Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Zeitkratzer – Old School: John Cage (2010; Zeitkratzer/Broken Silence, Alemanha)

Alternando as funções de associação artística sem fins lucrativos e ensemble de repertório contemporâneo, o Zeitkratzer foi fundado dentro do Podewil Center for Contemporary Arts em 1997 pelo alemão Reinhold Friedl, mas conta com artistas de toda a Europa. O Zeitkratzer já tocou com milhares de nomes signficativos da música contemporânea, entre os quais Karlheinz Stockhausen, Lou Reed, Carsten Nicolai, John Cage, Keiji Haino, Jim O’Rourke, La Monte Young e Merzbow, para citar alguns. Além de se constituir como uma cooperativa auto-sustentável, o grupo inaugurou também um selo por onde lança seus trabalhos. John Cage e James Tenney são os primeiros nomes da série Old School, o primeiro gravado em 2006 no Huddersfield Contemporary Music Festival em Londres. (B.O.)

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Passei boa parte da adolescência lendo nos grandes clássicos da teoria da comunicação e arredores a respeito de uma característica peculiar de nossa época, qual seja: a indiscernibilidade entre o universo erudito e popular. De um lado,  a “alta cultura”, o highbrow, um universo intrincado, um sistema de referências paralelas e complementares fundada sobre bases humanistas claras e distintas. De outro, a “cultura”, o folclore e, finalmente incorporado às necessidades e dinâmicas da cidade industrializada, a cultura de massas, algo que para muitos pode ser considerado um reflexo da pós-modernidade, da pós-humanidade, ou por sei lá quantas outras denominações absurdas. Pois bem, segundo esses livros, em algum momento da história essas duas esferas foram como que fundidas, variando o diagnóstico conforme as orientações e o gosto do autor. Para Augusto de Campos, qua abraçou por inteiro o “medium is the message” de McLuhan, a questão estava centralizada no procedimento com o qual o artista operaria os significantes, nos casos mais evidentes em relação à expressão sonora. O Tropicalismo de Duprat, mas também o Mothers of Invention e Varèse constituiriam exemplos onde canção popular e arranjos eruditos (ou vice-versa) seriam apresentados em conjunto, em um só e mesmo patamar. A bem da verdade, essa realidade problemática não possui assim tantos exemplos, e muitas vezes não passa de flerte. Não se trata de questionar o diagnóstico, ele é pertinente. Mas até que ponto, de fato, essas fronteiras foram borradas?

Um dos grandes responsáveis por esse contexto foi John Cage, não é novidade para ninguém. Junto com outros nomes como Pound, Benjamin, Duchamp, Burroughs, Deleuze, etc, eles projetaram um universo maquínico em franca expansão, uma sorte poética determinante para o que pensaremos no século XXI, pelo menos em termos de especulação artística e filosófica (há a neurociência…). Suas Number Pieces não só constituem um exemplo fundamental do caráter aberto e da música de procedimentos, como destaca a aleatoriedade como possibilidade “semântica”, tanto que passou a ser utilizada, de uma forma ou de outra, por artistas ligados a improvisação, no jazz e no rock. O título das faixas indica o número de indivíduos que devem executá-la, e o procedimento utilizado permite ao intérprete optar pela forma de expressão, muitas vezes imputando-lhe a escolha dos instrumentos a serem utilizados. A única restrição que as Number Pieces trazem são indicações de tempo que vem entre parênteses, numa técnica denominada “bracket technique”. Em uma dos mais brilhantes trabalhos da série SYR, o Sonic Youth se arriscou na interpretação de “Four(6)”, no qual cada um dos quatro instrumentistas escolhem doze sons a seu critério e opera por indicações de tempo flexíveis. São formas mais ou menos vazias, para que o próprio músico preencha a seu critério. O resultado me pareceu excepcional, pois se há uma banda que sabe lidar com timbres, chama-se Sonic Youth. “Four(6)” também foi executada pelo Zeitkratzer em sua recente homenagem a John Cage, por parte da série intitulada ironicamente “Old School”, juntamente com outra Number Piece chamada “Five” e uma composição de 1986, “Hymnkus”. E o resultado tem tudo a ver com nosso assunto, pois trata-se de um exemplo contundente de como os diálogos entre cultura erudita e popular de fato desaparecem em algumas (poucas) expresssões musicais.

A interpretação de “Four(6)” na ótica do Zeitkratzer, ensemble que já interpretou Xenakis (é bom lembrar…), consegue ser ao mesmo tempo mais suja, mais heterogênea e também mais vigorosa que a do Sonic Youth. É claro que se trata de retalhos e sujeiras bem diferentes, já que o Sonic Youth emprega até mesmo um trecho de “Wheels of Confusion” do Black Sabbath. Tem, por assim dizer, um recorte mais histórico, ligado à estética de colagem e excesso de informação embutida na elaboração do No Wave. Mas, se é verdade o que escreve Alex Ross em seu célebre “The Rest is Noise”, embora o o ponto de partida da composição de vanguarda se concentre nos aspectos formais embutido no “Quatuor pour la Fin du Temps”, de Messiaen, é na cruzada pela violência, o excesso, a feiúra, pela impureza como elementos transformadores da vida que esta mesma vanguarda adquire relevância de fato. A forma passa a ser secundária em relação à atitude, o que denota de fato a introjeção de aspectos da música popular, pelo menos no que diz respeito ao jazz e ao rock. E nesse sentido, em sendo “Four(6)” uma obra plenamente aberta à interpretação, quero dizer, deliberadamente dada à interpretação, o que se ouve em Old School é ao mesmo tempo ousado e assustador. Tem ao mesmo tempo o aspecto “clássico” das obras de Schoeberg e Alban Berg, timbradas por grandes intérpretes como os do quarteto Arditti, mas conserva a aparência de improvisação eletrônica e colagem das obras do pós-guerra. O que mais admira na interpretação do Zeitkratzer é como eles não tem medo de errar, optando por escolher sons que facilmente serão pré-julgados por gente da música erudita e da experimentação eletrônica, como barulhos de máquinas combinados a instrumentação orquestral. O mesmo se pode dizer de “Five”, outra Number Piece que tem por característica uma série de acordes sonoros prolongados entremeados por longas pausas silenciosas. Aqui, a interpretação do Zeitkratzer também se arrisca em referências diretas ao universo timbrístico do eletrônico, particularmente quando ouvimos as vibrações elétricas de um amplificador prestes a emitir uma microfonia compondo um acorde com um oboé. O resultado é brilhante, mas igualmente estranho em relação ao universo de interpretações de John Cage, incluindo ai a contundente versão executada pelo Leipziger Streichquartett. “Hymnkus“, composta em 86, também se orienta pela utlização dos parênteses, abrindo caminho para a aleatoriedade da execução e explicitando ainda mais as intenções do Zeitkratzer, que é a de iluminar e revigorar a interpretação de Cage no âmbito do eletrônico, ele que vem sendo mais homenageado pelos populares que pelos “eruditos”.

Há uns meses atrás, me referi na Camarilha ao que batizei como “música de procedimentos”. É esta, me parece, a característica mais evidente de que há uma comunhão de propósitos, técnicas e até mesmo resultados em relação aos universos erudito e popular, não obstante o fato de que ainda se conserva esta divisão quase intacta. O que me parece é que há sim aspectos musicais onde a comunhão é evidente, mas ambas as esferas também possuem seus representantes, seus obstinados artesãos. Há uma simultaneidade de contextos, o que não desautoriza os profetas da teoria da comunicação, pelo contrário. É justamente a percepção de um oba oba saudável, quando muito consideram o oba oba como algo necessariamente negativo. “But that’s not me”, como diria a canção: de minha parte aprecio grandes celebradores do oba oba como Diplo, Charlemagne Palestine, Pauline Oliveros e o Zeitkratzer. Podem achar estranho empregar uma expressão que designa um sentimento prejudicial de desorientação e inexequibilidade, mas podemos situar o oba oba também como uma bem-vinda disposição para experimentar o que quer que seja, em qualquer tempo ou contexto. Neste sentido, o oba oba formal que tomou conta do mundo dos sons, e que se desenrola nas franjas do mercado bem como na sua periferia, é algo que me parece ao mesmo tempo desafiador e estimulante. (Bernardo Oliveira)

