Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

M. Takara 3 – Sobre Todas e Qualquer Coisa (2010; Desmonta Discos, Brasil)

Percussionista, produtor, compositor, cantor, manipulador de samplers, sintetizadores e efeitos, o paulistano Maurício Takara é um dos nomes mais importantes da música brasileira na atualidade. Além de seu projetos solo M. Takara 3 (com Richard Ribeiro e Rogério Martins), Takara integra bandas como o Hurtmold, Instituto e São Paulo Underground, além de participar em shows e álbuns de Otto, Cidadão Instigado, Xis, Nação Zumbi, Naná Vasconcelos, Damo Suzuki, Scotty Hard, entre outros. Sobre Todas e Qualquer Coisa é seu quarto seu quarto álbum, sem contar o ep Ocupado como gado com nada pra fazer. (B.O.)

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Quando o som que sai das caixas conduz o ouvinte a um estado contemplativo onde não importa quem toca o quê, se é influenciado por tal ou tal compositor, se se trata de música brasileira, hindu, whatever… Quando toda e qualquer comparação deixa de fazer sentido, denunciando apenas que o que mais desejamos é alguma referência, alguma bóia no meio do oceano que transmita um mínimo de conforto e segurança… Bem, neste exato momento você, como eu, tem a plena certeza que está diante de algo que deve, antes de mais nada, ser usufruído, admirado, algo que abre a percepção para o deleite e que, em muitos aspectos, conduz a um estado que se opõe a toda e qualquer racionalização. Talvez… Não, com toda certeza, este é um dos limites da crítica: elogiar é tarefa mais complexa que apontar defeitos. Desarmado o espírito, toda e qualquer forma de reflexão se encontra momentaneamente suspensa. Ao que tudo indica, este é o caso de Sobre Todas e Qualquer Coisa, que pode ser considerado o trabalho chave da carreira de Maurício Takara, mas também para quem quiser entender a dinâmica da produção musical nos dias de hoje. Não que a palavra “música” seja um conceito fechado, que o crítico, com suas ferramentas teóricas, desconstrói, isolando alguns artistas especiais da grande massa de artistas regulares ou irrelevantes. É claro que algumas sonoridades acabam sobressaindo como espécimes raras em relação ao contexto. Não importa, portanto, comparar o trabalho do M. Takara 3 com o Four Tet, com o Black Dice e até mesmo com o Hurtmold. Desta forma, o elogio é um exercício simplório que, num arroubo de autocrítica, admito exercer algumas vezes por esta Camarilha de Deus…

O título do álbum indica um caminho: “sobre todas as coisas”, sobre a capacidade de absorver as ondas múltiplas que sobrepõem-se no cenário musical, mas também nutrir uma atitude saudável perante o caso específico, o caso único, aqueles que produzem a diferença. Ao mesmo tempo, “sobre toda” e “qualquer coisa” no mesmo período, pois não se trata de um manancial de influências sintetizadas, mas uma síntese que é faceta autônoma, que até mesmo ultrapassa as tais “possibilidades” trazidas pelos ventos do norte. A música feita no Brasil, sobretudo a que dialoga abertamente com a música americana e inglesa, sempre foi encarada como “mistura”. Mas esta separação não parece fazer sentido, levando em consideração que em toda mistura, dois ou mais elementos diversos são combinados, o que não é o caso. Esses barulhinhos eletrônicos, essa polirritmia, o caráter de estranheza das combinações de timbres, as melodias esquisitas, orientalizadas, o vocal meio largado, e até um sotaque eventualmente acessível de “Na Avenida” e “O Rei da Cocada”:  o que se ouve nos instrumentais e canções de Sobre todas… é resultado de pesquisas desenvovidas por mais de dez anos, que antes, de fato, lembravam células e estratégias cunhadas por nomes como Rob Mazurek e Kieran Hebden, mas que hoje se apresentam com uma força própria. Que força é essa, de onde vem, é o que menos importa.

Uma voz interna poderia dizer: “todas as faixas são arrebatadoras e, ao contrário dos discos anteriores, fazem sentido por toda a audição, se reúnem em um conceito próprio e únivoco.” Esta seria a voz daquele que, como eu, simplesmente confirmou e extrapolou suas perspectivas (sim, os discos anteriores não me pareciam conceitualmente bem acabados). Mas basta ouvir “Eu não”, com sua melodia melancólica e aquelas palmas preciosas, combinadas à percussão econômica e inteligente, ou os jogos de efeitos de “Repito” e a “gagueira” de “Anticope”, para chegarmos a conclusão de que Sobre todas… confirma a proeminência de Maurício Takara na criação de uma música nova, com personalidade independente e, em certa medida, brasileira. Um ar de laboratório, terreiro de samba, música urbana, protótipos sonoros, sonoridades fake, levadas de som roqueiras, sutilezas eletrônicas, surrealismo, coros inusitados e o emprego prodigioso das vozes. Sobre todas e qualquer coisa termina com um funk árabo-serial (rs), “Pelos Cantos”, e o título, mais uma vez, me fornece a senha: pelos cantos, porque é a ciência o mote, é a experiência quem manda, porque a rua anda cheia demais, barulhenta demais… (Bernardo Oliveira)

