Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

The Fall – Your Future Our Clutter (2010; Domino Records, Reino Unido)


Mesmo considerando o ano de sua fundação, 1976, The Fall é ainda hoje considerada representante do chamado pós-punk. Contabilizando vinte e oito álbuns de estúdio e mais uma pá de discos ao vivo, o som do Fall se caracteriza por diatribes poéticas, repletas de guitarras e ritmos marciais, dirigidas por Mark E. Smith, membro-fundador e líder. Alguns jornalistas atribuem a fama da banda a sua associação ao radialista inglês John Peel, que mais de uma vez, referiu-se ao Fall como sua banda predileta. Your Future Our Clutter (primeiramente batizado como “Our Future Your Clutter”) foi lançado em CD e LP (com duas faixas adicionais). (BO)

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Difícil analisar o novo álbum de uma banda que tem tantos e tão pouco diversificados. Não digo isto para iniciar uma crítica negativa, pelo contrário. Admiro muito grupos como o Ramones, que manteve compromisso com uma determinada estética do início ao fim. A despeito de seus erros e acertos, está lá na discografia do grupo, escrito a ferro e fogo, que eles não se renderam a modismos e mantiveram o aspecto rocker dos anos 50 até o fim. Para alguns, demonstração de caráter, para outros, falta de criatividade. O Fall é uma banda desse tipo. Cada disco é uma reiteração absoluta de tudo o que eles já fizeram, seja pela presença dorsal da guitarra, seja pelas récitas manjadas de Mark E. Smith. Não importa se a partir de um certo momento os teclados e os barulhinhos eletrônicos tenham adquirido mais espaço, ou até mesmo o som do grupo tenha se diversificado. Não importa que eles flertem com Sonic Youth, Pavement, Birthday Party etc. O som do The Fall é sempre igual, ou pelo menos é esta a sensação que acomete aquele que se dispõe, como eu, a ouvir todos os discos do grupo.

Qual seria a graça, então? Legítima pergunta, legítimas as respostas de ambos os lados, dos que defendem, dos que detratam.

Bem, eu não sei a resposta, caro leitor. Eu tendo a achar o The Fall ao mesmo tempo chato e interessante, o que em última instância significa que… é chato. Mas Your Future Our Clutter é o vigésimo oitavo (!) álbum do The Fall e, mesmo de sobreaviso a respeito do que ele poderia apresentar, consigo perceber momentos bacanas e até prazerosos. Uma característica que sustenta meu interesse e que evita a comparação com um cruzamento da eloquência banal do Current 93 com o funk’o’metal de segunda do Deftones é o equilíbrio entre a energia de Smith e a introdução de elementos diferentes daqueles que o grupo apresenta normalmente. Your Future Our Clutter herda algumas características do álbum de 2008, Imperial Wax Solvent, que trazia uma diversificação na timbragem dos instrumentos, com a utilização lateral de efeitos e eletrônicos. Esse enriquecimento, que é, de fato, prodigioso, ao invés de imprimir uma dinâmica reflexiva, acaba ressaltando os três elementos mais determinantes da música do Fall: a guitarra, a bateria e o vocal. Por mais que eles repitam uma fórmula e, ao contrário, por mais que tentem recauchutar seu som com apetrechos eletrônicos, o que sobressai mesmo é a energia do trio bateria, guitarra e voz. É o suficiente? Sim, mesmo que esta energia me lembre muito – mas muito mesmo! – o B52’s de Fred Schneider e sua turma. (Bernardo Oliveira)

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Mark E. Smith é o moleque original. Raivoso, cospe energia nas nove faixas que compoem o 28º disco da banda inglesa. Que sobreviveu, sob a liderança e (única) presença constante de seu líder. Entretanto, não é pra encarar a molecagem de Smith como algo negativo, ou pueril. Em Your Future Our Clutter, ele dá um punhado de lições valiosas sobre como fazer canções enérgicas, ríspidas e vibrantes.

