Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Zs – New Slaves (2010; The Social Registry, EUA)

A banda Zs foi formada em 2000 em Nova York e aos poucos ela construiu sua reputação na cena de vanguarda local, apesar de nunca desfrutar da fama de alguns de seus contemporâneos. Ben Greenberg (saxofone), Sam Hillmer (guitarra) e Ian Antonio (bateria) são os membros mais regulares do coletivo que já conta com mais de dez lançamentos entre álbuns, CD-Rs, sete polegadas e um disco de remixes. New Slaves foi lançado em maio de 2010 pelo selo The Social Registry. (MM)

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Composição versus improvisação, capítulo MMDCCXLVIII. De Howard Stern ao ouvinte mais cuidadoso, sempre resta a questão: quanto disso aqui foi composto e quanto foi improvisado? Quanto existe de acidente? É possível uma replicação mais ou menos fidedigna? Desde o surgimento da banda, a música do Zs sempre sugeriu um certo apreço pelo método especulativo. Seus discos sempre parecem tentar estabelecer um diálogo entre a composição de vanguarda, os procedimentos da improvisação mais percussiva e técnicas minimalistas aplicadas de forma a obter um efeito muitas vezes sombrio e até macabro. Repetições exaustivas de células muitas vezes dissonantes de forma que a projeção dessas repetições na duração das faixas crie algo convoluto e instável.

O mais curioso da música do Zs é que sua evolução os posiciona atualmente mais próximos das experimentações do Black Dice que as dos grupos com os quais é usualmente alinhado. Isso se dá por cada vez mais atentarem para os efeitos das dissonâncias e do caráter percussivo de cada um dos instrumentos.

Outro ponto crucial é o apreço do Zs ao ruído que não provém do volume da música nem do uso de feedback, distorções ou outros elementos habituais: seu ruído é gerado pelo que sobra do atrito provocado pelas desconstruções. Enquanto identificamos um ensaio de melodia construído na guitarra, o sax soprano de Greenberg dialoga de forma agressiva (remetendo a Derek Bailey) com a percussão de Antonio. Ponto maior ainda para tornar a música do Zs invulgar e excitante e sustentar seu paralelo com o Black Dice é a constante mutação de suas faixas: quando desconfiamos que eles vão encontrar um groove ou entrar em um loop, sem qualquer brusquidão a faixa é revirada e ganha novos rumos de forma surpreendente e feliz.

New Slaves é daqueles discos que não serve de música de fundo porque não conseguimos estabelecer um simples padrão de reconhecimento na audição. A estranheza é o mote e o álbum a todo o momento desafia e recompensa quem persiste em acompanhar suas inquirições.

Daí vem a impressão (nunca li nenhuma declaração dos integrantes) de que o que ouvimos é detalhadamente escrito e as possíveis variações vêm da própria natureza da música, estridente e agressiva. A idéia é de que eles conseguiram apreender muitas lições da improvisação, especialmente aquela eletro-acústica, e aplicaram a seus métodos de composição. Talvez daí venha o motivo da queixa de muitos: sua música seria muito ‘dura’ pela falta de liberdade. O que acredito ser inexato, pois a própria força da execução supera essa suposta lacuna.

A maior parte das faixas é relativamente curta, mas o que poderíamos chamar de segunda parte do álbum é especialmente desafiador. Consistindo na faixa-título e nos dois atos de “Black Crown Cerimony”, “Diamond Terrifier” e “Six Realms”, temos mais de quarenta minutos que começam com a sensação de escalar uma montanha sem parar para respirar, mas antes de sucumbir somos presenteados com panoramas sonoros tão inauditos que mesmo cansados não nos furtamos de contemplar. A música pode até ser cansativa em alguns momentos, mas a insistência recompensa. “New Slaves”, a faixa, ainda se dá ao perigoso luxo de evocar uma faixa de metal desconstruída, sem perder nenhuma virulência e espantar toda a babaquice que o gênero carrega.

O Zs alcança algo raro: sua música martela o ouvido ao mesmo tempo que é imersiva e envolvente. Seu trovejar nunca é frenético, mas também nunca caótico. Fica mais próximo daquele delírio dos entusiastas dos primórdios da industrialização que sonhavam com uma sinfonia acidental das máquinas. A máquina do Zs nada tem de acidental. Pode até ser música para tocar no hospício, mas apenas porque deve ser necessário um tanto de loucura para criar um delírio tão organizado. (Marcus Martins)

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Inicialmente o que há de mais intrigante em New Slaves é a timbragem dos instrumentos. O modo como eles são executados evoca claramente o manuseio humano, não programado, ao passo que o som que sai dos instrumentos, metálico ao nível do irreconhecível, como se fosse uma orquestra de sucata cibernética, traz à mente uma banda pós-industrial rodeada de computadores ou reprocessadores sonoros. Um pouco como o Black Dice ao vivo. Como o Black Dice, aliás, o Zs de New Slaves trabalha essencialmente com ruídos angulares e muita pressão percussiva. Ao contrário do referido grupo, contudo, as faixas se estruturam menos como composições do que como peças soltas em que ligeiras alterações surgem a partir de padrões rítmicos que servem de amparo. Se a improvisação é um fluxo contínuo, a música de New Slaves é um elogio à estase. Uma estase que, no entanto, pela natureza ruidosa e estridente do som do grupo, não se presta à audição contemplativa ou a um uso ambient. Em todo caso, a repetição produz um indelével efeito, difícil de definir, mas próxima da sensação de ouvir o Neu! em seus momentos mais motorik.

No entanto, New Slaves padece pela falta de um som mais distintivo. As primeiras faixas, ríspidas e angulares, roqueiam com força, mas não há nada nelas propriamente inaudito. Mesmo que sejam faixas curtas, a empolgação pela padronagem rítmica de cada faixa tende a se dissipar depois dos dois minutos. As duas faixas finais, bastante envolventes, seduzem pela sensação de improvisação cadenciada e espaçosa – e também um tanto pelos timbres obtidos -, mas ainda assim não resulta mais que uma sessão bem realizada. O maior interesse do disco acaba sendo a faixa que dá título ao disco, “New Slaves”, um épico de quase 21 minutos que, na contramão do disco, propõe mudanças frequentes nas intervenções rítmicas e melódicas. A faixa, aliás, lembra muito OV, o disco do Orthrelm, com suas viradas de bateria que desencadeiam novos padrões de guitarra e a alternância em linha de padrões repetitivos no limite do extenuante. A graça própria de “New Slaves”, na comparação, é que à mostra de virtuosismo de Mick Barr no Orthrelm se substituem sons mais gratuitos e menos elaborados, dando uma sensação muito mais noise/punk do que o metal vanguardista de OV. Para mal e para bem, New Slaves parece mais o meio do caminho do que o fim de um percurso. (Ruy Gardnier)

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A maioria das resenhas a respeito de New Slaves trazem advertências ao leitor, primeiro em relação às dificuldades que o barulho e a repetição massivas podem apresentar aos ouvidos mais frágeis, segundo quanto à própria natureza desconcertante de suas composições. Dividido em “portraits” e faixas gravadas ao vivo, New Slaves no entanto é coeso, possui um sentido do início ao fim, que é o de explorar densas massas sonoras, eventualmente concatenadas a desconstruções rítmicas. De qualquer forma, podemos separar, por intenção, as cinco primeiras faixas das três últimas. Nas cinco primeiras, Hillmer, Antonio e Ben Greenberg, auxiliados pela guitarra esquisita de Amnon Friedlin, tratam de extrair texturas mais densas e volumosas, particularmente bem sucedidas nas modulações esfareladas de “Concert Black” e na zoeira feérica de “Don’t Touch Me”. Até aí, o disco é instigante, poderoso, mas não é absolutamente brilhante.

O momento genial, que justifica a entrada de New Slaves em qualquer lista de grandes álbuns de 2010, é justamente o que se parece mais com a obra-prima do Orthelm, o já camarilhado OV. A semelhança não depõe contra “New Slaves”, pois a textura flat do início é substituída por uma cadência desconjuntada, que mais demonstra a lógica musical penetrante do grupo do que aquela dicção pétrea que se insinua da massa sonora criada por Josh e Barr. A diferença é que esta faixa é mais estruturada no aspecto rítmico, explorando variações entre o compasso ternário e o famigerado quatro-por-quatro, e uma timbragem extraída da utilização diferenciada dos instrumentos. O resultado é acachapante. Durante a audição, somos tragados por uma força cósmica, uma pletora de ruídos que aos poucos vai adquirindo um aspecto litúrgico, tamanha a concentração que o trio destila em seus vinte minutos.

É um pássaro? É um avião? Não, é o trio novaiorquino Zs, apresentando um dos discos mais desafiadores deste ano. Quem seriam os novos escravos a que o título se refere? Os que, não acompanhando as estratégias estéticas do grupo, buscam o conforto sonoro nas consonâncias e ritmos regulares do pop, do hip hop? Escravos das sonoridades fáceis? Não, muito “fácil”… Os novos escravos somos nós, saborosamente presos a um trabalho cuja única referência próxima é a obra-prima do Orthelm… Em um ano que se mostra cada vez mais diversificado e produtivo para a música, com lançamentos que desafiam o gosto do ouvinte, bem como sua capacidade de transitar por diversas searas da música, New Slaves é uma pérola rara, que flerta com o caos, mas que dispõe de um senso aguçado de disciplina e rigor. (Bernardo Oliveira)

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Um comentário em “Zs – New Slaves (2010; The Social Registry, EUA)

  1. JOSÉ R.
    27 de junho de 2010

    Estimado Marcus: muchas gracias por hacerme conocer una banda como ZS. Como consecuencia, ingresé a youtube, lo que me permitió escuchar algunos de sus trabajos. Si fueras tan amable, podrías recomendarme otros CD´S de ZS? Es que voy a hacer una compra por Amazon, y para aprovechar el pedido, voy a hacerme enviar varios. Nuevamente gracias, y saludos a Bernardo. Se nota que saben mucho de música. Parabéns!! Soy Argentino, pero estoy viviendo en Rio de Janeiro. Cualquier duda con el idioma, avisáme y te escribo en portugués.

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Publicado às 17 de junho de 2010 por em eletroacústica, experimental, noise, vanguarda e marcado , .
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