Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Moritz Von Oswald Trio, Keith Fullerton Whitman, Bora Yoon, DJ Eric Coutier (03/06/2010, Warsaw, Nova Iorque)

Uma metáfora pregnante sobre a arte contemporânea poderia descrever o artista como um escultor diante do torno. Alguns se preocupam em trazer à tona o produto final e acabado de seu trabalho. Outros preferem lançar luzes sobre o fazer, ou melhor, o “fazendo” da obra. É bem verdade que a segunda modalidade é essencialmente musical. As outras artes, particularmente os happenings, o teatro e a literatura, também possuem o poder de evocar o processo como tema central, mas nada como o jazz e a música improvisada de uma forma geral para representar este culto do procedimento, o que em outros artigos chamei “música de procedimentos”. Os respectivos trabalhos de Moritz Von Oswald e Keith Fullerton Whitman, indicam dois artistas plenamente identificados com a música de procedimentos, dispostos a iluminá-la quase como uma profissão de fé. O resultado deleita, mas também intriga: o que é fundamental nesta experiência, a realização ou o processo?

Com sua barba característica e um clima austero de “artista experimental”, Whitman sobre ao palco para uma performance de vinte minutos, tempo suficiente para que ele pavimente um caminho repleto de sutilezas, que conduz do drone diáfano ao noise mais rascante. As alterações dos harmônicos iniciais permitem entrever a técnica utilizada, os canais sonoros abertos enquanto Whitman manipula a mesa à moda dos grandes artesãos do dub. Aos poucos ele vai abrindo e fechando canais, aplicando efeitos, soltando novos sons, até atingir uma pletora de ruídos e chiados os mais assustadores. A imagem monástica de Whitman contrasta com o encerramento apoteótico que ele promove. Alguns minutos depois de sua despedida, Moritz Von Oswald Trio dá a partida para uma hora contínua de música improvisada. A formação é interessante: no set de percussões, Sasu Ripatti (aka Luomo, Vladislav Delay), conectado à parafernália eletrônica controlada por Max Loderbauer e pelo próprio Moritz, que manipula também o teclado. A base de toda a improvisação é o techno, mas o barato está justamente no modo como eles deslocam as batidas, recriando os padrões deste gênero problemático por sua aridez, e trazendo à tona uma série de nuances funky, reggae e até mesmo drone. O público, composto por pouco mais de cem pessoas, responde à alternância de climas com urros e aplausos em cena aberta, o que confere à apresentação um clima de apreensão pelo que virá. Clima este que, aliás, perdurou em todo o evento.

Mas é justamente esta a característica central da música que valoriza o processo: a apreensão, a valorização da surpresa e, do ponto de vista do artista, da pesquisa. Ela pode até levar ao paradoxo, na medida em que sempre nos perguntaremos se o próprio processo é o produto final, ou só haveria um produto final acabado se a experiência for registrada. Whitman e o trio jazzy de Von Oswald oferecem, cada um a seu modo, uma resposta suficiente, que resumirei lançando mão de outra metáfora: trata-se uma estrada sem destino, na qual o prazer do andarilho é a caminhada. (Bernardo Oliveira)

Foto: Mariana Mansur

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