Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Konono n°1 – Assume Crash Position (2010, Crammed Discs, Bélgica [Congo])

Originalmente conhecido como “Le Groupe de Mingiedi” ou L’orchestre folklorique T.P. Konono N°1 de Mingiedi (T.P. significa “tout puissant”), o Konono N°1 foi fundado em 1965 pelo ex-caminhoneiro Mawangu Mingiedi, um virtuoso do likembé (conhecido no Brasil como “kalimba” ou ainda “mbira”). Basicamente o som do grupo articula influências musicais do Congo e de Angola (principalmente da música da etnia Bazombo, situada na fronteira entre os dois países) com a criação de instrumentos a partir de material retirado do ferro velho e a amplificação das kalimbas. A primeira gravação do grupo foi realizada em 1978: a faixa “Mungua-Muanga” foi registrada para a compilação Zaire: Musiques Urbaines a Kinshasa. Anos mais tarde, mais precisamente em 2004, o grupo assinou com o selo belga Crammed e lançou o álbum Congotronics, alcançando êxito de púbico e crítica e constando das listas dos melhores daquele ano. Assume Crash Position é o segundo álbum de estúdio do grupo. (BO)

* # *

A tendência em se abordar a música africana em relacão às dificuldades sociais que circundam seus membros, geralmente mal enredados nos resquícios da herança colonial, pode ser substituída por uma análise estética, que dissecando as raízes semânticas buscaria uma apreciação da música como fenômeno puramente artístico. Ambas as possibilidades tem suas vantagens e percalços. Mas este trabalho do Konono N°1 abriu um caminho real para a aplicação da segunda possibilidade, o que  indica a saudável emancipação do grupo dos rótulos da etnomusicologia e do “gosto pelo exótico”. Quais seriam os perigos mais evidentes? Assumir os riscos de burilar e descaracterizar o formato que lhes permitiu ampliar a visibilidade, abrir mão das kalimbas eletrificadas que lhes possibilitaram a inserção em um contexto de valorização da criatividade tecnológica. Sim, podemos ouvir a kalimba eletrificada e a percussão repetitiva e hipnótica que serviu de suporte para a divulgação do grupo, mas podemos ouvir muito, muito mais. Primeiro, é nítida a guinada em direção a formatos menos soltos, abrindo caminho para arranjos mais elaborados, o que possibilitou uma maior diferenciação entre as faixas. Também se observa a preocupação de gravar intrumentos e vozes separadamente, enquanto as gravações de 2004 possuíam um aspecto carnavalesco, realçado pelo “som direto”. Esta característica ressalta a qualidade das canções e das nuances das texturas percussivas. Variação de arranjos e incremento da qualidade de gravação abrem a perspectiva de que o Konono N°1 possa nos oferecer ainda mais.

As oito faixas Assume Crash Position são bastante diferentes entre si. “Wunbanzanga” e “Mama Na Bana” poderiam constar no álbum anterior, mas percebe-se uma concepção mais arrojada, determinada sobretudo pelo equilíbrio entre instrumentos percussivos e melódicos. Mas a dobradinha “Guiyome”/”Konono Wa Wa Wa” e “Makembe” demonstram mais intencionalidade em relação a Congotronics. “Makembe” inclui ambiência, vozes de crianças e pessoas conversando, a percussão entra, os cantores entoam seus refrões baseados no jogo de pergunta e resposta, mas lá pela metade a textura percussiva é alterada consideravelmente, com a inclusão de uma tarol. As sucessivas alterações da textura percussiva de “Guiyome”/”Konono Wa Wa Wa” também atestam a tendência do grupo em enriquecer sua sonoridade – reparem no refrão arrepiante de “Konono Wa Wa Wa” e nos efeitos de kalimba lá pelos quatro minutos. “Fula Fula” é um bom exemplo desta disposição: uma faixa instrumental que conta com solfejos do cantor Ewing Sima, e que aposta na estrutura seca e eletrizante formada por percussões de aço, apitos e kalimbas distorcidas. Já a canção que encerra o álbum, a introspectiva “Nakobala Lisusu Te”, de uma beleza espantosa, é composta somente por kalimba e voz. Também digna de nota é a guitarra de Nzila Mabasukisa, costurando melodias por entre a cascata harmônica das kalimbas.

“Somos uma banda de festa.” A frase proferida por Sima, na ótima matéria da Wire de abril, não poderia ser mais justa e relevante. O aspecto sonoro extático que sobressaía em Congotronics, se configurava como uma novidade estimulante, não obstante transparecesse também um formato rarefeito – a recorrência da introdução melódica, o ritmo prolongado a todas as faixas, a timbragem. É perceptível, no entanto, que Assume Crash Position demonstra que o Konono N°1 está para além do rótulo “banda de festa”, pois as mudanças bruscas de humor e a inteligência da roupagem fazem deste álbum uma das experiência sonoras mais exuberantes de 2010. (Bernardo Oliveira)

* # *

Congotronics Vol. 1 era um furacão. O primeiro disco do longevo grupo Konono Nº1 parecia englobar toda a vibração concentrada das dezenas de anos de carreira dos artistas e canalizá-la em frenéticas faixas de altíssimo andamento e performances vocais carregadas de força telúrica. “Lufuala Ndonga”, carro-chefe do primeiro álbum do grupo, exemplifica perfeitamente toda a beleza sensual do som do Konono, com dinâmicas de canto em chamada e resposta, andamento rápido, percussão nervosa e a pedra de toque, os likembés que davam o tal toque especial até então inaudito. O furacão tinha uma beleza tão direta, frontal, voluptuosa, que era impossível não se deixar levar e querer mais.

