Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Growing – Pumps! (2010; Vice Records, EUA)

Trio de música eletrônica experimental oriundo de Washington, mas situado hoje no Brooklyn, em NY. Composto por Joe DeNardo, Kevin Doria e Sadie Laska, desde 2002 o Growing está na ativa, já tendo lançado uma dúzia de álbuns, dezenas de cassetes, e realizado parcerias com Mark Van Burden, entre outros. Pumps! é o sétimo álbum do grupo. (Bernardo Oliveira)

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Diante da aparente filiação à linhagem de Gang Gang Dance é, sobretudo, Black Dice, gostaria de elencar aqui alguns elementos que justificam a indicacão deste saboroso Pumps!, último álbum do trio de Nova Iorque Growing. Primeiramente, não se trata exatamente de uma simples filiação: o Growing está na área já há algum tempo, produzindo música eletrônica experimental com alguma personalidade. Do percurso que vai do primeiro álbum de carreira, The Sky’s Run Into The Sea, seguindo pela série de cassetes ao vivo que o grupo lançou sem pretensões comerciais, mas que trazem versões bem diferentes e músicas inéditas, até este álbum, são diversas as faixas que permitem considerar o Growing como um grupo que trabalha experimentando os efeitos de uma forma peculiar, tanto sobre a percussão como por todos os outros elementos. Exemplo disso é a faixa que abre Pumps!, “Short Cirtcuit”: batidão descompassado, sinuoso, desenhado com timbres ásperos, corrosivos. Mas o barato da faixa está no interessantíssimo jogo de vozes em delay que se entrelaçam formando quase uma composição dentro da composição.

Devemos considerar também o trabalho com ritmos que o grupo empreende, sempre buscando criar barulhinhos e melodias que se integram ao ritmo, mesmo quando dialogam com o batidão dançante, como em “Mind Eraser” e em uma das melhores faixas do disco, “Hormone”. Esta última vale a pena prestar atenção na utilização de sons de telefone e aquela buzina que o Tom Tom Club usa na clássica “Genius of Love”, mas todos esses elementos empregados de forma percussiva, compondo com os baticuns propriamente percussivos.

Mas aquilo que mais me chamou a atenção no Growing é que, ao contrário do Black Dice, eles desenvolvem uma linguagem quase de video game, lúdica, imprecisa, mas ao mesmo tempo, cultivando estranhas melodias, como em “Massive Dropout”, uma faixa que, como a primeira, trabalha muito com vozes, mas desta vez é a melodia que sobressai. “Camera ’84”, por exemplo, poderia ser perfeitamente utilizada num jogo de videogame, tamanha a simpatia, por vezes maçante, que destila. Maçante, sim, porque a música do videogame deve, em primeiro lugar, inebriar pela repetição massiva de seus temas. Quem já jogou Mario Bros. e não lembra das músicas de cor, levante a mão. Não é o meu caso.

Entre a inflexão lúdica e a experimentação parcimoniosa se desenvolve o trabalho do Growing, é se não o enfocarmos adequadamente, isto é, se somente nos dispusermos a compará-lo com os grupos que simplesmente parecem com ele, redundaremos na… comparação. E isso não para salvá-los, mas para, como eu, usufruir o álbum a partir daquilo que ele tem para dar. (Bernardo Oliveira)

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“Short Circuit”, o cartão de visitas, faz Pumps! começar promissor. A faixa trabalha com os barulhos-como-batidas do Black Dice, rico em variações, com glitches, esguichos de sintetizador, inserções de voz e pesadíssimas patadas de subgrave. A intensa pegada rítmica, o clima psicodélico e os efeitos de colagem certamente lembram a poderosíssima “Roll Up” do Black Dice, ou ao menos uma “Roll Up” passada pelo suíngue pós-punk de um Gang Gang Dance. Grande faixa. Infelizmente, nada a seguir chegará aos pés de “Short Circuit”, apesar da esmerada tentativa de “Camera ’84”, que também se apoia no poder dos subgraves. No geral, a impressão deixada por Pumps! é que o Growing adora as faixas do Black Dice mais voltada a ritmos fixos, quase dançantes, e injeta flertes de kraut no pulso repetitivo e nas variações. O que pode dar até como resultado uma audição agradável e uma sensação de coesão na audição do álbum, que até cresce nas audições subsequentes. Mas, no fundo, acaba não importando muito. Fica claro que não é um grupo que já chegou a encontrar totalmente sua voz, sua identidade madura que lhe daria um som distintivo e imponente. Não encontrando esse tipo de chamado, o Growing faz aqui um saudável exercício utilizando o repertório (tanto de sons quanto de ideias) alheio, mas que por sua vez revela uma algo preocupante falta de ambições. Em todo caso, a observação de que a cada disco eles tentam coisas novas é instigante: quem sabe nos futuros trabalhos eles de fato consigam sair da muito clara esfera de influências e desenvolver um trabalho mais sólido. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 21 de abril de 2010 por em eletrônica e marcado .
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