Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

DJ Krush – Meiso (1995; Sony Music Japan/Mo Wax, Reino Unido [Japão])

Hideaki Ishii é um produtor/dj de hip-hop japonês que, desde 1994 tem lançado discos sob o pseudônimo DJ Krush. Antes disso, fez parte do grupo Krush Posse. Pioneiro do gênero no país do sol nascente, Krush gravita entre diversas referências musicais ocidentais, especialmente do hip-hop norte-americano. Conta a biografia que, Hideaki Ishii fora um agente da Yakuza e decidiu mudar de vida ao receber um bilhete com um dedo arrancado de um amigo e viu saída produzindo música. Para além deste dado anedótico, DJ Krush pode ser considerado uma espécie de embaixador do estilo no Japão. Meiso é seu terceiro álbum, originalmente lançado em 1995 pela Mo Wax. Para 2010, promete um novo trabalho após seis anos desde Jaku, seu último LP de inéditas. (FR)

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As estratégias para penetrar em uma obra de arte, nao importando sua natureza, são muitas e, invariavelmente a experiência anterior e a dimensão que esta afeta a vida de quem a absorve, determina o modo como tais respostas vêm à tona. Começo meu texto levantando um pouco da maneira em que fui originalmente apresentado ao universo sonoro de Hideaki Ishii, nao pela sua música propriamente mas por vizinhanças e afinidades, era num disco do Daft Punk, ou pelas mãos rápidas de DJ Shadow, ou mesmo na explosão gráfica do filme Wild Style que abriu os olhos do então yakuza DJ Krush. O mesmo universo colorido, de complexidade elegante que seduziu Krush teve efeito semelhante para este que vos escreve.

Estrangeiro em terra estrangeira, a falta de cerimônia em se convidar para a festa alheia fez com que Krush fizesse por conta própria uma pequena revolução. Capaz de uma alquimia de sub-gêneros que atravessam o hip-hop, Ishii construiu em Meiso, uma carta de intenções que se apresenta precisa e sutil. Desde uma base contundente para um rap dos mais tradicionais (“Only the Strong Survive”) até construções hipnóticas com na faixa, em colaboração com outro ourives do turntablism DJ Shadow. Aliás, é “Duality” que pode resumir bem o que atrai este que vos escreve ao universo estético de Krush. Apesar dos maneirismos, Krush não foge da tradição nem a torna um fardo. Ao mesmo tempo que faz referência, dialoga as vezes de forma combativa, outras com um drible desconcertante. “Duality” reúne estas qualidades, mas não é só dela que se faz Meiso, o desvio do caminho do guerreiro. Coloque a bomba letárgica “Anticipation” e, evite não se colocar num tempo de rotação vacilante. Climático, Meiso é um convite sedutor que esconde um caminhão de más intenções. (Fernando Rocha)

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Foi ali no final da década de 90 que fui me familiarizar com a onda de hip-hop instrumental/abstrato representada pela Mo Wax, pela Ninja Tunes e outros. Ali, o interesse imediato foi menos pelas ambiências climáticas do que pelo turntablism mais virtuoso de um DJ Spooky e pelo ecletismo de DJ Shadow solo ou no UNKLE. Nesse contexto, a música do DJ Krush não me pareceu muito convidativa em comparação, e não me aventurei na discografia do sujeito para além de Kakusei. Nessa última década, no entanto, aparentemente, foi o hip-hop abstrato mais downtempo e climático que ganhou proeminência e uma mais longeva duração, com Blockhead, Madlib, RJD2, J. Dilla e Alias, entre outros, ao passo que a fragmentação zappeana e multigênero de um Spooky perdeu fôlego. Coisas da vida.

Ouvir Meiso hoje é um negócio curioso. É um disco vastamente moldado por batidas poderosas de hip-hop, muito ao sabor dos timbres percussivos da época, adornadas por linhas de grave discretas, ainda que potentes, e intervenções de melodia bastante parcimoniosas. Das 14 faixas que compõem o disco, quatro têm raps (assinados por BLack Thought e Malik B., dos Roots, por CL Smooth, Big Shug e Deflon Sallahr) e quase todo o resto se insere num contexto quase ambient de fruição. Ao invés de desenvolverem narrativas instrumentais, as faixas sem rap delineiam antes um clima, envolvendo o ouvinte numa atmosfera ligeiramente sombria. É um disco que funciona, então, mais pela coerência e pela fluidez do todo do que por suas faixas individuais. Os quatro interlúdios intitulados “Bypath” servem exatamente para dosar o andamento do disco com pequenas variações que refrescam a audição, que funciona às vezes melhor como pano de fundo (ambient, mais uma vez) do que como fruição atenta. A grande exceção, e o destaque absoluto do disco é “Duality”, faixa em parceria com DJ Shadow colocada apropriadamente ali no final do disco, só não sendo última porque o disco se fecha com uma vinheta. “Duality” é um monstro poderoso a partir do momento em que Shadow toma controle da faixa, inserindo intervenções percussivas de tirar o fôlego e prender definitivamente a atenção. Novesfora o pioneirismo, Meiso pode ser experimentado alternadamente entre anódino e insinuante, entre o adorável e o moroso, mas a parceria Shadow/Krush em “Duality” torna o disco uma referência necessária a todos os admiradores e interessados em hip-hop instrumental. (Ruy Gardnier)

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Lançado um ano antes de Endtroducing, que trazia na capa dois indivíduos numa catação de discos tremenda, Meiso participa do mesmo espírito de escavação e atualização que o clássico álbum do DJ Shadow. Trata-se, portanto, de outro clássico, testemunha de uma época de virada para o hip hop, quando os produtores e djs passaram a se dedicar ao rap instrumental, aos maneirismos do turntablism, à experimentação de timbres e ritmos, à incorporação da ambient, da eletrônica e do jazz, inspirado em grupos como o De la Soul e o A Tribe Called Quest. Trip Hop, Downtempo, Hip Hop experimental: apenas rótulos para definir essas variações também exploradas pelo pessoal da Ninja Tune, pelo Massive Attack, etc.

Nesse carnaval, Krush elabora uma concepção musical própria, constituída por poucos elementos, muito embora marcantes. Uma batida vigorosa, seca; contrabaixos repetitivos, teclados suaves, estilo ambient, muito hammond alterado por efeitos, mas tudo utilizado de forma econômica, ressaltando acima de tudo o suingue e uma quietude cool, quebrada às vezes por um solo de bateria, como na parceria com Shadow em “Duality” ou pela intervenção de rappers experientes, como o saudoso Guru. E, some-se a isso, uma timbragem por vezes sutilmente abrasiva, que adiciona um tempero, uma “maldade” neste caldeirão. Essas características fazem de Meiso um álbum ainda hoje saboroso, em nada marcado pelo tempo. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 19 de maio de 2010 por em hip-hop e marcado , , .
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