O disco abre com a poderosa “O.F.Y.C. Showcase”, que se o mundo fosse justo seria um hit promissor. Um refrão agitado, que disputa atenção com o riff característico do grupo é uma marcha apontando pra uma sequência de faixas tão vibrantes como ela. E assim segue entre um ritmo febril do baixo e a voz, processada, abafada e sempre disposta a dar muito de si. Smith é o moleque original pois, junto com um punhado de outros pentelhos do passado, apadrinham um rol de artistas dos mais variados que, por merecimento (ou não) têm tido mais espaço midiático do que a própria matriz. “Mexican Wax Solvent” tem no deboche a maneira de atacar os ouvidos, “Cowboy George” vai além e sampleia um daft punk atropelado por uma manada em meio a um velho-oeste empoeirado. Exemplos é o que não faltam nos 50 minutos do LP que, se soa repetitivo em si, soa ainda mais na discografia completa da banda. Mas a insistência aqui, nao deixa de ser a seu modo outra pentelhice. Punk até o osso, mas nunca abobalhado, o The Fall não deixa de provocar os garotos mais novos um instante sequer. (Fernando Rocha)

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O que define o Fall? A sessão rítmica pulsante e agressiva, as guitarras de riffs certeiros, banais mesmo (sabendo-se tais), e sobretudo o vocal anasalado, declamado, enfático, blasé, ajudado por um soberbo uso de sotaque, que torna absolutamente único o papel de frontman e líder ocupado por Mark E. Smith. Your Future Our Clutter começa a quinta década em atividade do grupo (em anos, no entanto, “apenas” 34) como se fosse o terceiro ou quarto da banda, ou seja, já senhora de seu som, mas com todo o ímpeto que caracteriza os primeiros anos de produção de um grupo de rock. Apesar das mudanças substanciais de membros ao longo dos anos e dos discos, e apesar também das mudanças sutis mas determinantes no som da banda, um disco assinado The Fall é um disco assinado The Fall é um disco assinado The Fall. Sabe-se mais ou menos sempre o que se vai encontrar, e se o ouvinte já gosta e o grupo não deixa a peteca cair (o que já aconteceu, mas não é frequente), a recompensa é certeira. Algo misterioso, no entanto, impede essa relação de comadres de ser o jogo de cartas marcadas tão comum na relação banda longeva-fã de carteirinha. Suponho, mesmo sem ter certeza quanto a isso, que esse algo reside na perene manutenção de uma tensão sonora, uma “pegada”, por assim dizer, que geralmente se esvai, via lapidação (dir-se-ia amolecimento) e envelhecimento dos membros, de quase todas as outras bandas. Your Future Our Clutter ouve-se como qualquer outro disco do Fall no essencial, e, também como qualquer outro disco do grupo, nasce também uma identidade sonora particular do disco particularizada pelos estilos dos músicos que tocam nas gravações e também por que atmosferas e paragens o sr. Smith tenciona nos levar dessa vez.

A maior dificuldade de se falar de um disco do Fall não é nem o tamanho da discografia da banda, mas a impressão labiríntica que ela dá, com uma listagem de discos em que pode haver até alguns decisivos na trajetória do grupo, mas jamais um marco definitivo, um Daydream Nation, um Zen Arcade, um Pet Sounds para nos orientar. Pode-se até eleger seus preferidos (o meu: Hex Enduction Hour), mas dificilmente vai surgir alguém pra dizer que seu preferido é muito superior aos outros discos do grupo, a concretização definitiva de um som, o momento de toque, ou seja, esses argumentos que são dados para distinguir as obras-primas do resto da produção dos artistas. O Fall, no fundo, parece menos uma banda longeva de rock do que uma trupe circense itinerante, uma horda de discípulos acompanhando um poeta performático e ensandecido, uma régua elétrica emoldurando o espaço para um fio desencapado. Qualquer coisa que pareça viver mais do presente do que de sua história pregressa.

Your Future Our Clutter tem toda essa energia que se espera de um disco do Fall. Há espaço para a sensação “bom e velho rock’n’roll” e também para os barulhinhos de teclado e sintetizador que desinstalam salutarmente a nostalgia rockista. Mark E. Smith está em plena forma, o baixo quando distorce dá aquele groove sujo que o fã de Fall já conhece, a guitarra sempre que procura encontra seus riffs pegajosos porém agressivos. Detalhe importante, e incomum de se ler/ouvir dizer sobre o Fall: a compactação que faz com que não haja nada irritante em termos de melodia ou timbre, e que permite tolerar a ausência de ideias musicais realmente geniais uma vez que se estabelece um patamar alto de energia e estranhamento sonoro. O único senão vai para os momentos em que o arranjo soa demais como bandinha anônima de garagem entoando aquele velho rockabilly. Mas é coisa de passagem, mesmo porque a voz de Smith espanta qualquer instalação em terreno familiar. Mesmo o terreno “The Fall”, e isso faz toda a graça de acompanhar disco a disco toda a discografia de seu grupo. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 11 de maio de 2010 por em rock e marcado , , .
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