Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Zeena Parkins – Between the Whiles (2010; Table of the Elements, EUA)

Zeena Parkins é uma harpista norteamericana (Detroit, 1956) formada no Bard College, estado de Nova York, e presente na cena experimental novaiorquina desde meados dos anos 80. Participou de grupos como News From Babel, com Chris Cutler, e Skeleton Crew, com Fred Frith, e colaborou ao longo de sua carreira com John Zorn, Elliott Sharp, Christian Marclay, Yoko Ono, Butch Morris, Ikue More, Matmos, entre outros. Seu primeiro álbum solo é Something Out There, de 1987. Seu disco mais conhecido é Nightmare Alley, primeiro lançamento da harpista pelo selo Table of the Elements, em 1993. Parkins também lançou discos pelas gravadoras Tzadik, Atavistic e Mego, entre outras. Between the Whiles é seu nono álbum solo. (RG)

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Quando se fala de Zeena Parkins, não existe outra coisa a ser dita em primeiro lugar: trata-se de uma das mais brutais reinvenções de um instrumento musical. Uma reinvenção que não passa pelo simples fato de eletrificar seu instrumento e utilizar técnicas de distorção a partir da amplificação, como feedback, passagem por filtros etc. Passa por uma destreza no tocar que está às antípodas dos usos tradicionais do instrumento e da delicadeza “angelical” que frequentemente lhe é atribuída. Parkins é capaz de fazer múltiplos usos da harpa que vão desde o improv incendiário com ruídos abrasivos até a pesquisa de tonalidades que a aproxima da música eletroacústica. Assim, tanto nas sonoridades retiradas do instrumento como em sua execução, a música de Zeena Parkins soa como um objeto sobrenatural, algo que vem sabe-se lá de onde, soando por vezes simultaneamente como uma guitarra elétrica, uma cítara ou um alaúde.

Between the Whiles dá continuidade à carreira solo de Zeena Parkins sem muitos solavancos ou modificações. O alto nível de pesquisa timbrística e a experimentação com diversos instrumentos em estruturas e dinâmicas inesperadas também não é novidade na obra solo da harpista, mas é impossível não se impressionar com a versatilidade na criação de formas sonoras a partir de ideias muito diferentes umas das outras mas ainda assim mantendo um forte grau de coerência. “Glass” abre o disco como se fosse uma parceria de Keith Fullerton Whitman com Maja Ratkje, aproveitando a pureza timbrística das texturas do artista americano e o senso de variação da compositora norueguesa. Aqui, ao contrário da instrumentista, reina o aspecto de compositora de Parkins, com arranjo de harpa, eletrônicos e harmônica de vidro (e talvez mais coisa: nos créditos consta que Parkins toca também papel (!), garrafa, memory moog, harpa, harpa eletrificada, gaita…). “Vibratory” vai para outro caminho absolutamente diferente em atmosfera, com uma peça solo de harpa distorcida que começa como os doces dedilhados em estranha afinação dos momentos delicados do Sonic Youth e termina como uma explosão de distorções e erupções que soam como Kevin Drumm coverizando o hino americano à Jimi Hendrix. Absolutamente devastador. “Inyoufrom” é o único momento do disco em que a harpa não-eletrificada está no centro da peça, mas tudo que a perdemos em originalidade de timbre ganhamos na atmosfera de suave ameaça que transparece através dos discretos toques da corda do instrumento. “Gold”, a faixa mais colaborativa do disco, conta com os Thin Man Dancers fazendo respiração, Jim Pugliese na percussão e Sara Parkins no violino, e recentra o disco mais em aspecto composicional do que em matéria improvisada. “Wire”, um dos destaques do disco, começa como um diálogo de bêbados entre o que parecem ser duas gaitas de fole soando claudicantemente em frequências próximas da escaleta, depois algumas alguns tons sozinhos passam a manter-se por mais segundos que o costumeiro, e enfim Parkins pega novamente sua harpa eletrificada e quebra tudo em modo abrasivo. “Jumping Juggling” retoma o clima de docilidade soturna que pontua a maior parte dos sons do disco, com eletrônicos, sinos tubulares, harpa especialmente metalizada/alienígena e uma ou outra intervenção agressiva de timbal. “Bubble” é de longe a peça mais orientalizada e eletroacústica do disco, bebendo das repetições sinuosas da vanguarda americana (LaMonte Young, Steve Reich) e mantendo drones de suspense emoldurados por um padrão de duas notas saídos da harpa enquanto uma gaita solitária faz sem pressa suas evoluções. O nome dela bem poderia ser “Drone Meets Asa-Chang”.

Maja Ratkje, Kevin Drumm, Keith Fullerton Whitman, Asa-Chang… São certamente os nomes de alguns dos artistas de som mais indelevelmente original e desbravador de nosso tempo. Nossas referências a eles não são de modo algum gracejos para chamar a atenção. Se o leitor porventura gostar de algum desses músicos listados, convém correr para ouvir Between the Whiles o mais rápido possível e vivenciar a energia singela, singular e experimentadora que vem da cabeça, do coração e dos dedos de Zeena Parkins. (Ruy Gardnier)

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Os que estão familiarizados com o trabalho e a quantidade de sons que Zeena Parkins é capaz de extrair de sua harpa, não se surpreenderão com Between The Whiles. O mesmo esmero e criatividade demonstrados em álbuns como Necklance e Pan-Acousticon, respectivamente de 2002 e 1999, e se pode até dizer que igualmente poderosos. Podemos também reconhecer um traço distintivo na obra de Parkins, que me chamou atenção particularmente em Between the Whiles, que é a orientação especificamente dramática impressa na alternância de climas e texturas. Pudera. Seu trabalho vem sendo utilizado por coreógrafos como acompanhamento, algumas vezes composto especificamente para seus balés, como no caso de Necklace, para a Compagnie Sui-Generis de Emmanuelle Vo-Dinh. Mas o conjunto da obra, levando em conta a variedade de colaborações e trabalhos realizados para teatro e dança, nos faz supor que, para além dos requisitos que o trilheiro deve cumprir para entrelaçar os sons e o drama, a música de Parkins extrapola a encomenda e acaba por manifestar um senso de dramaticidade incomum na música instrumental. Por outro lado, se pode afirmar também que, mesmo sendo composta para espetáculos de dança – no caso, de Vo-Dinh e John Jasperse – esta música possui uma evidente autonomia em relação a seus propósitos dramáticos. Basta escutarmos a construção rigorosa de “Glass”, para nos perguntarmos se se trata de uma composição propriamente dita ou de obra improvisada ao sabor de alguma cena, devido a sua estrutura errante e sensível a mudanças. “Vibratory”, a faixa seguinte, alterna um dedilhado grave com noise do mais irascível, enquanto “Wire” e “Bubble” mantém um diálogo mais acentuado com a música erudita contemporânea, particularmente com a música eletroacústica. Se essa quantidade de variações pode indicar, por um lado, a busca pelos sons mais adequados, por outro, livres que estamos das coreografias, podemos simplesmente fruí-las como peças independentes de um vocabulário musical desbravador. Por este caráter dramático, mas ao mesmo tempo, atento a tarefa de descobrir sons e combinações, Between the Whiles é em 2010, o que foi Black Telephone of Matter, de Mika Vainio, em 2009: uma pletora de ruídos, manipulados de forma a esgarçar os limites da composição musical. (Bernardo Oliveira)

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3 comentários em “Zeena Parkins – Between the Whiles (2010; Table of the Elements, EUA)

  1. JOSÉ R.
    29 de junho de 2010

    me gustó la nota. Zeena Parkins tiene algo que ver con Andrea Parkins (otra excelente instrumentista). Gracias.

  2. Guilherme
    1 de julho de 2010

    gostaria muito de ouvir isso. procurei, procurei e não achei pra baixar.
    por acaso vcs não tem um linkzinho aí não? hehe
    procuro sempre ler o que vcs tem a dizer e encontro coisas interessantíssimas aqui. parabéns pelo blog!

  3. bernardo
    1 de julho de 2010

    Catei aqui e realmente não tem nenhum link, mas vc pode encontrar facilmente no soulseek…

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Publicado às 24 de junho de 2010 por em eletroacústica, experimental, improv e marcado , .
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