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Richard Hell já nos contava nos idos dos 70 que love comes in spurts… Esse ano, não só o amor como os discos de artistas afins vêm em jatos e azar o nosso para arranjar tempo para ouvir tudo. Primeiro a turminha glitch, Alva Noto, Frank Bretschneider, Oval, Ryoji Ikeda, cada um lança um disco mais ou menos ao mesmo tempo. Depois, vem o pessoal instrumental de São Paulo e faz o mesmo: Bodes & Elefantes, Guizado, M. Takara 3, MDM… Agora, é a Smalltown Supersound que lança de uma vez quatro lançamentos que envolvem Paal Nilssen-Love com outros artistas. É claro que isso pode funcionar – e para muitos acaba funcionando – como um fator desencorajador, fazendo com que se corra atrás de um só, se tanto. Mas para os ansiosos e completistas em geral, talvez funcione como um estímulo, como uma prova. O resultado do final da experiência, mais do que os valores individuais apenas, terminará por permitir julgamentos sobre o panorama existente. No que diz respeito à turma de São Paulo, ouvir conjuntamente esses lançamentos recentes só poderá fornecer um tipo de testemunho: uma incrível vitalidade na produção desses artistas rockjazzísticos que adoram experimentar novos sons e estratégias. O disco de Maurício Takara e seu “+2”, como o do Guizado, alterna as habituais instrumentais com faixas cantadas, e como aconteceu com o Guizado, o produto final não soou como nenhuma traição ou velhacaria palatável, mas apenas como uma possibilidade natural do som dos respectivos grupos, fazendo surgir a voz como apenas mais um instrumento possível entre a gama de sons utilizados.

Sobre Todas e Qualquer Coisa é um disco de baterista, isso está claro desde o princípio. Vê-se de primeira que o coração das composições é rítmico, e que tanto o trabalho de polirritmia quanto a pesquisa de timbres são o que há de mais elaborado no disco. O que não é um demérito: toda a vibração percussiva salta à frente, mas as instâncias melódicas, mesmo que não sejam especialmente marcantes, vêm acrescentar-se às composições fornecendo dinamismo e uma certa sensação de que se está diante de um estranho ritual pagão. É uma música apátrida que em todo caso pertence profundamente ao senso de suingue da música brasileira, ainda que ele aqui esteja associado ao power rock à americana e às improvisações tanto de jazz quanto de eletrônico recentes (difícil não pensar em Steve Reid com Kieran Hebden, mas em outra chave). Poder-se-ia chamar Estudando o Suingue, aproveitando o que Tom Zé fez com o igualmente apátrida Estudando o Samba, ou, mais recentemente, com alguns momentos de The Hips of Tradition (“Tatuarambá”, “Lua-Gira-Sol”). Faixas como “Repito” e “Espelho” em alguns momentos chegam mesmo a lembrar as “Cortinas” instrumentais de Hips. Sobre Todas e Qualquer Coisa soa como se desde sempre tivesse havido uma linhagem prolífica da música instrumental brasileira que não se escondeu na tradição ou no folclore e decidiu ousadamente ver como nosso suingue funciona adicionando sons de outras paragens e tradições.

Músicos jovens com inequívoca pegada rock mas burilando estruturas e sonoridades muito mais vastas em alcance, sem medo de soarem herméticos ou pedantes, porque, muito pelo contrário, há uma jovialidade patente, além de um diálogo com gêneros vibrantes, que fazem remexer tanto o quadril como o cérebro: uma boa definição provisória sobre a turma de São Paulo que tem como centro virtual o Hurtmold. Sobre Todas e Qualquer Coisa pode não ser o instante máximo do que essa patota deu até agora, mas é um belo álbum que se soma à já extensa quantidade de bons discos que faz desse coletivo de músicos, fácil, o celeiro mais fértil em boa música do país. (Ruy Gardnier)

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2 comentários em “M. Takara 3 – Sobre Todas e Qualquer Coisa (2010; Desmonta Discos, Brasil)

  1. Luciano Valério
    13 de julho de 2010

    falou e disse.
    Parabéns pelo trabalho.
    Observativo e positivo.
    Bela descrição.
    Ab.
    Seja sempre bem vindo

    • bernardo
      14 de julho de 2010

      Valeu! Abs

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Publicado às 1 de julho de 2010 por em experimental, jazz, Uncategorized e marcado , , , , .
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