Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Oren Ambarchi, Jim O’Rourke & Keiji Haino – Tima Formosa (2010; Black Truffle, Reino Unido)

Oren Ambarchi é um músico australiano (Sydney, 1969) conhecido por seus trabalhos com guitarra processada e por gravações e apresentações de música improvisada com músicos que vão de Evan Parker ao Sunn O))), passando por Phil Niblock e John Zorn. Jim O’Rourke (Chicago, 1969) é músico, multiinstrumentista e produtor, alternando-se entre música pop, improvisação e música eletroacústica/experimental. Entre outras atividades, foi membro do Sonic Youth e participa do trio de improvisação eletrônica Fenn O’Berg. Keiji Haino é um multiinstrumentista japonês (Chiba, 1952) que desde os anos 70 participou de inúmeros grupos e desenvolveu extensa carreira solo, entre psicodelia, noise e improvisação livre. Tima Formosa surgiu de uma apresentação ao vivo no Centro de Arte Contemporânea de Kitakyushu, Japão, em janeiro de 2009.

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Um dos argumentos contra a improvisação livre consiste em atentar para a previsibilidade das intervenções, tanto no desenvolvimento do conjunto (crescente, começando calmo, tendendo a um clímax e por fim esmorecendo) quanto nas zonas de conforto em que os músicos se fixam, sobretudo se improvisam por muito tempo com os mesmos músicos. Os argumentos fazem sentido, no entanto, apenas como precaução: os grandes músicos de improvisação não cessam de experimentar novos approaches, criar associações inusitadas de instrumentos, criar parcerias inéditas com diferentes músicos etc., tudo para que a improvisação mantenha seu senso de aventura, de imprevisto, de celebração do momento presente. Em alguns casos, de fato, se vemos um cd com X, Y e Z, já presumimos com algum grau de confiança a sonoridade que vai dar. E Oren Ambarchi se juntando com Jim O’Rourke e Keiji Haino? Absoluta incógnita. Já individualmente os artistas apresentam uma completa versatilidade de propostas, mesmo quando se trata exclusivamente de improvisação livre. Ambarchi, o menos abrangente, pode no entanto ir dos drones evocativos às soturnas frequências graves do drone doom. Jim O’Rourke, mesmo quando mexe só com laptop, é capaz das coisas mais diversas, em todo caso sempre meticulosas. Aqui ele vai de piano. E Keiji Haino? O sujeito das múltiplas facetas pode atacar de voz, guitarra, percussão, eletrônicos ou qualquer instrumento que dê na telha, com ataques primitivistas estranhamente intensos e líricos. E quando eles se juntam, dá o quê? Impossível antecipar.

Tima Formosa começa e rapidamente Ambarchi estabelece seu território, providenciando texturas robustas de baixa frequência que podem até ser ligeiramente moduladas, mas permanecerão fiéis ao desenho proposto. Pulsos sintetizados, frequências eletrônicas muito agudas e pequenas melodias metálicas dão relevo ao drone de Ambarchi, até que lá pela metade da faixa Haino começa a fazer solfejos de longas notas em registro agudo. A partir daí a faixa será dominada por essa voz fantasmagórica, capaz de evocar ora a candura ora a fúria, inequivocamente derramada e frontal. A segunda faixa, quase um vale no meio de duas montanhas (3min44s contra 25min e 3amin da primeira e da terceira), é o momento de maior equilíbrio e intereção entre os três músicos, com O’Rourke executando sequências atonais enquanto Haino canta mais comedidamente por sobre a torrente saturada de blipzinhos que saem da guitarra processada de Ambarchi. A real surpresa, no entanto, é a terceira e última faixa, em que Ambarchi utiliza subgraves oscilantes desorientadores enquanto Haino e O’Rourke atacam de frequências altíssimas, o japonês atacando a flauta com notas longas e insistentes enquanto o americano faz as cordas do piano soar como picaretas batendo na pedra. À medida que o tempo passa, Haino desiste da flauta e começa a construir loops na bateria eletrônica, fazendo o disco desaguar num clímax apocalíptico não muito longe do metal experimental ou do industrial confrontativo, com graves suntuosos, batidas repetitivas, agressivas, e o vocal gritado e distorcido de Haino. Esguichos de sintetizador reconduzem a faixa à nova calmaria, que coincide com o fim do disco.

Muito mais do que a interação entre os músicos, o que cabe notar em Tima Formosa é a incrível capacidade dos três músicos para conseguir timbres fora desse mundo, e como que por passe de mágica conjugar a sensibilidade direta, virulenta de Keiji Haino com o refinamento e o detalhismo de O’Rourke, com Ambarchi prefigurando a moldura das evoluções dos dois. Se por um lado falta a Tima Formosa a flexibilidade da improvisação em reestruturar equilíbrios, por outro temos a certeza que o cada-um-por-si funcionou perfeitamente para o trio em questão, e que alguns sons que os músicos tiraram de seus instrumentos são alguns dos mais belos que podemos ouvir hoje em dia. (Ruy Gardnier)

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A capa, desenhada por Stephen O’Malley do Sunn 0))), não poderia ser mais adequada para representar o som que vem deste álbum, gravado em 2009 no Japão. Três ícones da música experimental em suas mais variadas vertentes, três alienígenas, escultores sonoros do que há de mais interessante hoje na praça, se reúnem para produzir uma hora de música. E o que fazer se não escolher a dedo os elogios mais desbragados: radiante, intenso, arrebatador! Em três faixas homônimas e numeradas, o trio desenvolve uma combinação prodigiosa de aspectos do drone, do ambient – particularmente, do dark ambient – do noise e, ainda, da improvisação. De Ambarchi, o baixo e a guitarra descaracterizadas, gravíssimas; de O’Rourke, o piano e o teclado prolíficos em timbres e articulações; de Haino, as incursões vocais pavorosas e sons industriais ao lap top. Os três criam texturas e momentos imprevisíveis, capazes de converter até mesmo o mais fiel defensor da canção, de tanta exuberância e pulso firme que os três demonstram.

A primeira “Tima Formosa” trabalha com reprocessamento de sinais, próximos da microfonia, graves do contrabaixo de Ambarchi com sons industriais e o vocal lívido de Haino, para desaguar em um drone delicadíssimo, repleto de nuances. “Tima Formosa 2”, a mais curta do disco, investe em uma textura que conta com três elementos básicos: uma pianola desconjuntada, um som abrasivo, noise, bem mais alto que nas outras faixas, e Haino destilando um vocal acentuadamente feminino. Lá pelo meio, Haino insinua uma voz gutural, estilo filme-de-terror, ajustando o clima para a introdução à terceira faixa, a mais interessante e barulhenta. Alternando ainda o “throat singing” com longas notas, Haino dá o tom apocalíptico, até que o noise toma conta de tudo. Não se trata de mera brutalidade, mas de uma sábia coerência que constrói progressivamente a tensão que marcará o ponto alto da faixa, com o ritmo às estocadas. “Tima 3” culmina com um coro de sopros estridentes e acaba com o vocal novamente apascentador de Haino, em direção ao silêncio e aos aplausos.

Retomando a capa e a sua metáfora, a das três medusas que se ramificam em vários tentáculos, resisto à tentação de lançar mão de um conceito deleuziano para afirmar que Tima Formosa é um álbum rizomático. Quer dizer, não resisto, e é por aí mesmo: música improvisada com extrema habilidade e domínio da composição, cerebral, mas construída por retalhos de elementos mestiços, por ramificações de formas fragmentárias… Se ao final da audição o sentimento geral é de uma perplexidade muda e até mesmo soturna, nada impede que se festeje com alegria a chegada de um disco tão poderoso. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 5 de maio de 2010 por em improv, Uncategorized e marcado , , , , .
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