Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Julee Cruise – Floating Into the Night (1989; Warner, EUA)

Julee Cruise é uma cantora norteamericana (Creston, Iowa, 1956). Sua carreira está intrinsicamente ligada aos projetos de David Lynch e Angelo Badalamenti, e a primeira gravação de Cruise é “Mysteries of Love”, faixa para a trilha sonora de Veludo Azul, criada com o objetivo de emular a versão do This Mortal Coil (cantada por Liz Fraser, do Cocteau Twins) para “Song To the Siren” de Tim Buckley. Em 1989, lançou seu primeiro álbum, Floating Into the Night, inteiramente produzido e composto por Lynch e Badalamenti, e faixas do disco são aproveitadas na série Twin Peaks, de Lynch. The Voice of Love, também majoritariamente composto pela dupla, veio em 1993. O terceiro, e até agora último álbum da cantora veio em 2003, The Art of Being a Girl, dessa vez sem os parceiros habituais. Julee Cruise é a cantora do musical de Lynch/Badalamenti Industrial Symphony No. 1, de 1989, lançado em vídeo no ano seguinte. (RG)

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Observando as classificações que atribuem a Floating Into the Night por aí, fica claro que o projeto não se inscreve em nenhum gênero muito preciso. Aventam, por exemplo, smooth jazz e new age, como se o disco de Julee Cruise fosse destinado, como o jazzinho vagabundo e pseudosofisticado de um Kenny G., a embalar o dolce far niente de dondocas abastadas, ou como se fosse “música para relaxar” ou meditar, ou um desses correlatos zen à moda da famigerada Enya. Mas apenas ouvindo apressadamente trechos de 20s de cada faixa é possível criar associações tão superficiais com o disco. OK, existe um tom etéreo/celestial inegável na voz de Julee Cruise; também certo é que os arranjos limpos e espaçosos de Badalamenti se prestam à aproximação da estética clean tão cara aos yuppies do finalzinho dos anos 80. Mas isso é somente parte da história, porque a instalação do clima de modorra é essencial para desencadear o que Lynch e Badalamenti querem fazer com a música.

Naturalmente, a melhor associação de Floating Into the Night é com a obra que David Lynche realizava no período, e que não por acaso aproveitou faixas do disco: uma estranha perturbação advinda da mais plácida normalidade, como as “zonas cinzentas” que brotam do cotidiano das cidadezinhas de Veludo Azul e Twin Peaks. Pois, se por um lado a voz de Cruise é etérea, angelical, por outro seu timbre vaporoso é ligeiramente assustador, evocando talvez mais um fantasma desgarrado do que um anjo, uma boneca singela solta no espaço e condenada à solidão das galáxias, como sugere a capa do disco. E os arranjos de Badalamenti deixam inequívocos tanto uma sensação soturna, com alguns severos graves que irrompem ao fundo, quanto um sentimento de vazio. O clean mostra seu avesso e engole a si mesmo.

Floating Into the Night é esse equilíbrio tênue entre uma música calma, propositalmente criada para parecer morosa, de fácil consumo, absolutamente codificada – com claras referências ao pop dos anos 50 – e seu oposto, do buraco negro de “I Remember” à explosão dos metais em “Rockin’ Back Inside My Heart”, disrupções que exemplificam de modo extremado a pulsão de Lynch/Badalamenti à instabilidade no seio de uma moldura altamente convencional. No entanto, basta prestar atenção na colocação da voz em relação aos outros instrumentos, criando sempre um elemento sombrio; os tremolos de guitarra, onipresentes, que lustram um objeto ausente; e as golfadas de sintetizador, severas como a voz de um destino temível. Tanto em sua faceta ambient, de “Falling”, “Into the Night” e “Mysteries of Love”, em que a voz funciona quase como um segundo sintetizador – tamanha a vaporosidade e contenção -, quanto nas canções nostálgicas “The Nightingale” e “Rockin’ Back Inside My Heart”, em que assume envergadura de crooner desafetada, Julee Cruise se mostra como a cantora perfeita para a proposta de Lynch e Badalamenti, uma diva que por trás de sua efígie de anjo deixa transparecer uma pronunciada inquitação dark. Uma pena que a carreira da cantora não tenha deslanchado, perdida entre a pouca atenção que sua dupla de produtores deu posteriormente à carreira da cantora e a falta de direcionamento que seguiu-se após a separação. Fica, no entanto, guardada para a posteridade essa gema criminosamente esquecida, Floating Into the Night, uma pérola negra que faz qualquer disco de dark ambient empalidecer na comparação. (Ruy Gardnier)

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Se eu acreditasse em sorte, poderia até dizer que David Lynch é o cara mais sortudo do mundo. Não sendo, porém, fruto desta categoria que supõe a prodigalidade do acaso, eu diria então que a coerência do seu trabalho reside em uma avaliação bem fundamentada do chão onde pisa, cercado que está por aqueles que fazem seus filmes funcionarem de forma mais completa, impulsionando a carreira daqueles que o auxiliam. Badalamenti e Julee Cruise, “uma Marilyn doentia”, como me disse um amigo, são exemplos suficientes desta característica, tanto é que são ou foram contribuintes recorrentes em seus trabalhos – Kyle McLachlan e Laura Dern também poderiam constar nessa lista… Mas cabe aqui agora precisar o papel que Julee Cruise e Angelo Badalamenti desempenham nesse álbum de 89, gravado entre Blue Velvet e Wild at Heart. E vale também levar em conta em que pé anda o pensamento imagético e as estórias de David Lynch para compreender porque o epíteto “Marylin doentia” é justo e fundamentado, além de casar perfeitamente com o clima anos 50 do disco.

Ora, é justamente nesta época que Lynch se dedica a aprofundar as dicotomias da alma americana, as contradições implícitas no verniz suave e colorido que recobria América ingênua pré-Kennedy, para ressaltar aos poucos a doença, a violência, a repressão, o terror… A orelha que Kyle McLachlan encontra em “Veludo Azul”, os supostos homens de bem envolvidos em situações de extrema violência, o conservadorismo, elementos que casam com o clima de tensão e suspense exacerbado em seus filmes porteriores. Lynch, Cruise e Badalamenti musicaram esta paisagem cultural e espiritual com simplicidade e, ao mesmo tempo, sacações discretas e estranhas inserções. Ambiguidade, pois, é a chave, tanto nas letras quanto nas melodias e arranjos. A mesma ambiguidade que a voz suave de Cruise desprende, buscando traduzir mal estar e complacência na mesma nota.

O trio desfila um repertório basicamente calcado em gêneros leves como o doo-wop, o rhythm & blues soft, o beach rock, o gospel, o jazz easy listening, todos afinados com os “inocentes” anos cinquentas. As letras também refletem temas suaves, basicamente a subjetividade ingênua e os mistérios do amor… No entanto, ao mesmo tempo, são introduzidos elementos estranhos, como o jogo de saxofones dissonantes de “I Remember”, a repetição sinistra de “Into the night” ou o mundo barulhento que invade “I Float Alone”. Já nas letras, o elemento externo que traz a infelicidade, o desprazer, como em “Falling” (“don’t let yourself be hurt this time”), “Floating” (“When you told your secret name / I burst in flame and burned“) ou ainda “Mysteries of love” (“Sometimes a wind blows/and the mysteries of Love/come clear“). Tanto no som como na poesia, é o mundo exterior que traz instabilidade e tristeza aos corações ingênuos da América perdida…

O verbo “float” é utilizado aqui de muitas formas, e de modo a corroborar o clima do disco. A flutuação dos sons e dos sentidos constitui-se como um trunfo, mas também um elemento operacional. Apesar da delicadeza e do sabor, Floating into the Night é um disco que traz à tona um sentimento ruim, uma sensação de que algo está para dar errado, algo está prestes a perverter e danificar a bela alma, que em todo caso, já está pervertida e danificada. Julee e Badalamenti que me perdoem, mas Floating… é David Lynch da cabeças aos pés. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 4 de maio de 2010 por em pop, Uncategorized e marcado , , , .
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