Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Eleh – Location Momentum (2010; Touch, Reino Unido)

Eleh é um projeto de música eletroacústica que mantém completo segredo a respeito da(s) identidade(s) do(s) artista(s). A discografia do Eleh começou em 2006, com o vinil Floating Frequencies/Intuitive Synthesis I, lançado em 400 exemplares pela Important. Entre 2007 e 2009 o projeto lançou mais dez discos, pelas gravadoras Important, Taiga e Touch, alguns em formato split com Pauline Oliveros, Sun Circle e Nana April Jun. O único dado objetivo a respeito do grupo está no site da Important: “O Eleh foi criado especificamente para prestar homenagem a compositores minimalistas pioneiros como LaMonte Young, Terry Riley, Eliane Radigue, Pauline Oliveros e Charlemagne Palestine”, e que as peças são feitas com um sintetizador analógico enorme e com osciladores. Location Momentum é o primeiro álbum do Eleh lançado em CD. (RG)

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Para além da aura de mistério que circunda os lançamentos do grupo, em edições limitadíssimas em vinis de 200g, e do total segredo quanto à identidade de seus conceptores, a própria música do Eleh já é uma enorme fonte de interrogação. Ela é inteiramente composta de encontros de texturas e frequências, e sua extrema repetição com pulsos ou sinais contínuos é um convite a estados de transe ou viagens metalisérgicas de desorientação espaço-temporal. Mais ainda, ela espanta pela incrível austeridade na escolha dos elementos e na seleção das variações que acontecerão ao longo da duração e pelo trabalho com os tons puros que parece nos transportar, uma vez envolvidos, a um metro do chão. Mas o que mais impressiona – e aí sim o que diferencia o trabalho do Eleh de suas fontes inspiradoras no trato com os sintetizadores analógicos – é o insistente e colossal trabalho operado com frequências graves e subgraves, que em níveis de volume alto ocasionam uma experiência tão física, táctil, quanto auditiva, e que provocam no ouvinte uma sensação absolutamente paradoxal de estar entre o transe e o confrontativo. Dá pra ver que a coisa não é mole.

Para fins de simplificação, o efeito é um pouco como uma versão dub de Acid in the Style of David Tudor, de Florian Hecker: mesmo choque de sons que “não são música” ordenados de forma espantosa e sem previsibilidade, mesmo tipo de choque entre grave e agudo, menos os efeitos de estéreo, mais o pujante trabalho com as baixas frequências que dá a aparência “dubby” ao som do Eleh. Em comum, a percepção é que são duas experiências sonoras absolutamente arrebatadoras que deixam o ouvinte abismado primeiro pelo estranhamento, e segundo pela minuciosa lógica de pesquisa e composição exposta no resultado final, de uma perfeição tão brutal quanto extravagante.

“Heleneleh” é das cinco faixas do disco aquela que apresenta menos variações perceptíveis e contrastes violentos. É quase um mantra em ondas de baixa frequência que se sobrepõem ou se excluem em nossos ouvidos, causando a percepção de um único drone denso com microvariações de pulso e textura, até que dá a louca no final e somos pegos de surpresa por intervenções que quebram o contínuo que se estabelecia até aí. “Linear To Circular/Vertical Axis” é uma faixa curta que mostra sons sendo tragados; o efeito mental que se constrói é de buracos negros de som em replay de câmera lenta. O disco atinge o auge nas faixas 3 e 4: “Circle One: Summer Transience” trabalha o contraste entre um drone de frequência extremamente alta, estridente, e pulsos de subgrave que parecem pisadas apressadas de gigantes, até que lá pelo meio da faixa chiados e outros sonzinhos vêm encher o “arranjo”, e a sensação é a de uma música industrial (de Throbbing Gristle a Alva Noto) que é ao mesmo tempo absolutamente celestial; “Observation Wheel”, por sua vez, soa como um inferno tortuoso de drones doom e glitch generalizado, com chiados insistentes, estalos e pulsos de subgrave que parecem ondas de feedback, pairando entre Pan Sonic e o Kevin Drumm da fase drone. “Rotational Change For Windmill” fecha o disco sendo a faixa de maior variação, começando com um pulso acutíssimo que começa acelerado e vai desacelerando ao passo que um drone de grave vai alterando texturas; em dado momento a frequência aguda some de vista e temos um banho de grave que passa a ser acompanhado por chiados crescentes, até que ao final da faixa irrompem graves que parecem urros de animais em modulação sempre distinta, engolindo aos poucos o resto dos sons. Volta-se ao modo “buraco negro” da faixa 2. Fim.