É aí que entra o segundo disco, Assume Crash Position. Encontraremos nele o mesmo Konono nº1 do disco anterior? Não e sim. Mas muito mais sim. Sim porque o som do Konono é um som absolutamente individualizado, que se reconhece imediatamente desde que começa, com sua alegria contagiante, com seu chamado irresistível à dança, com seus suingues fortemente sincopados. Todas essas características reaparecem em toda sua exuberância em Assume Crash Position. Isso faz com que tenhamos uma coleção de “Lufuala Ndonga” nº 2, 3, 4 etc.? Aí entra o “não”. O furacão é ligeiramente amainado, menos na pressão do que na estruturação mais espaçosa das composições, que permitem vir à tona um número maior de nuances e detalhes. Não que o Konono precise se renovar: se eles quiserem, eles podem fazer quinze mil vezes o mesmo disco que, existindo a mesma pressão e sensualidade sonora do primeiro, os quinze mil serão maravilhosos. O que está em jogo é menos o novidadismo do que a vontade de dar vazão a outras facetas, talvez menos óbvias, dentro do repertório do grupo. É um pouco como sair de Pink Flag para Chairs Missing.

Essa vontade de mostrar novas facetas pode ser encontrada nas faixas atípicas, como a batuqueira de “Thin Legs” e a linda “Nakobala Lisusu Te”, feita exclusivamente de kalimba não-eletrificada e voz feminina. Mas ela vai além disso e se estende por todo o álbum, com vocalizações mais melodiosas (menos “Chuck D”, por assim dizer) e maior refinamento na instrumentação, como a deliciosa guitarra de “Wumbanzanga”, os likembés com pedais de “Konono Wa Wa Wa” e a bateria de “Fula Fula”. Em time que está ganhando não se mexe? Konono faz melhor: mexe e o time joga mais cadenciado, evitando definitivamente os maldosos detratores que os consideram como um samba de uma nota só. Assume Crash Position, claro, não é o choque absurdo e enigmático que foi entrar em contato com Congotronics Vol. 1 (como poderia ser?), mas mantém tranquilamente o estatuto do grupo do sr. Mawangu Mingiedi como aquele que produz a música mais frontalmente bela, pulsante e irresistivelmente dançante da atualidade. Fazia sentido, depois de “Zombie”, pedir que Fela Kuti fizesse outro tipo de música? Pois é. O negócio é se deliciar com mais uma coleção deliciosa de pérolas que o Konono traz tão graciosamente para nós. (Ruy Gardnier)

* # *

A grande questão que encontro com Konono Nº 1 está menos em sua música que na recepção fora da África após 2004. De um lado temos aqueles que celebram a música como mais um glorioso exemplo do continente em produzir música exuberante e dançante, música ‘autêntica’ e tal, mas que deixa evidente um interesse muito mais etnográfico que musical, quer dizer uma certa condescendência ao exotismo. De outro lado teríamos aqueles que a deixam de lado por acreditar se tratar de música tosca, pouco sofisticada, repetitiva… repetição que é genialidade na obra do LCD Soundsystem, por exemplo, e é pobreza na música dos africanos ingênuos. De uma forma ou de outra a música é tratada como algo inferior e até grosseiro, no máximo, uma raiz.

Claro, existem diversas outras formas de preguiça ao se analisar outras expressões artísticas, mas o que chama atenção é o pouco valor que um dos mais originais grupos que temos a oportunidade de ouvir em seu pleno vigor é tratado. A ‘explicação’ de sua música não é reduzida aos padrões usuais para a música africana, mesmo partindo do pressuposto de que falemos de audição preocupada. A música do Konono também não se reduz ao choque entre as raízes africanas e as influências europeias/americanos, existe algo ali que vemos pouco, existe invenção e depuração de uma estética durante mais de quatro décadas.

Quando falo de invenção e depuração não penso apenas nos instrumentos pouco usuais, ou no uso peculiar de instrumentos de fama local. Falo de algo mais sofisticado, que vai além da sensibilidade de uma cultura. Sim, aqui temos a mbira fabulosa que não encontraremos em muitos outros lugares, temos uma percussão de energia fabulosa, apenas rivalizada pelos vocais que possuem tanta força que superam as barreiras da língua, mas também temos uma lucidez estética que não surge de forma espontânea. Tal lucidez fica ainda mais evidente nesse ‘Assume Crash Position’ que escolher perder um pouco de sua explosão em benefício de clareza. A música respira melhor e cada um de seus elementos ganha espaço. O fruição extasiada dá lugar a uma contemplação (é possivel uma contemplação dançante?!?) repleta de alegria. Mudanças sensíveis, mas não radicais, que apenas estetas muito seguros podem realizar.

Talvez seja essa a maior exigência dessa música fácil de apaixonar, não perder as nuances em meio a tanta intensidade. Não se ater a padrões fáceis. O resto está gloriosamente ali. (Marcus Martins)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: