Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

M.I.A. – “Born Free” (2010; N.E.E.T./Interscope, Reino Unido)

Relutei escrever este artigo, em parte temendo que a polêmica acerca do clipe pudesse contaminar sua recepção, em parte porque provavelmente a Camarilha resenhará o álbum. Mas a cada dia que passa, desde que ouvi “Born Free” pela primeira vez, fico mais convencido de que se trata de um clássico, uma faixa matadora para ninguém botar defeito, mesmo aqueles céticos quanto ao sucessor de Kala. Alguém já notou a semelhança com Atari Teenage Riot, outros se admiraram com o hype das participações, que vão desde Suicide (em forma de sampler) até Iggor Cavalera (agora com dois Gs). Mas eu fiquei impressionado mesmo foi com a guinada punk que esta faixa traz em relação ao trabalho da cantora, mais ligado a uma combinação inusitada e poderosa de hip hop, ragga, timbres eletrônicos pesados e os ritmos menos conhecidos como o bangra. Qual não foi minha surpresa ao reparar que “Born Free” é um eletro-punk radical, mas não como os eletro-punks de butique que pintaram por aí há tempos atrás. A timbragem super aguda, saturadíssima, compõe perfeitamente com a aplicação minimalista do sampler do Suicide e a bateria revolucionária de Cavalera (sim, revolucionária!; ler sobre Roots aqui). Os vocais, cheios de efeitos, conferem um clima de urgência corroborada pela letra repleta de sacadas bacanas e palavras de ordem provocativas. Ela diz “I was close to the end staying undercover /With a nose to the ground I found my sound” para logo depois contrastar com uma outra perspectiva sobre si mesma: “I don’t wanna talk about money, ‘cause I got it / And I don’t wanna talk about hoochies, ‘cause I been it / And I don’t wanna be that fake?, but you can do it / And imitators, yeah, speak it”.

Da chicotadas aceleradas que introduzem a faixa até o final apocalíptico, “Born Free” é pura adrenalina, espécie de líbelo vigilante e agressivo, quase bélico, pela liberdade, que mistura no mesmo caldeirão ódio racial, ressentimento, ironia, amor pela vida e pela música, poder, sexo, vigor adolescente e até mesmo maturidade. Maturidade que muitos julgam não existir, frente às imagens exageradas do tão falado clipe, dirigido pelo filho de Costa-Gavras. Verdade seja dita, este vídeo não significa muita coisa perante aqueles aviõezinhos que invadem Nova Iorque no início do clipe do mega-sucesso “Paper Planes”, a faixa em que ela declara abertamente sua vocação gangsta. Alguns consideram que a maior vingança do imigrante é ganhar dinheiro, se estabelecer com decência no país estrangeiro, mas penso que vingança não é a palavra certa. Na verdade M.I.A. está usando seu prestígio e celebridade para fazer barulho, muito barulho. Não há voluntarismo, ela fala por ela mesma. Essa autenticidade, combinada a sacadas musicais geniais, fazem com que ela se projete até mesmo nos EUA, país onde a questão da imigração é o centro nervoso de muitos debates. Será que M.I.A. levará a cabo um suicídio artístico? Será que arriscará sua reputação já inusitada comprando briga com rednecks e cowboys? A resposta virá com o novo álbum, a ser lançado dia 29 de junho. Aguardemos. (Bernardo Oliveira)

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Um comentário em “M.I.A. – “Born Free” (2010; N.E.E.T./Interscope, Reino Unido)

  1. Gabriel Lucas
    29 de abril de 2010

    Sem dúvida, um clássico!

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Publicado às 29 de abril de 2010 por em eletrônica, experimental, Punk e marcado , , , .
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