Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Ao Vivo: Burning Star Core (25/04/2010, Le Frak Gym [Barnard College], Nova Iorque)

Acredito piamente que todo show vale a pena, mesmo os protagonizados por artistas que não admiramos tanto. Esta crença já me fez cair em verdadeiras arapucas, como os respectivos shows de Hot Chip e Beach House. Foi com esse espírito desbravador que compareci a décima-sétima edição do WBAR-B-Q, evento musical-gastronômico que ocorre anualmente na Barnard College em Nova Iorque, e que reúniu bandas como Cold Cave (que perdi novamente), Blues Control, Liturgy e o projeto Burning Star Core, capitaneado pelo nipo-americano C. Spencer Yeh. Pois é, o BSC é um desses projetos que não admiro tanto, mas que tive curiosidade de assistir, primeiramente para ver como é a apresentação do ponto de vista técnico, mas também porque queria ouvir um barulhinho, isto é, uma experiência noise ao vivo. E posso dizer que não me arrependi.

Yeh se apresentou, não no palco principal, mas ao lado da mesa de som, nos fundos do Le Frak Gym, um ginásio polivalente aparatado para o evento. Sobre a mesa que lhe serviu de suporte, três ou quatro pedais de efeito, um 2 CD Mix Station, um violino e um microfone. Yeh iniciou o set com um prolongado acorde de violino, executado com o volume altíssimo, que aos poucos foi cedendo espaço para um jogo percussivo de graves que ele acionou no CD Mix Station. Alternando a execução do violino com toques esporádicos e precisos nos botões dos equipamentos, Yeh foi desenvolvendo aos poucos um crescendo noise composto pelos graves, cada vez mais volumosos, e o acorde do violino, culminando com uma barulheira que, por incrível que pareça, motivou efusivos aplausos dos pouco mais de cinquenta estudantes que se encontravam no local. Ele larga o violino e passa um tempo extraindo sonoridades agudíssimas dos aparelhos da mesa. Aos poucos vai chegando o microfone para perto da boca e comeca a grunhir de longe. Os sons que saem nada tem a ver com vozes, mas com “estilhaços” de vidro, aspecto que ele reforça mexendo em alguns botões dos pedais. De fato, sua habilidade com os equipamentos casa perfeitamente com a aura de cientista maluco reiterada pela cara fechada e por suas vestimentas simples, quase monásticas.

E assim, alternando manipulações e procedendo como se estivesse num laboratório de sons, Yeh vai construindo seu set, mais ou menos 50 minutos de variações de textura e instrumentação, tudo com alguma criatividade, mas sem brilhantismo. Como disse no início, não sou muito fã do BSC. Mas antes da música, o que mais me interessou no seu trabalho foi a logística da execução, de como a one-man-band é uma realidade plenamente ajustada às possibilidades técnicas, na qual cabe ao próprio artista elaborar seu set de equipamentos e seus próprios procedimentos. Se a sonoridade não é tão inovadora, ao menos Yeh é sintoma de algo maior, mais interessante que seu próprio trabalho. Cabe ao leitor julgar o estatuto desse contexto, pois para mim ele vale o ingresso. (Bernardo Oliveira)

Ps.: Pouca luz, sem flash, sem bateria = foto desfocada.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 27 de abril de 2010 por em ao vivo e marcado , .
%d blogueiros gostam disto: