Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Frank Bretschneider – EXP (2010; Raster-Noton, Alemanha)

Exp é o nono trabalho do compositor, videoartista e co-fundador do selo Raster-Noton, Frank Bretschneider. Além de assinar seus trabalhos com o próprio nome, Bretschneider é também Komet, Produkt e Tol, além de participar de inúmeras colaborações, como AG Geiger e Signal. Sua música, como a de seus paceiros de selo, se concentra particularmente na conversão de dados em som. (B.O.)

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Por que o trabalho de Frank Bretschneider sobressai justamente em um selo que tem a experimentação como foco central? Sobretudo porque suas qualidades como experimentador ultrapassam a mera experiência, alinhando também qualidades como composição e senso de concepção. Seus discos encerram um conteúdo próprio, geralmente explorando possibilidades desconhecidas, mesmo se considerarmos Byetone e Alva Noto. Rhythm, de 2007, remetia exatamente ao que o título indica, um estudo sobre o “suingue”, sobre o diálogo entre duas vertentes opostas, uma popular, a outra aristocrática. Como seus parceiros de selo, Bretschneider também trabalha na esfera da composição utilizando sons extraídos da conversão de dados não-sonoros em som. EXP aposta na aproximação de risco entre som e imagem, mas de uma forma curiosa. O percurso traçado por Bretschneider para produzir esta aproximação parte do som para a imagem, já que se trata de conveter as frequências e a intensidade sonoras em animação, disponíveis em um CD à parte. Entendo que as imagens fazem parte da concepção do projeto, e mesmo da composição propriamente dita, mas opto, no entanto, por não seguir a orientação do compositor, atendendo à dupla tarefa de ouvir o som e ver a imagem, mas considero EXP como uma experiência sonora autônoma, uma das mais estranhas que ouvi recentemente. Estranha não só pela quantidade de ruídos e samplers sui generis que povoam o disco, mas também pela prodigiosa diversidade de estruturas de composição, ora rítmicas, ora extremamente abstratas, que Bretschneider destila em suas trinta e cinco faixas. O trecho composto por “Mass”, “Blue: Aluminate” e “Ventilator”, por exemplo, é contínuo ritmicamente, primeiro com um beat lento, e depois do “Blue” – trecho noise recorrente por todo o álbum – com um groove alucinado construído com percussões e ruídos super-agudos. O resultado é intrigante, tão intrigante como a maior sequência do disco, essa sim quase graciosamente “pop” (isto foi uma piada): “Phased out”, “Oscillation”, “Funkalogic”, “Monoplex”, “Multiplex”, “Panback” e “Blue: Prussian”. São trechos, er, “lúdicos”, graciosos, construídos no entanto com peças anômalas, mas com um senso de groove aguçado. O “Blue”, dessa vez, desestabiliza tudo, ocasionando a sensação de estranheza a que me referi no início. Trata-se de uma ruptura, uma mudanca abrupta de clima. Aliás, EXP é um disco de climas, mas ao mesmo tempo, deve ser ouvido no fone, para captar toda a preciosidade, o esmero com que as faixas são elaboradas. E, adiante, o seu sentido geral, que é o de uma experiência vigorosa e, mas mesmo tempo, plena de leveza e criatividade. (Bernardo Oliveira)

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Na seção de informações do site da gravadora Raster-Noton existe uma imagem pra lá de conveniente para se instalar no universo de Frank Bretschneider. É uma peça que utiliza efeitos de ilusão de óptica típicos da op art, mas a desorientação dos sentidos é realizada da forma mais austera possível, com linhas diagonais paralelas em preto e em branco que no entanto provocam uma intensa vibração luminosa, dando a impressão que um espectro surgirá dali. A música praticada pelos artistas da Raster-Noton, e por Bretschneider em particular, tem muito a ver com essa imagem: é extraordinariamente fria, absolutamente austera – ódio total às ornamentações, em afinidade com o modernismo funcionalista –, baseadas em ritmos secos, sinais sintetizados e células percussivas duras. O barato todo é que, embora a música materialmente seja tudo isso, a complexidade dos padrões rítmicos e a escolha de timbres fazem da audição um processo delicioso, criando a mesma espécie de imantação provocada pela imagem do site. Mais do que seu colega de gravadora Alva Noto (codinome de Carsten Nicolai), Bretschneider trabalha pronunciadamente com a organização rítmica de seus sons sintetizados, em modo que muito lembra os timbres percussivos do Kraftwerk à época do Computer World. A esses sons se acrescem chiados, glitches ríspidos, tons agudos cristalinos e outras proezas sintetizadas.

Rhythm, disco anterior de Bretschneider, havia elevado consideravelmente o patamar de perfeição da obra do artista. Estava ali, tanto no conceito quanto em sua materialização, a expressão definitiva de uma pesquisa. A EXP cabe a árdua tarefa de dar continuidade e trazer novas questões à baila para serem trabalhadas. Esse novo disco é uma peça que mistura som e imagem, com um cd de áudio e um enhanced cd com filminhos de representação gráfica dos sinais sonoros das músicas do disco, baseado na ideia de que “as belas artes devem atingir a pureza abstrata da música” (do próprio release do disco). Apesar da tolice dos princípios e da relativa banalidade da proposta (passando de Nam June Paik e Aphex Twin às representações gráficas de qualquer player de computador), os sons que aparecem em EXP são soberbos. Ao contrário de Rhythm, um disco a ser ouvido em absoluta continuidade, EXP é um disco de continuidades e quebras, com faixas curtas e mudanças abruptas de atmosfera, indo do eletrofunk esquelético à cacofonia glitch, passando por dosados instantes silenciosos. Os destaques especiais vão para a utilização dos subgraves, tremendamente fortes nas faixas em que aparecem, e para o uso discreto mas proeminente do estéreo, que amplifica a sensação de quebra-cabeças espaço-temporal da música de Bretschneider. Retire a pompa intermidiática de EXP e fique exclusivamente com a música, que, se não reconfigura, ao menos cria formas de seu artista manter-se na trilha inventiva buscando novas maneiras de organizar ritmicamente seus sons. (Ruy Gardnier)

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Em 2010 temos uma das mais ricas safras de álbuns de alguns dos mais respeitados e bem sucedidos artistas da manipulação sonora. Desde o colega Alva Noto com a continuação de seu projeto Xerox, quanto a inesperada volta de Markus Popp e seu Oval. Surpreendentemente é o projeto de Popp que nos dá a melhor referência para tratar dessa proeza que é o EXP do Frank Bretschneider. Referência por que a música de Popp se notabilizou por seu pioneirismo no uso de diversas técnicas de manipulação do som, em especial, um dos maiores investigadores do glitch como erro. Sua música sempre foi essencialmente atrelada à apreciação do conceito que professava, uma criação através da pobreza tecnológica. Mas o que nos interessa é que na volta de seu projeto, quase dez anos após seu último álbum que apresentava certo cansaço no aproveitamento de seus procedimentos, Popp resolveu buscar certa acessibilidade que inexistia na maior parte de sua obra. Não posso dizer que ele ficou pop, sem ironia, mas é evidente uma guinada, o foco muda do conceito para a busca de um resultado mais ‘redondo’, como se sua estética anterior o impedisse de alcançar certos resultados.

Mas não estamos falando o Oval e isso apenas serviu para ressaltar algo que reputo a maior conquista de Bretschneider. Sua música é essencialmente experimental e suas escolhas e restrições estéticas muitas vezes são evidenciadas no próprio encarte de seus álbuns. Mas isso não é seu melhor atrativo e ele não é o maior inovador ou pioneiro que temos, o que nos maravilha em sua música é sua capacidade ímpar de transformar um conceito tão frio quanto a manipulação digital de arquivo como criação musical em faixas que prescindem desse conhecimento. Sua matéria de trabalho pode partir do som, de imagens ou quaisquer outros tipos de dados, mas não os tem como fim. O que ele alcança em ‘Reflex’ e ‘Multimath’ ou na dupla ‘Monoplex’ e ‘Multiplex’ tem pouco com isso.

EXP ainda possui a característica especial possuir uma parte visual que não apenas acompanha o áudio como também é seu equivalente estético, pois não tratamos apenas de imagens criadas para acompanhar a música, mas de imagens criadas a partir da música, servindo de parte do projeto e que não trataremos aqui por não ser o local mais adequado. Mas a ressalva necessária é que a separação dos meios em nada empobrece a música e sua apreciação e talvez até a enriqueça, vez que a música aqui prescinde de qualquer outra mídia.

Bretschneider é um cientista musical, mas ainda assim deixa de alcançar resultados assombrosos por sua capacidade de ainda assim ser funky, sua noção de ritmo e construção de climas e sensações é tamanha que imagino cada um de seus colegas coçando a cabeça e pensando ‘filho da puta’.

É isso, Bretschneider não precisa abdicar de nenhuma de suas escolhas por que cada uma delas apenas colabora para a singularidade de suas criações sem serem auto-suficientes.

Mesmo esse EXP, que é tímido em comparação com a potência de Rhythm,apenas ressalta as qualidades do anterior e demonstra que o trabalho de criação de Bretschneider é maior que a mera transposição de arquivos e manipulação de ondas sonoras dentro de padrões rítmicos.

A sofisticada construção de faixas e a forma como elas são distribuída revela um controle absoluto de sua música e melhor, uma consciência quase jazzística. A sequência de ‘Mass’, ‘Blue: Aluminate’ e ‘Ventilator’ ou uma beleza como ‘Satellite’ são iluminadoras neste sentido.

Não gosto do antigo termo como categoria musical, mas ele serve perfeitamente à sensação deixada por EXP: braindance! (Marcus Martins)

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Publicado às 3 de junho de 2010 por em eletrônica, experimental e marcado , .
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