Depois que a gente ouve e digere Location Momentum, a aura de mistério que ronda a entidade Eleh pouco importa. Diante desse objeto inqualificável, ao mesmo tempo doce e violento, metódico e selvagem, psicodélico e travado, reunindo tanta coisa autoexcludente – noise, música de meditação, música eletroacústica, drone, Alva Noto, Eliane Radigue –, claro está que nada será mais assombroso e envolto em mistério do que a música concebida pelo Eleh. E Location Momentum é fácil uma das coisas mais brilhantes e distintas sendo feitas hoje em dia. (Ruy Gardnier)

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1. Minimalismo, anonimato, silêncio, tecnologia, drones, esculturas e paisagens sonoras: elementos próprios a um trabalho desenvolvido na seara da música eletrônica contemporânea em suas mais diversas vertentes, mas que recebem um tratamento extremamente idiossincrático no projeto Eleh, capitaneado por um ou mais indíviduos misteriosos, homens ou mulheres, que, segundo consta, “preferem que os álbuns falem por eles mesmos”. A curva que leva dos discos de vinil até o lançamento do primeiro CD, Location Momentum, exibe alterações de rumo frente aos inaugurais Floanting Frequencies, série caracterizada por sutis extrações e manipulações prolongadas de espessas camadas de sinais senoidais. Aos poucos a densidade foi cedendo lugar a uma exploração maior não só de nuances e texturas, mas também de aspectos rítmicos, sobretudo nas modulações acidentadas de Retreat e Return, ambos de 2009. Não que o autor trocasse uma inflexão por outra, mas, a julgar por Homage to The Sine Wave, lançado em 2009, essas vertentes passaram a coexistir em seu trabalho.

2. Portanto, a primeira observação a ser feita em relação a Location Momentum é a de que o álbum me parece uma espécie de síntese de seu trabalho até então, um recenseamento das características mais fortes e perceptíveis, entre uma “fase” mais direta, na qual o volume importava mais que a textura, e um segundo momento prenhe de uma linguagem mais diversificada, que podemos situar entre os trabalhos recentes na área do drone, do noise e a inflexão fragmentária pós-Raster Noton presente nos últimos discos de Monolake e Paul Baran.

3. Trata-se de uma obra pensada a partir do resultado de determinadas pesquisas, o que nos permitiria precisar os passos e elementos desta curva, bastando elencá-las uma a uma.  Porém, este procedimento permenecerá insuficiente se não situarmos a grandeza de Location Momentum dentro de seu significado mais abrangente, o que por um viés contraditório se exprime através de uma personalidade musical incomum, que planeja acuradamente sua sonoridade no mesmo passo que persegue o anonimato – de tal forma que não o conhece até mesmo os responsáveis pelos selos através dos quais lança seus álbuns… Uma personalidade forte que se opõe ao “culto da personalidade”…

4. Digo isso porque o que faz com que o primeiro CD do Eleh seja, desde já, uma dos mais intrigantes lançamentos desse ano na seara do eletrônico, é justamente esta combinação entre dois caminhos, dois formatos, que se entrelaçam em uma unidade ambígua. Poderíamos considerar primeiramente o isolamento, isto é, de como uma precaução em relação ao oba-oba mercadológico cria um contexto monástico onde, à moda de Hecker, se desenrolam as mais inusitadas relações sonoras; por outro lado, poderíamos sublinhar a imensa generosidade, a visão comunitária que agracia o ouvinte através de um cuidado, de uma forma bastante peculiar de entrega. Entrega esta que Eleh espera do mesmo ouvinte, desafiando-o em cada passo, conduzindo-o para o interior de uma força expressiva ao mesmo tempo bruta (os sinais) e sofisticada (sua manipulação).

5. A primeira faixa, “HeleneleH”, pode ser identificada com os primeiros elepês e com as “homenagens” de 2008 e 2009. A emoção que esta faixa aparentemente sem emoção evoca, advém das passagens de uma frequência a outra, nas quais se altera o “tom” do sinal, e também se demonstra um verdadeiro domínio do tempo em que essas mudanças ocorrem. No fim, as mudanças se aceleram, se tornam mais radicais. Mas não tão radicais quanto os rompantes de “Linear To Circular / Vertical Axis”, a faixa mais curta do álbum, e até por isso a mais concentrada em termos de alterações abruptas. “Circle One: Summer Transcience”, faixa que considero a mais interessante, também opera por rompantes, diluídos porém em seus pouco mais de treze minutos, mais econômicos e menos abruptos, sobrepondo o ritmo marcado, semelhante ao tic toc do relógio, com o fio sonoro, hiper agudo, que percorre toda faixa, eventuamente entrecortado por sons semelhantes a um aerosol. Lá pelo oitavo minuto, o ritmo cessa e, adiante, uma nuvem noise cobre toda a faixa por alguns segundos, para finalizar novamente com o agudíssimo apito. As duas últimas faixas, “Observation Wheel” e “Rotational Change For Windmill”, já começam se utilizando de uma prerrogativa noise mais pronunciada, e se pode até dizer que são as que mais acrescentam ao repertório de Eleh. Dois exemplares do que há de mais acidentado e rascante no drone atual.

6. Podemos tentar compreender o trabalho de Eleh de um ponto de vista “histórico”, mostrando por á mais bê que Location Momentum representa a culminância de um processo, ou pelo menos um acabamento parcial, momentâneo. Me parece uma solução legítima, mas digamos que o ouvinte não se rendesse a este procedimento e buscasse na obra mesma sua força e vitalidade singulares. Neste caso, imagino, ele seria tomado por um espanto, por uma sorte de encantamento e estranheza que, em primeiro lugar, ressaltaria a maturidade do trabalho, e depois, os estranhos estados mentais que ele evoca, mas também o odor de hospital e laboratório que pesa sobre cada faixa. Peso na concepção, frescor no resultado geral, mas sobretudo, criação de uma sonoridade letárgica, minimalista e, ainda assim, surpeendentemente vivaz. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 14 de abril de 2010 por em eletroacústica, experimental e marcado , , .
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