas, sons rascantes, situados de forma inusitada, mas ao mesmo tempo precisa. Citações diretas e divertidíssimas de características comuns aos gêneros trabalhados agregam mais emoção às faixas, como o interlúdio inicial a respeito da hardcore music, recitado com aquele sotaque jamaicano que já é bastante musical por si só. Resultado final: um disco vigoroso e criativo, que pode parecer um balancete do que se produziu de melhor na sua seara, mas que no fundo anuncia o despontar da música eletrônica da segunda década do século XXI. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 14 de abril de 2010 por em eletrônica e marcado , , , , , , .
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