Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Ao Vivo: Flying Lotus (17/04/2010, Coachella, Indio)

“Ignorance is bliss”, diz o ditado. Se soubesse o que aconteceria quando Flying Lotus subisse ao palco do Gobi Stage, dificilmente escreveria as linhas abaixo, muito menos teria me divertido e me emocionado tanto com a música deste jovem produtor e “laptop musician” de Winnetka, distrito de Los Angeles. Los Angeles é a cidade, é o contexto cultural, habitat de cerca de treze milhões de pessoas, de onde surgiu nomes fundamentais da música popular do século XX. A cidade goza hoje de uma bem delineada emancipação em relação à cena americana, em boa parte por contribuir com uma espantosa diversidade de afluentes deste grande rio chamado Hip Hop. Desde o funk’o metal do Fishbone e do Red Hot Chili Peppers até a descontrução operada por Madlib no fim dos anos 90, a música de Los Angeles reflete as vibrações, a agitação, o caldo cultural, os diversos nichos, enfim, toda a diversidade da cidade. Filho dileto, Flying Lotus, apelidado FlyLo, representa a força da música experimental de Los Angeles, particularmente vinculada ao Hip Hop. E eu uso a palavra “força” porque apesar de investir em batidas quebradas, clicks confusos e estranhos, além dos graves tenebrosos, a música de FlyLo possui uma aderência incrível em relação ao público do Coachella, composto em boa parte por habitantes de Los Angeles e arredores.

Quando ele entra e começa a manipular seus apetrechos eletrônicos com suingue matador, como quem bate um set de tambores, percebo que além de experimentador, Lotus possui um talento como performer. Ele se abaixa, dança, levanta os braços, chama o público, não pára um segundo enquanto abre e fecha canais, aplica efeitos e recria cada uma de suas faixas como se fossem absolutamente novas. Nada é tocado como no disco. De “Parisian goldfish”, por exemplo, um de seus hits, só ouvimos a virada de bateria; já de “Melt” ele retira a bateria e inclui um contrabaixo gravíssimo, quase distorcido. Cita “Machine Gun” do Portishead, depois “Idioteque” do Radiohead e encerra com “Clock Catcher”, faixa de seu novo álbum, Cosmogramma, mas apenas retirando a parte e inicial para criar outra música. A reação da platéia leva a crer que esta música tem uma representatividade popular autêntica, que não é experimentação laboratorial, mas plenamente sintonizada com a cidade e sua dinâmica. Nesse redemoinho de samplers e sons, a música de FlyLo, se afirma como parte viva do espírito contemporâneo de Los Angeles. Vê-lo se apresentando aqui, plenamente conectado com os seus, é uma experiência surpreendente e fascinante. (Bernardo Oliveira)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 18 de abril de 2010 por em ao vivo, eletrônica, hip-hop e marcado , .
%d blogueiros gostam disto: