Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Janelle Monáe – The ArchAndroid (2010; Bad Boy/Wondalands Arts Society, EUA)

Janelle Monáe é uma cantora e compositora americana (1985, Kansas City). Ela apareceu com mais proeminência depois de se mudar para Atlanta e aparecer no disco Idlewild (2007), do Outkast. Nessa época Monáe concebeu uma obra dividida em quatro suítes, lançando no mesmo ano o EP Metropolis: Suite I (The Chase) pelo selo Bad Boy, do rapper e produtor Puff Daddy/Diddy. No ano seguinte o EP foi relançado com duas faixas extras. The ArchAndroid é o primeiro álbum da cantora e contém as suítes II e III de Metropolis. O disco contém participações de Saul Williams, Big Boi e do grupo Of Montreal. (RG)

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De vez em quando surgem discos que nos fazem apaixonar novamente com toda a potencialidade experimental do pop, de David Bowie a Sufjan Stevens, de Van Morrison aos Avalanches. Independente de gêneros e estilos, o que todos esses artistas têm em comum é a habilidade de aliar pegada pop e trabalhos com composição e arranjo que buscam belezas menos óbvias do que as frequentemente encontradas nas paradas de sucesso. O lançamento de The ArchAndroid situa Janelle Monáe inequivocamente nessa seara. Aproveitar a breve associação da cantora ao Outkast para caracterizá-la como uma espécie de Outkast feminino é ridiculamente redutor: as composições de The ArchAndroid percorrem um terreno mais vasto e diverso do que os da dupla de Atlanta, indo do r&b badass de Missy Elliott (“Dance or Die”) às baladas simon&garfunkelianas (¨57821″), passando por pop de andamento rápido à Outkast, por que não (“Tightrope”), ou pelas atmosferas misteriosas/nostálgicas (“Sir Greendown”, reminiscente do disco de Julee Cruise composto por Lynch/Badalamenti camarilhado algumas semanas atrás). Há tamanho talento e diversidade nas faixas de The ArchAndroid que por vezes mal se percebe uma virtude que, se não é a maior de todas, é em todo caso essencial ao disco: um incrível bem talhar da produção/composição, sem excessos auto-indulgentes de diva ou arroubos de ecletismo só pra ficar bonito, com inúmeros detalhes que surgem com as múltiplas audições.

Estamos definitivamente em terreno onde antes já trilharam Stevie Wonder, Marvin Gaye e Quincy Jones: música negra com feeling misturada a audaciosos e/ou refinados arranjos. “Locked Inside” talvez seja a que mais coloca isso à mostra, com versos cuja melodia lembra “Golden Lady” enquanto o acompanhamento revela acentos r&b/disco de “Don’t Stop ‘til You Get Enough”. No geral, em todo caso, The ArchAndroid se revela menos uma atualização do pop negro sofisticado da Motown dos anos 60/70 do que uma obra intencionalmente híbrida (criando apesar disso um equilíbrio auditivo que nada tem de híbrido) que funde passado e presente, tradição negra e branca num contexto todo próprio, como um enorme caldeirão em que Cole Porter, Aretha Franklin, George Clinton e Violent Femmes fazem completo sentido juntos.

Em termos de coesão sonora, The ArchAndroid se comporta incrivelmente bem, dada a proliferação de estilos e climas distintos, quase opostos, proporcionados pelas faixas. Isso se deve à pegada dos ganchos de cada faixa e à qualidade de sua composição, sem dúvida, mas o que coroa a fluência do disco é um tom teatral, meio music-hall meio obscuro/experimental, no qual Tom Waits é mestre absoluto. Só esse tom, caloroso mas distanciado, permite que se desfrute de uma faixa agitada e maluquete como “Come Alive (War of the Roses)” e em seguida exista estômago para o avant-pop “Mushrooms & Roses”, semelhante à psicodelia sessentista de um Flaming Lips. Cada faixa, apesar da coerência estilística e da manutenção da personagem das suítes Metropolis, revela uma faceta diferente, que surpreende tanto pelo controle de tantas disposições de espírito que Monáe domina com sua voz quanto à capacidade de estratégias diferentes no arranjo. É um disco de uma ambição pronunciada, felizmente coroado por uma leveza tão incrível na audição que em momento algum a coisa parece forçada ou sem sinceridade. Ao contrário, é pop de vanguarda nascido com feeling, surgido do coração e levado ao ouvido e ao cérebro com esmero, perfeccionismo e senso de direção. Dificilmente um disco em 2010 terá mais a cara de “pop futuro”, negro ou não, do que The ArchAndroid. (Ruy Gardnier)

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Para quem olha de longe, Janelle Monáe pode ser equiparada a cantoras como Beyoncé, Estelle, Alicia Keys… Monáe, no entanto, não se limita ao diálogo com o rap e o R&B, como suas contemporâneas. Embora enquadrada em um mega esquema publicitário, e alusiva a uma tradição de cantoras americanas, Monáe é um pouco mais que um mero badulaque pop. “Tighthope”, com a participação de seu maior incentivador, Big Boi (50% do Outkast), abre o jogo e remete a moça imediatamente à linhagem de soulmans inventivos como Prince, Stevie Wonder, Michael Jackson, Isaac Hayes… As múltiplas habilidades, a liberdade para transitar entre os estilos, imprimindo-lhes no entanto um sotaque indefectível, a quantidade absurda de modos, arranjos e instrumentos, a habilidade em criar texturas diferentes de tudo e, ao mesmo tempo, populares… Soma-se a isso a sua dança graciosa, influenciada por James Brown e Michael Jackson, mas que também remete a outra tradição americana, o “musical theater” – não me parecem gratuitas as alusões ao teatro, como a estrutura em atos, por exemplo. Monáe já havia demonstrado personalidade no primeiro “ato”, o EP de 2007 Metropolis: Suite 1 (The Chase), e até mesmo realizado uma ponta interessante no fiasco Idlewild, sobressaindo-se como produtora e cantora. Ainda não era o suficiente para apresentar suas espantosas habilidades – quem assistiu a moça no programa do David Letterman sabe do que estou falando…

Vejo em Janelle Monáe os lampejos de uma tradição: os olhos arregalados de Louis Armstrong, a segurança de Curtis Mayfield, a energia de Little Richard, a musicalidade exacerbada de Stevie Wonder… Como songwriter e produtora, no entanto, ela esgarça o espectro de estilos e inflexões, incorpora estilos inusitados do pop branco, como em “Make the Bus”, colaboração esquizofrênica com o Of Montreal, no folk meio dream pop de “57821”, com o Deep Cotton e na emulação irônica de Joan Baez em “Oh Maker”… Mas esta abertura opera também nas músicas mais suingadas, como no hit “Tighthope”, na faixa de abertura com o incompreendido Saul Williams e em faixas mais experimentais como “Neon Gumbo”. Até mesmo quando brinca de ser vazia, na adorável “Wondaland”, ela surpreende, criando uma Taylor Swift meio XTC (rs), com camadas espêssas de instrumentos, variações e refrão pegajoso. A impressão geral é a de que estamos diante de um nome diferente, daqueles capazes de assegurar muitas surpresas mais à frente.

Mas são as primeiras nove ou dez faixas de The ArchAndroid que impressionam e atestam esta diferença. A abertura megalômana, semelhante a de The Love Below, conduz o ouvinte aos versos lépidos de “Dance or Die”, que emenda no pop-rock delicioso de “Faster” (estilo Bangles! Sim, você leu certo…) e na steviewonderíssima “Locked Inside”. Depois vem a soturna e bela “Sir Greendown”, “Cold War” com seu ritmo frenético e outras já comentadas acima, como “Tighthope”, “Neon Gumbo” e “Oh Maker”. Essa sequência permite compreender o conceito do disco, sua capa e razões para tanta miscelânea. Trata-se da imaginação privilegiada de Monáe apostando as fichas na própria capacidade, criando seu próprio recorte do caldeirão de estilos da música norte-americana, pelo excesso. Juntamente com a superatividade de Prince, a música de Monáe evoca o primeiro disco de Carlinhos Brown, um artista semelhante em aspectos fundamentais (multifacetado ao exagero, popular e experimental). Não é à toa que ambos utilizam indumentárias e adereços em seus discos que se referem a uma comunhão de valores antigos e atuais. Antiguidade e ciborgues, mas mediados pelo poder atávico das canções. Que venha Janelle Monáe, e para ficar. (Bernardo Oliveira)

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Ah, ser jovem e ter as possibilidades completamente abertas, a capacidade de inventar e reinventar, escolher… Bem, participar da indústria fonográfica deve estar bem longe disso. O jogo de pressões leva os artistas iniciantes a no máximo escolher um dos modelos padrões e torcer para fazer a escolha certa na hora certa. Mas existem os desviados, existem os que escolhem subverter o sistema, lutar contra, quebrar protocolos. Os malditos, outsiders. Na música eles são os experimentais, alternativos, indies (?), enfim, idiossincráticos ao ponto de confundir a indústria que não sabe como vendê-los (veja bem, a indústria não é moralista, ela apenas quer vender, de preferência muito). A terceira via poderia ser adotada por aqueles que pretendem fazer pequenos desvios. Subverter por dentro. Janelle Monáe é um pouco disso.

Sua música não tem nada de inovador, sua voz nada possui de singular. Ela nem chega a ser outsider dentro da indústria (v. Björk), mas dentro do estado de coisas atuais, ela faz tudo errado. A começar por seu biótipo mirrado: longe da luxúria epidérmica de uma Beyoncé, sua figura não evoca nada do que esperamos de uma diva soul, e mesmo que seu smoking seja incomum, nos tempos de rainhas pseudo-freak que flertam com o pansexualismo, Monáe parece perigosamente fora de moda.

Daí vem o pulo do gato: seu fora da moda não é vintage nem futurista, e ela corteja aquele fora do tempo eternizado por André 3000 na música e no clip de “Hey Ya!”, sem desejar ser experimental ou necrófila. Monáe brinca com gêneros, pega emprestado de tudo que está a seu alcance e ainda consegue fundir suas canções com um inegável senso de autoria. Mesmo quando evocam excessivamente Stevie Wonder, Michael Jackson ou o Outkast, as faixas nunca deixam de ser “Janelle Monáe”.

Talvez a referência mais adequada para The ArchAndroid seja o The Love Below do Andre 3000: um disco longo, ambicioso e excessivo. Mas Monáe consegue superar seu modelo em dois pontos chaves. Primeiro: deu coesão ao disco ao manter partes tão díspares unidas por um conceito que pode passar completamente despercebido, sem fazer muita falta. Ou seja, no lugar de enfiar músicas desnecessárias para amarrar um ‘disco conceitual’, Monáe usa o conceito como forma de ter liberdade para fazer as músicas que quis sem soar como um saco de gatos. Aqui se aproxima um pouco dos discos (anti)escolares de Kanye West.

Músicas como “Faster”, “Cold War” e “Tightrope” são canções old-fashion tão imbuídas de urgência que não poderiam ter sido produzidas em outro momento que não AGORA. “Cold War”, em especial, é uma faixa tão Aretha Franklin que dá vontade de chorar, ou pelo menos põe a chorar todas as pós-divas que queriam fazer um mero cover e no máximo conseguem miar “(You Make Me Feel Like a) Natural Woman”. “Locked Inside” é um falso cover de Stevie Wonder que não poderia ter sido feito por outra pessoa (e um senhor cover, vide a guitarra e percussão que ganham proeminência depois de 02:30).

O disco não é perfeito, mas nem precisava. E daquelas obras que são maiores pelas suas imperfeições, pela ambição desmedida (pela cara-de-pau), pela alegria de saber onde está. Alegria de quem ouve e vislumbra o que essa baixinha faz e pode fazer. (Marcus Martins)

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Um comentário em “Janelle Monáe – The ArchAndroid (2010; Bad Boy/Wondalands Arts Society, EUA)

  1. Guilherme Tadeu
    3 de junho de 2010

    Realmente ela conseguiu ambientar o disco em um universo único.

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Publicado às 26 de maio de 2010 por em pop e marcado , , , .
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