Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Pole – 1 2 3 (2008 [1998-2000]; ~scape, Alemanha)

Pole é o pseudônimo de Stefan Betke, músico e produtor alemão de música eletrônica. Reza a lenda que a ideia do Pole nasceu quando, em 1996, Betke deixou cair seu filtro analógico Waldorf 4-Pole e o instrumento danificado deu chiados e ruídos curiosos. Em 1998, apareceram os primeiros lançamentos, o 12” Raun Eins/Raum Zwei e o álbum 1. No ano seguinte veio 2 e em 2000 apareceu 3, todos feitos a partir do Waldorf 4-Pole “otimizado”. Os álbuns seguintes, Pole (2003) e Steingarten (2007), apresentam um som menos econômico e abstrato. Stefan Betke é dono da gravadora ~scape, lançando artistas como Jan Jelinek e Kit Clayton, e também trabalha como produtor/masterizador para uma infinidade de artistas de música eletrônica. 1 2 3 é uma compilação dos três primeiros álbuns do Pole. (RG)

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Ao menos no Brasil, o dub techno ainda é um segredo escondido.  São quase vinte anos de história de um subgênero que pode não ser exatamente prolífico, mas que rendeu ao menos três conjuntos massivos de obras que contam entre as coisas mais estimulantes em matéria de música praticada nas últimas décadas. Falo especificamente do Basic Channel (contando aí os projetos associados lançados pela gravadora Chain Reaction), do Pole e do DeepChord. Ao Basic Channel coube o papel pioneiro de desbravar o terreno e criar as linhas básicas do subgênero. O Deepchord levou a economia do dub techno às últimas consequências e hoje, através do Echospace, mais maximalista, mantém acesa com elegância a linhagem. Nessa partilha, que território resta ao Pole, e em especial ao distintivo trabalho (inclusive dentro da própria discografia do projeto) produzido nos álbuns 1, 2 e 3? Há o glitch, sim, mas ele é mais proeminente apenas no primeiro dos álbuns, e por si só não constituiria um grande aporte à linhagem. É mais como o glitch, e os outros elementos, entram nas composições do projeto de Stefan Betke. Porque é uma questão de processo composicional: o Pole é por direito o dub techno mais não-linear, mais intencionalmente solto, aberto, espacial, e consequentemente mais vertiginoso, experimental e psicodélico. Os outros, podemos chamar de hipnóticos, dado o minucioso trabalho com repetição e com alteração de altura de nota. Já o Pole é labiríntico: os andamentos lentos, a frequente ausência de marcação percussiva, a economia redutiva e a não-linearidade kingtubbiana fazem como que nos sintamos perdidos entre as células sonoras das faixas, e mesmo que essas células se repitam, a incidência delas jamais é previsível, e sempre nos impressiona como um dado novo.

Pela negação, o que mais chama a atenção no som do Pole é a ausência do pulso contratempo/caixa/bumbo. Isso faz com que o “som padrão” do Pole, se é possível intuir algo do tipo, sejam linhas massivas de subgrave – essas sim bem marcadas –, fragmentos “melódicos” e blips/chiados que parecem flutuar sobre nossas cabeças. O resultado disso é que as linhas de subgrave, preenchendo quase sozinhas as molduras rítmicas e sem concorrer com as frequências graves do bumbo, acabam soando mais robustas, puras, essenciais, quase inauditas. Se o dub surgiu na mesa de mixagem despindo as canções e deixando-as apenas com bateria e baixo (“drum and bass”) e usando fragmentos de acompanhamentos como brutais ataques não-lineares, como que gratuitos no seio da progressão da composição, o Pole radicaliza o processo e elimina o papel da bateria, fazendo do baixo o único elemento de base, e dos glitches ou fragmentos melódicos (ou “de função” melódica) os acompanhamentos.

De toda a gama de artistas de dub techno, o Pole é também o que mais se parece com o dub praticado pelos produtores de reggae (e isso antes do Rhythm & Sound ter dado as caras, vale a pena dizer). Muito por conta do andamento desacelerado, muito pela ausência dos padrões de bateria eletrônica, mas essencialmente pelas linhas de baixo insinuantes (quase calorosas, dir-se-ia) e pela similaridade de procedimentos ao fazer “mau uso” da aparelhagem para a confecção de sonoridades diferenciadas. Ainda que a depuração e boa partte do conceito derivem inegavelmente do Basic Channel e dos artistas da Chain Reaction, a música do Pole parece, por outro lado, ter surgido simplesmente como uma continuação lógica do dub jamaicano dos anos 70-80.

1 2 3 merece ser ouvido inteiro porque o nível de todos os discos é altíssimo. Ainda que para os padrões convencionais de audição as faixas se pareçam, cada composição trilha territórios individuais, tem incríveis invenções de timbre e construção, e nenhuma está ali para encher linguiça. Há uma mudança sensível porém discreta que se processa a cada disco, indo do mais glitchy, austero e abstrato para uma linguagem mais direta, que privilegia mais o groove (mas ainda assim há anos luz de música de pista – isso Betke só viria a fazer nos últimos anos). Pelo perfeito equilíbrio entre calor e cerebralidade, e pela arrebatadora “Fahren”, que inicia o disco, fiquemos com 2 como o campeão, resguardando sempre o caráter essencial de todos os três discos presentes nesse box set. Vida longa ao Pole. (Ruy Gardnier)

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Grosso modo, o caso de Stefan Bethke e do Pole é o de uma antecipação do dubstep e da lapidação muito pessoal de uma das formas musicais mais interessantes da atualidade, o dubtechno. Reunindo esses três álbuns em conjunto, o autor se mostra consciente das peculiaridades da obra, sublinhando suas linhas gerais. Como os quatro volumes do Gas, que apesar de diferentes sob diversos aspectos, se assemelham por uma espécie de armadura conceitual, os três volumes do Pole, mesmo acrescidos por bonus tracks, se apresentam como uma só e mesma inflexão. Mas, para além da importância e da influência, convém ressaltar a atualidade e o imenso prazer que sua audição ainda provoca.

O Pole trabalha o dub de uma forma diferenciada, valorizando o clima soturno e se valendo de uma estruturas de composição calcada na repetição e na decomposição rítmica. Não conta com a marcação límpida da bateria, como ocorre no primo-irmão Rhythm & Sound, mas com uma diversidade de texturas que apenas sugerem o andamento. Porém, é o inusitado conjunto de timbres e texturas que garante a originalidade das faixas, particularmente o grave proeminente e a prodigiosa inserção dos clicks. A aplicação dos clicks, inclusive,  soa como uma espécie de consequência inevitável do papel que os efeitos desempenham no dub, combinadas também a preocupações laterais, como a valorização do timbre, a preocupação com a ampliação do espaço sonoro, a atitude prosaica da música concreta, etc. Estes elementos podem ser encontrado por todos o trabalho, mas também em breves momentos e timbres particulares. Faixas, momentos, timbres, sons isolados: Pole também pode ser analisado em uma decupagem perspectiva, caminho pelo qual sua audição pode se tornar ainda mais provocante.

As linhas de contrabaixo de “Fliegen”, o amálgama de estalos e ruídos de “Taxi”, os chocalhos digitais que encerram “Paula”, os timbres fantasmagóricos do reggae impressionista de “Weit”, os jogo de delays em “Strand”… Impossível negar a importância do trabalho de Stefan Bethke na escala da música eletrônica atual, sua atualidade é evidente. Por outro lado, vale considerar que Pole continua mais vivo no trabalho de Deepchord, Shackleton e Peverelist, do dubtechno em geral, até mais do que no seu próprio, atualmente direcionado mais à discotecagem.

Algumas obras de arte se destacam do todo de tão estranhas em relação ao que vinha se fazendo até então. Acabam se tornando forte referência entre os artistas de futuro, mas às vezes seu próprio trabalho prescreve. A cena eletrônica está repleta de exemplos deste tipo, como EL-B. Eles chegam a constituir uma espécie de segredo, intacto e bem guardado, ao redor dos quais orbitam as novas gerações, que por sua vez constituem outros cânones, trazendo outros artistas para a sua órbita e assim por diante, conforme uma infinidade de nuances, combinações, superposições. Mesmo levando em consideração o espectro de influência de Bethke, limitado a uma pequena faixa de interesse, estes três discos em conjunto mostram que sua obra é tão vigorosa que ela mesma ainda soa como nova. Antes de antecipar uma era, e independentemente dela, a importância desses discos vem de sua beleza, estranha e inesgotável. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 24 de junho de 2010 por em dub, eletrônica e marcado , , , .
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