Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Guizado – Calavera (2010; Trama/Punx Records, Brasil)

Na sequência de Punx, lançado em 2008, o trumpetista paulistano Guilherme Mendonça chega ao segundo álbum do seu projeto Guizado. Tendo como banda de base o trio Rian Batista no baixo, Curumin na bateria e Régis Damasceno nas guitarras, Calavera foi lançado esse mês e traz uma novidade: seis das onze faixas do disco são canções, cantadas pelo próprio autor. (B.O.)

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No release de Calavera, Guilherme Mendonça afirma que em Punx tratava-se de “reproduzir em estúdio a energia de apresentações ao vivo”. É verdade: “Afroka”, “Rinkisha”, “Vermelho” eram ao mesmo tempo adoráveis, ternas, mas executadas com punch e vigor ímpares no cenário instrumental. Soava como uma experiência ao vivo mesmo, muito bem sucedida. Camarilhamos o álbum, todas as resenhas mundo afora favoráveis, Guizado passou a correr como um dos segredos mais bem guardados da música brasileira.

Corta para sexta-feira, dia 17 de abril de 2009, Circo Voador.

Show de abertura para o Nação Zumbi, junto a outro bom segredo, o interestadual Turbo Trio. Surpresa número um: músicas cantadas. Surpresa número dois: sonoridades mais roqueiras e um tanto quanto complacentes. O que teria acontecido? A maldade que corre nas minha veias pensou de tudo, até umas duas semanas atrás, quando escutei Calavera. Observa-se primeiramente que o equilíbrio entre canções e faixas instrumentais indica que a mudança de rumo do Guizado destila nuances que aquele show jamais poderia fazer supor. Não que o show tivesse sido fraco, pelo contrário. Mas a surpresa nem sempre induz à observação aguçada. Diante da alteração demonstrada no show do Circo, resolvi me ater à comparação com Punx, e o veredito não poderia ser outro se não uma leve decepção.

Inclusive porque as faixas instrumentais (a saber, “Asfalto Quente”, “Emanação dos Sonhos”, “Rolê Beleza”, “Calavera” e “Wow!”), são diferentes em muitos aspectos das de Punx, por sua vez mais secas e diretas. E aí percebi que a inclusão de canções era apenas parte de uma alteração de cunho geral. Calavera é extensão e ampliação de muitas boas idéias destiladas no primeiro álbum.  Extensão porque “Wow!” e “Asfalto Quente” poderiam perfeitamente figurar no repertório de Punx, embora me pareçam mais complexas e bem estruturadas. Mas é também um passo à frente pela incorporação mais ousada das escalas de música flamenca (ou árabe, talvez), nos exuberantes naipes de metais, como em “Calavera” e na belíssima “Mais além”. Passo à frente pela prodigiosa mistura de ritmos, plenamente adequadas às canções ou aos grooves, como na faixa de abertura, a futurista “Amplidão”, ou na faixa mais instável do disco, “Emanação dos Sonhos”, parceria com Maurício Takara, mistura vertiginosa de candombe, ciranda, indie lo-fi, música eletrônica…

Sobre as canções? Bem, me parece indubitável que estamos diante de um repertório muito particular, repleto de canções bem construídas e eventualmente ganchudas – que ficam ainda mais interessantes se as compararmos com o repertório de alguns compositores da atual autoproclamada MPB. Duas observações sobre as letras. Primeiro, elas parecem funcionar musicalmente, o sentido obedece mais à lógica da canção do que ao sentido poético, por assim dizer. Ao mesmo tempo, podemos apontar uma temática meio psicodélica, meio praiana à la Caymmi (“O mar esconde um lugar, que está lá pra chegar, como em qualquer lugar” em “O Marisco”) Destaco também a pop “Skate Phaser”, “Amplidão” e “Girando”.

Experiências relevantes e inspiradas com ritmos, harmonias, melodias, canções, faixas instrumentais, muitas sonoridades pouco usuais na música instrumental brasileira, mas também na seara da canção. Calavera não é, defintivamente, um disco simples. É preciso, pois, mergulhar em sua riqueza, esmiuçá-lo faixa a faixa, procurar o que ele representa no trabalho deste músico que, sem dúvida nenhuma, veio para ficar. (Bernardo Oliveira)

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Há dois meses comentávamos o disco Foundation, do Breakage. É um disco de um produtor de música eletrônica que trabalha principalmente com música instrumental, mas que nesse disco se aventurou a convidar alguns cantores para interpretar algumas faixas. As canções acabaram sendo o que há de menos interessante no disco. Qual é a moral da história? Músico instrumental não sabe trabalhar com canção? Nada disso. A moral da história é que se você é um bom músico trabalhando com música instrumental, a entrada da voz de um cantor não deve desfigurar a sua maneira de compor e criar arranjos para fazer o vocal reinar em detrimento do acompanhamento. Calavera, segundo disco do Guizado, pode ser mais de 50% cantado, mas Gui Mendonça e sua banda não sucumbiram à moral da história. Ouve-se o disco novo do Guizado em perfeita continuidade com o que o projeto apresentava em Punx. Mudanças, sim, algumas até mesmo significativas, mas um mesmo processo, uma mesma verve, uma mesma sensibilidade. De modo que não vale muito a pena ficar discutindo excessivamente a inserção da voz num projeto até então instrumental: os trechos cantados funcionam mais como mantras do que como canções na estrutura, e no arranjo e na melodia acabam funcionando como um instrumento suplementar. Nada de instância transcendente e centralizadora, pois.

Se há algo que realmente chame a atenção na passagem de Punx a Calavera, é um aspecto mais caloroso e menos cerebral do som. Os breaks e eletrônicos de Punx, mesmo deliciosos, davam um senso de quebra, um prazer que o ouvinte deveria trabalhar para poder lá chegar. Calavera, ao contrário, prefere a fluência e a limpidez, e não à toa traz ao primeiro plano os aspectos de psicodelia, de sensualidade, de malemolência que já estavam no disco anterior, mas dentro de um coquetel de vários outros ingredientes. Calavera tem cara de disco pra se ouvir na praia, juntando a pressão de um Nação Zumbi com o suingue viajandão de um Jorge Ben circa 74 e uma grandiosidade épica de arranjo que evoca John Barry ou Enio Morricone. É invejável a fluidez na passagem de momentos agitados para momentos reflexivos, como testemunha “Girando”, capaz de emendar a dedilhados introspectivos de guitarra à Sonic Youth uma levada disco de bateria com synths e blipzinhos.

Como o título do álbum bem sugere, existe um clima mexicano no disco. Mas esse clima vem unicamente das inflexões do trompete tocando imponente sob andamento lento e criando um clima de solenidade festiva que condiz sobremaneira com o título – “calavera” é caveira em espanhol, e evoca a festiva tradição do dia dos mortos da cultura mexicana, nada fúnebre ou triste. Mas não se pense que o Guizado trabalha aqui algum tipo de “exotismo” vagabundo (alô Beirut): as influências estão perfeitamente entrosadas nas bossas que o grupo trabalha, seja rock, hip-hop ou sambalanço brasileiro. A falta de vergonha em ser lírico e fluido – associada, claro, ao talento – criou algumas das mais memoráveis melodias instrumentais que teremos ouvido nos últimos meses, criando um disco que recompensa a audição atenta pelas muitas minúcias de arranjo e produção, mas que também cativa pelo incrível senso de soberania que vem das melodias (vocais ou não) do som da banda. Calavera retoma toda a eferverscência de Punx e acrescenta ao som da banda uma sensualidade envolvente, característica de boa parte da melhor música que o Brasil já deu ao mundo. Se algum tipo de confirmação era necessária, ela veio com Calavera. Guizado, parada obrigatória na auto-estrada da música de hoje. (Ruy Gardnier)

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Em 2008 o Guizado lançou um dos projetos mais interessantes da música brasileira, veja, não falo da música instrumental brasileira ou da música experimental, falo em geral. No atoleiro de mesmice e replicação, alguém apostava em investigações sonoras curiosas e ainda conseguia estabelecer uma série de diálogos interessantes, um olhar sem os vícios mais comuns dos ‘autores’ locais. Talvez não tenha criado nada de inovador ou assombroso, mas um evidente exercício de estilo concluído com grande habilidade.

Pulamos a 2010 e o novo disco do Guizado é aguardado com expectativa, mesmo que o anterior tenha sido contemplado com repercussão limitada, foi bem ouvido e elogiado, o que certamente despertou o interesse de muita gente dentro e fora do círculo do músico. Talvez surja daí um desejo de diálogo com um círculo maior, fora das restrições da música instrumental e uma das saídas mais comuns é o apelo para o uso de vocais, a famosa guinada pop. Parece que nos últimos anos esse tipo de desvio se tornou comum, diversos artistas que estabeleceram seus nomes com álbuns instrumentais, ou pelo menos sem vocais ‘cantados’, passaram a colaborar com vocalistas, ou, em algumas ocasiões, revelar seus dotes no microfone. O resultado de tais empreitadas e, no mínimo, desiguale na maior parte do tempo, desgraçado.

Não vou perder tempo citando exemplos para dizer que o caso do Guizado recai no inferno das (talvez) boas intenções fracassadas. E pior, não apenas ele não tem o menor talento vocal como ele não conseguiu descobrir um meio de explorar tal possibilidade. Quer dizer, não apenas ele tem sua voz lembra bastante a rudeza de certos vocalistas pernambucanos como não tem a mesma ‘pegada’ destes, juro que na primeira vez que ouvi o disco, achei que se tratava de participação especial bem preguiçosa de algum medalhão indie. Em resumo, ele não sabe cantar e não consegue contornar sua inabilidade como um Jorge Du Peixe.

Ao ouvir o disco fica parecendo que, com os instrumentais já prontos, ele resolveu jogar uns vocais em cima, ou mais grave, sem fazer efetivas modificações em suas estratégias, achou que a pobreza da produção poderia ser maquiada pela ‘novidade’.

Mesmo as modificações mais evidentes me soam mal desenvolvidas. A maior atenção à estrutura das canções, em detrimento das improvisações controladas mostra uma composição que facilmente apela para padrões reconhecíveis, como os da música latina, sem que isso traga nada de interessante a qualquer das partes. Fica a sensação parecida com o post-rock de inflexões latinas dos discos mais chatos do Calexico.

As faixas restantes, mais do mesmo, não salvam o disco. Enfim, além de ficar muito aquém de Punx, Calavera é uma frankenstein que não fica de pé. Uma lástima. (Marcus Martins)

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Publicado às 9 de junho de 2010 por em experimental, funk, jazz, rock e marcado , , .
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