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Aos poucos, o Zeitkratzer monta para si uma reputação invejável. Invejável não somente pela abertura para não fazer diferença entre mundos (erudito, noise, composição, improvisação etc.), mas também por uma seleção de material a ser interpretado que é francamente ousada. Falo especialmente do trabalho de reinterpretação que o grupo fez de Metal Machine Music, disco de Lou Reed absolutamente mal-interpretado até hoje basicamente porque os costumeiros fãs de rock alternativo nunca prestaram muita atenção na vanguarda americana (LaMonte Young em particular) e creditaram o disco, certamente um precursor de muito da cena nosie que explodiria a partir dos anos 90, como um exercício abusivo de auto-indulgência. Hoje, depois que uma banda com o nome do Sonic Youth faz um disco como Goodbye 20th Century – interpretando diversos compositores experimentais vindos da tradição erudita como John Cage, Pauline Oliveros, Steve Reich, James Tenney – e alterna álbuns “pop” com álbuns de improvisação (a série SYR e Silver Sessions, especialmente), aqueles ouvintes de rock que apresentam um pendor para “gêneros” musicais mais ousados já tendem a prestar um pouco mais de atenção a obras musicais que não se prendem aos formatos mais familiares de composição. O Zeitkratzer, me parece, tem um pouco esse público em mente: um tipo de ouvinte que se atém primeiramente ao som, dando importância secundária (ou nenhuma) se o tipo de composição vem da tradição erudita ou contracultural, e que encara “rock” mais como uma postura diante do mundo (e consequentemente dos sons) do que como um tipo específico de composição e instrumentação. Não à toa, o Zeitkratzer seleciona em seus dois discos recentes, Old School: John Cage e Old School: James Tenney, duas peças que já faziam parte de Goodbye 20th Century: “Four(6)” e “Having Never Written a Note for Percussion” (a primeira de Cage, a segunda de Tenney). Esse tipo de escolha é sem dúvida um norte: não só eles constroem para si um centro de interesse que fornece uma identidade ao grupo (como já acontecera anteriormente com grupos como o Arditti Quartet e o Kronos Quartet, por exemplo) como também serve para angariar novos públicos alternativos vindos de outras trincheiras, seja o glitch, o noise ou o rock alternativo mais aventuroso.

Fechando os olhos, as duas primeiras faixas de Old School: John Cage parecem turbilhões de feedback justapostos. “Four(6)” e “Five” são duas faixas que não têm especificação de instrumentação e deixam muito espaço para a liberdade interpretativa dos músicos, e eles fazem seus instrumentos soar como drones vindos de maquinaria pesada em todos os registros, dos agudos estridentes aos graves robustos. As notas, mantidas por tempo excessivo, acabam flutuando em altura, e quando esses efeitos se justapõe, a impressão geral é a de um coral vindo das profundezas. Como não há progressão, a música existe na intensidade do presente, chamando atenção unicamente para a singularidade dos timbres em si e na correlação com os outros timbres. É música textural ao extremo, e os sons que os integrantes do Zeitkratzer conseguem tirar com seus instrumentos é de fazer empalidecer mesmo os droneiros mais respeitáveis., em distinção de timbre, em espacialidade e no trabalho com a duração de cada som (e com a interrelação deles). Se as duas primeiras peças parecem suspender o tempo, “Hymnkus” é o exato oposto. Ela parece uma loja de relógios em que os tiquetaques de inúmeros pêndulos são substituídos por notas musicais que se prolongam de variadas formas, indo do breve instante de ataque até a manutenção de poucos segundos.Se as duas primeiras obras privilegiam as texturas das notas mantidas por longo tempo, a terceira obedece a uma lógica puntilista e antirrepetitiva, extraindo da relação entre som e silêncio (de cada instrumento individualmente, porque silêncio geral não há) uma emoção quase angustiante, com alguns instrumentos obedecendo a ciclos relativamente estáveis e outros fazendo aparições repentinas que impedem qualquer assentamento da percepção em repetições previsíveis. Aqui, a aparência de repetição só existe para chamar a atenção para a flutuação de todo o conjunto.

O único senão que pode ser aventado a respeito do Zeitkratzer, argumentado neste texto aqui, é que o Zeitkratzer pode acabar fazendo como outros grupos e uniformizar sua música num característico som-Zeitkratzer que funcionaria independente do compositor que eles decidem interpretar. OK, é um perigo. Mas se eles são capazes de fazer uma música tão vibrante e densa quanto a apresentada neste Old School: John Cage, podemos ter certeza que ainda é cedo pra se preocupar. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 21 de abril de 2010 por em Contemporânea, experimental, vanguarda e marcado , , .
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