Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Ao Vivo: The Specials (15/04/2010, Nokia Club, Los Angeles)

“Right to play”: a frase inscrita na camiseta de Neville Staple, um dos vocalistas dos Specials, trazia embutida uma pergunta corriqueira, feita geralmente pelos mais céticos em relação à revoada de ressurreições que ocorreram nos últimos dez, quinze anos. “Right to play?” Really?

Justa desconfiança, que o próprio John Lyndon se encarregou de sublinhar com a desastrosa turnê dos Sex Pistols, batizada ironicamente “Filthy Lucre”. Cada caso é um caso, porém. Por mais que desconfie destes revivais, quando imaginei poder assistir Terry Hall e Staples juntos novamente, pulando e gritando a letra de “Monkey Man”? A resposta é: nunca. Se por um lado é inegável que esses retornos, dependendo da banda, se amparam somente nos feitos do passado, por outro admito que em alguns casos o resultado pode ser matador.

E foi com o espírito crítico desarmado que assisti ao show dos Specials, como parte da turnê de 30 anos de carreira. Turnê comemorativa, sem maiores pretensões, que se justifica no calor do palco, no modo preciso com que executam as faixas de seus dois primeiros álbuns e, sobretudo, na ironia desbragadamente divertida com que conduzem o espetáculo. “Vocês não eram nascidos quando lançamos o primeiro álbum”, brinca o guitarrista Lynval Golding com a turba alucinada composta por pais e filhos, adolescentes moicanos e coroas “mod”, punks e rastafaris. Não há novidades nem releituras, cada faixa é executada ipsis litteris, exatamente como deseja a platéia. Da introdução emocionante com “Enjoy Yourself”, passando pela sequência inicial (“Do the Dog”, “(Dawning of A) New Era” e “Gangsters”) até o fim com a versão mais agitada da mesma “Enjoy Yourself”, o clima foi de alegria plena e, às vezes, excessiva, com brigas e confusões pipocando aqui e ali. Esta agitação é mais que compreensível, diante da balbúrdia que o grupo, apesar da idade, ainda promove.

Convocar o público a bater palmas cantando o refrão é um cliché difícil de engolir, ainda mais vindo de uma banda que representou a ideologia “two tone”, encarnando conflitos e aspirações políticas do período pré-Tatcher. Mas este artifício batido faz todo o sentido quando a banda entoa o líbelo anti-racista “Doesn’t make it alright”, fazendo jogo de cena com os versos da canção (“Just because you’re a black boy/Just because you’re a white/ It doesn’t mean you’ve got to hate him / It doesn’t mean you’ve got to fight”). Talvez mais uma ironia, talvez apenas um protesto como os que marcaram a carreira do grupo. Mas que de qualquer forma causou estranheza e, até certo ponto, emoção. Parecia de fato que o ingleses, com sua arrogância quase natural, se dispuseram a dar lições de convivência aos seus brothers americanos, uma justa lição. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 16 de abril de 2010 por em ao vivo, Ska e marcado , .
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