Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

LCD Soundsystem – This Is Happening (2010; DFA, Estados Unidos)

O LCD Soundsystem é o projeto de James Murphy, produtor musical e co-fundador do selo DFA, de Nova York. A sonoridade do LCD Soundsystem é geralmente definida como disco-punk por misturar elementos dançantes a uma postura claramente inspirada no no-wave e pós-punk novaiorquino. O primeiro single do grupo, “Losing my edge” de 2002 obteve grande sucesso mas foi com “Daft Punk is Playing at My House” de 2005 que o grupo se tornou uma febre de popular. O primeiro LP, LCD Soundsystem, de onde saiu “Daft Punk is…” recebeu diversas críticas positivas além de figurar entre as listas de mais ouvidos daquele ano. Em 2007, Sound of Silver apresenta uma nova fase do grupo, com canções como “North American Scum” e “Someone Great”, repetindo o sucesso do antecessor e adicionando maturidade ao trabalho de Murphy e Cia. This is Happening é o terceiro e possivelmente último trabalho de Murphy como LCD Soundsystem e, apesar de ter vazado há quase um mês, foi lançado oficialmente em 17 de Maio. (FR)

*#*

Que espaço sobrou para o pop? O plano do cool foi azedando, o cinismo belisca a bunda dos ingênuos e a fábrica de fogos de artifício já nao se preocupa em lançar uma nova linha de produtos. Tal qual uma caixa de espelhos que reflete seu próprio reflexo indefinidamente, as formuletas manjadas parecem cada vez beber em águas rasas, em bebedouros comunitários. Se por um lado vemos uma insurgência lo-fi que vangloria a Polaroid e a fita cassete, a saudade de tempos remotos é vigorosa no inventário sonoro de James Murphy e seu LCD Soundsystem. Se ele já quis ser o garoto mais cool da rua, ou avisou que o Daft Punk fez uma festa no seu apê, agora em This is Happening ele põe as cartas na mesa, carregando de ironia própria um legado musical alheio, sem muita invenção, é verdade. Entretanto, pouco se viu tanta habilidade em enfileirar suculentas faixas como a dramática “Dance Yrself Clean” e “Drunk Girls”.

Murphy faz um DJ Set de músicas inéditas que têm em seu DNA um pedigree e um perfume que bota os céticos do hype pra ouvir com mais cuidado, e as vítimas do canto da sereia pop pra pesquisar mais. O grande mérito do LCD Soundsystem foi esse cruzamento bem elaborado de referências e trazer toda essa sonoridade para o nosso tempo, ao invés de querer provocar uma falsa nostalgia: quase um recado: “seus pais já foram mais cools que vocês, garotos”. Um nó tático, coloca o sujeito de frente pro espelho infinito e se propoe ser um divertido passatempo. Em This is Happening fica evidente, novamente, a caixa de ferramentas do LCD Soundsystem, o segredo aqui é o que eles são capazes de fazer com tal aparato: entre o copy & paste e a redescoberta da roda, James Murphy opta por caminhar numa corda bamba que se para os mais enciclopédicos quase o faz cair, pras novas gerações recupera com propriedade (sim!) muito do que já foi melhor feito pelo grude auditivo. (Fernando Rocha)

* # *

Mr. James Murphy é uma peça rara. O sujeito aparece com um primeiro single que mais parece um artigo sobre o consumo de música a partir da disseminação dos mp3, “Losing My Edge”, e consegue criar uma narrativa hilária sobre um sujeito que “esteve lá” em diversas das manifestações mais interessantes da música alternativa dos últimos anos e que perde sua dianteira para todos os nerds que com seus computadores montam bibliotecas sonoras e viram verdadeiras bíblias de conhecimento enciclopédico sobre bandas obscuras e geniais. Afora isso, pode-se dizer que sua gravadora DFA redefiniu os rumos da música indie americana botando rapazes brancos pra dançar, atualizando o póspunk do Gang of Four em modo hedonista, reavivando a disco music e reconstruindo inclusive a identidade de grupos importantes – The Rapture, em especial. Murphy é o definitivo trendsetter do mundinho, ao qual ele se dirige com toda autoridade de um igual: ele tem todas as referências e as expõe – em música e letra – com a fluência de um articulista da cena. O LCD Soundsystem tem um senso perfeito de público-alvo, talhado minuciosamente para a sensibilidade daqueles que ouviram New Order e as bandas Madchester (Happy Mondays, Stone Roses) em sua época teen e têm conhecimento musical suficiente para compreender as tiradas e o namedropping. Não coincidentemente, no público-alvo está contida boa parte da crítica americana indie, Pitchfork capitaneando, e parece apenas natural a devoção surgida da total identificação com a postura, o som absurdamente derivativo e as letras boêmio-reflexivas de James Murphy. O sr. LCD Soundsystem hoje tem todo o direito de arrogar para si o troféu de “Mabuse do rock” outrora empunhado por Malcolm McLaren.

O fator complicador, e que impede de descartar a sensação LCD Soundsystem como apenas um modismo tolo, é o talento de James Murphy. Não é lá um senhor talento, mas ele existe. Ele deriva mais da esperteza e do espírito da época do que do feeling, e se presta perfeitamente a diagnósticos sobre a cultura da época, fã de pastiche e da nostalgia derivativa, especialmente a oitentista. No entanto, Murphy sabe fazer isso melhor que os outros. This Is Happening mostra isso à exaustão, desde a enorme cara de pau ao chupar “White Light/White Heat” em “Drunk Girls” até os blipzinhos 8bit constantes nos arranjos de algumas faixas, passando pelo pastiche da guitarra de “Heroes” na associação Fripp/Bowie e pelos sintetizadores de tecnopop. Dá também pra cantar como o Interpol em “All I Want” e pra evocar os coros de Remain in Light, dos Talking Heads. Para além desse “Onde está Wally?” tolo e cansativo, no entanto, existe um belo trabalho de produção, com composições que permitem o preenchimento dos muitos espaços deixados com detalhes que cativam a atenção. Ainda que os timbres sejam ultramastigados, há algum frescor na forma como novos elementos se acrescem às composições. Nada, em todo caso, que imponha o grupo ou o disco acima de segundo escalão. Destaco “I Can Change” e “Pow Pow” como as mais interessantes, e ainda que elas não compensem a chatice monumental de “You Wanted a Hit” e “One Touch”, pode-se ouvi-las com algum prazer. (Ruy Gardnier)

* # *

Quando se trata de diferenciar a apropriação indébita da recriação, a cópia da invenção, ainda mais no contexto autoreferencial da cultura do cut and paste, muitas vezes a conversa empaca. Cada indivíduo tem para si um critério, ou pelo menos sua ilusão, que fornece coordenadas a respeito do que em arte é cópia, invenção, recriação. De um ponto de vista pragmático, o assunto exposto desta forma pode levar a conclusões precipitadas. Pois é evidente que a perspectiva sobre os limites da criação e da cópia se alteram conforme uma série de fatores, como modos e meios de produção, produção e distribuição de conteúdo, meios de comunicação… No contexto atual, no qual se insere o novo álbum do LCD Soundsystem, esse debate toma uma proporção curiosa. Não só porque This is Happening prolonga o esforço do grupo em incorporar elementos do rock/pop do final dos 70 e 80 à febre neo-disco, mas como dessa vez eles concentram sua obsessão nos discos de Bowie da fase Berlim, LowHeroesLodger. Ok, “this is happening…” Mas como abordá-lo?

Antes, o LCD emulava Talking Heads, Bowie, Modern Lovers, B52’s, Iggy Pop, Blondie… Tratava-se de um panorama, e muito da graça do grupo vinha desta característica. Eles trabalhavam sobre um ritmo, um timbre no coro, na guitarra, na bateria, inserindo-o em uma outra composição, geralmente desenvolvida entre o rock e o disco. Já This is Happening não só mantém a referência persistente à trilogia de Berlim, como também aos álbuns “laterais”, como The Idiot, de Iggy Pop, produzido por Bowie na mesma época. Podemos perceber claramente em “Drunk Girls” os vocais de “Funtime” e a estrutura rocker de “Boys Keep Swinging”; em “All I Want” a guitarra de “Heroes”; em “Somebody’s Calling Me” os sintetizadores soturnos de “Nightclubbing”; em “Dance Yrself Clean” os vocais de “Sister Midnight” e em “I Can Change” aqueles vocais e sintetizadores tão característicos de Heroes. Até mesmo a capa foi “inspirada” por Lodger… Como se pode ver, as referências são circunscritas a um universo específico. Pois bem, e como avaliar This is Happening?

Se focarmos This is Happening com as lentes da estética clássica, teremos que afirmar obrigatoriamente que Murphy foi um mal artista, pois sua cópia não foi suficientemente perfeita ou convincente. Seu pastiche se diluiu na ausência de técnica suficiente ou de ethos… Se, por uma outra via, assumissemos o discurso poundiano, buscando inserir This is Happening em algumas de suas categorias, teríamos que atribuir ao LCD o rótulo “diluidores”, parasitas do trabalho alheio… Já avaliar This is Happening segundo a dinâmica criativa dos últimos dez anos, consideravelmente diferente das décadas anteriores, implica em reconhecer as milhares de nuances entre a cópia e a criação. A noção de cópia trabalhada pelo grupo é irônica em relação ao legado sisudo de uma experiência específica, definida pelo próprio Bowie como “a whole new school of pretension”. A operação do LCD, portanto, resume-se em utilizar o material desenvolvido por essa “escola”, marcada por propósitos radicais, retrabalhado-a porém dentro do contexto evasivo do rock e da dance music contemporâneas. Uma dupla característica marca o álbum: um certo vazio hype, sublimado pelo cinismo e pela ironia. O grupo, então, se vale da esperteza de James Murphy, um catador de latas que emprega a experiência professada em “Losing My Edge” para desenhar milimetricamente o LCD. Neste caso, diferentemente das abordagens mais comuns, a cópia e a criação não seriam de forma alguma categorias opostas, conquanto mantivessem resguardados seus domínios.

Há, portanto, níveis onde a cópia adquire estatuto de criação e vice versa. A cópia aqui funciona não como mera emulação, mas como uma força de interpretação , de apropriação, como um bigodinho na Mona Lisa… Mas aí diriam: ora, que processo mais antigo! Sim, embora não se trate de comparar processos, mas expressões e contextos dentro dos quais se desenvolvem certos procedimentos. Neste caso é o bigodinho sobre o bigodinho. Não uma adaptação ou uma versão, mas uma reprodução que respeita rigorosamente a unidade estilítica do modelo em favor de um sentido anedótico. Podemos nos referir também ao sampler, ao mash up… Ok, são outras modalidades que também põem em crise as categorias clássicas, poudianas e até mesmo a “transfiguração do lugar comum” de Danto. E aí, o LCD é uma banda que por mais que eu implique, não consigo não admirar pela energia com que eles respondem a estímulos da época, como recontextualizam formatos e conceitos e se apresentam como sintoma de um esvaziamento do conceito de arte, o que deixa muita gente por aí de cabelo em pé… (Bernardo Oliveira)

PS.: Recentemente pude ler no suplemento literário do New York Times a expressão “post-postmodernism”, e me pergunto: quantos prefixos “pós” serão necessários para que cessem logo esta ladainha nostálgica!? Mas para quê tanto horror? Bem vindo à segunda década do século XXI.

Anúncios

2 comentários em “LCD Soundsystem – This Is Happening (2010; DFA, Estados Unidos)

  1. Gabriel Lucas
    20 de maio de 2010

    Gurizada, parabéns pelo esquartejamento do álbum. Pessoalmente, não gostei muito do álbum, tampouco concordo com toda a importância que atribuíram a ele.

    Prefiro me apegar aos outros álbuns e a nostalgia do show deles.

  2. bernardo
    20 de maio de 2010

    Mas o show no circo voador foi bem bom!
    abs e parabéns pelo blog

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 19 de maio de 2010 por em eletrônica, pop, rock e marcado , , .
%d blogueiros gostam disto: