Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Ikonika – Contact, Love, Want, Have (2010; Hyperdub, Reino Unido)

Sara Abdel-Hamid é uma produtora inglesa de música eletrônica. Filha de pai egípcio e mãe filipina, começou a fazer música ainda na juventude em Londres. Do hip-hop ao dubstep, Sara burilou seu estilo e desde 2008 tem mostrado singles pela Hyperdub. Antes disso, teve destaque na compilação comemorativa 5: Five Years Of Hyperdub com “Please” e “Sahara Michael”. Ainda em 2009, fez um remix para “Township Funk”, de Mujava, lançado pela também inglesa Warp. Contact, Love, Want, Have é seu primeiro LP e foi lançado em abril. (FR)

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Acompanho de longe a carreira de Ikonika, projeto que já nasceu debaixo dos braços mais poderosos da esfera de influência da cena de dubstep, ou seja, o aval dado por Kode9 ao lançá-lo desde o primeiro single em sua gravadora, Hyperdub. “Millie”, surgido na segunda metade de 2008, mostrava um talento promissor, pegando pedacinhos de repertório aqui e acolá, entre os subgraves do dub, os andamentos ralentados do wonky e uma melodia “caixinha de música” que a aproximava do IDM. No ano seguinte, “Sahara Michael” mostrava uma evolução, com uma melodia saturada de sintetizador e um jogo de cintura rítmico de respeito. Ainda assim, nada que aparecesse com demasiada proeminência a não ser que o ouvinte precisasse de um reabastecimento mais urgente do que os lançamentos de Rustie, Joker e sua turma. Mas, a se julgar pelo single que impulsiona Contact, Love, Want, Have, “Idiot”, foi outro lançamento de Ikonika o responsável pela guinada que percebemos neste primeiro álbum: o remix para “Township Funk” de Mujava. Isso e, claro, o fato de que em 2009 a cena de dubstep ter sido vastamente contaminada pelo UKF (ou funky, ou funky house), Kode9 levando o time.

A lição de remixar Mujava, pelo visto, foi proveitosa. “Idiot” é um arraso. Como “Township Funk”, a faixa é guiada por uma melodia simples, imediatamente contagiante, no fundo quase um pastiche de melodia (a melodia de “Idiot” ainda carrega o “agravante” de ter sonoridade de joguinho 8bit), mas ao mesmo tempo esquisita o suficiente para manter seu mistério para além das primeiras audições. Outro destaque da faixa são as variações melódicas que acompanham a melodia principal, criando contrapontos que individualizam cada aparecimento da melodia principal. Se alguém nomeá-la como faixa hedonista do ano, não será este escriba que reclamará. “Idiot” até ameaça voltar em versão híbrida, fragmentada, como se fosse passada num liquidificador, em “R.E.S.O.L.”.

Mas o disco tem outros destaques. “Fish”, com seus esguichos vaporosos de sintetizador e seus padrões percussivos quase drill’n’bass, é certamente um deles. “Psoriasis” é uma excelente candidata a “Idiot 2”, apenas ligeiramente mais óbvia. “Look (Final Boss Stage)” é um UKF carregado de deliciosas e doces melodias de sintetizador saturado. “They Are Losing the War” é um mergulho nos timbres acid do começo dos anos 90. Uma particularidade interessante em diversas faixas é o modo de utilização dos subgraves. Eles só são o centro das atenções em momentos de interlúdio, como um respiro entre parte 1 e parte 2 das faixas, em que o predominante é a melodia. No fundo, essas melodias são o diferencial de Ikonika. A mocinha por trás do nome, Sara Abdel-Hamid, vai ter que comer ainda algum feijão com arroz para desenvolver um estilo mais demarcado. No entanto, Contact, Love, Want, Have, tanto pela qualidade individual das canções quanto pela fluência do conjunto, revela uma produtora habilidosa e surpreendentemente talentosa no artesanato de suas composições. (Ruy Gardnier)

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Alguns produtores se filiam deliberadamente a um contexto e, ao mesmo tempo, conseguem desenvolver algum grau de linguagem própria, seja por uma questão de detalhe na elaboração (um sonoridade qualquer que faça a diferença), seja por uma forte coerência interna. Além do vigor, claro, que naturalmente se fará presente em um trabalho desta natureza. Este me parece o caso do álbum em questão: não sendo exatamente uma expressão seminal como Burial, ou idiossincrática como Shackleton, o Ikonika conseguiu circunscrever uma sonoridade específica, inscrevendo seu nome no universo dubstep e se destacando neste ano de 2010. É sintoma, mas com personalidade.

Capitaneado pela produtora egípcio-inglesa Sara Abdel-Hamid e revelado sob os auspícios da Hyperdub, o Ikonika surgiu há uns dois anos dentro do contexto ainda embrionário do wonky, utilizando sonoridades de videogame para criar seus instrumentais ao mesmo tempo pulsantes e letárgicos. “Millie”, assim como “Holly Brook Park” de Joker, trazia um andamento lento, sinuoso, situando tecladeira pesada ao lado de sonoridades juvenis, bleeps e blops que testemunhavam uma novidade, ao mesmo tempo que faziam clara referência aos sintetizadores alemães dos anos setentas. Para seu álbum de estréia, no entanto, Ikonika trouxe um pouco mais de manha e novidade. Batizado sugestivamente como Contact, love, want, have, o álbum passeia por variações rítimicas agitadas, deliberadamente dançantes (sobretudo na ótima “Psoriasis” e “Video Delays”), pinceladas de gêneros inusitados como o industrial (sugerido em “They are Losing the War”) e a soca (no hit “Idiot”), e não deixa de lado o suingue arrastado e fragmentário em “R.e.s.o.l”, “Sahara Michael”, “Continue”, além da própria “Millie”.

Um disco saboroso, bom para ouvir de cabo a rabo em alto e bom som. Mas sua coerência, ao mesmo tempo que se afigura de modo positivo, acaba também ressaltando uma faixa que, por suas sacações geniais, acaba se destacando e, como contrapartida, nivelando as demais. Trata-se de “Fish”: camadas espessas de sintetizadores, 2-Step agitado, composto praticamente por uma prodigiosa combinação de aro e bumbo e, lá pelo final, um loop semelhante a uma sirene com delay, que é uma verdadeira cereja no bolo. Esta faixa revela que, para o futuro, o Ikonika possui plenas condições de apresentar um trabalho autônomo, independente em relação ao contexto hyperdub no qual surgiu. Por enquanto, repito, ela é sintoma: saboroso sintoma. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 30 de abril de 2010 por em dubstep, eletrônica, UKF e marcado , , .
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