Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

T++ – Wireless (2010; Honest Jon’s, Reino Unido)

Dono do selo DIN e membro do Chain Reaction, Torsten Pröfrock está envolvido na matriz do techno alemão desde o início dos anos de 1990 quando frequentavam a Hard Wax de Moritz Von Oswald em Berlim. Imerso na cena que gerou o fundamental Basic Channel, o meio dos anos 90 viu Pröfrock espalhar a cultura eletrônica adquirida na Hard Wax através de vários projetos pela Chain Reaction. Com o encerramento deste selo, Pröfrock começou a trilhar seu caminho até se deparar com o dubstep e a evolução desse sub-gênero está intimamente refletida na mutação de seu mais recente projeto, o T++, que tem em Wireless seu mais novo e último lançamento. (M.M.)

* # *

Torsten Pröfrock tem certa proeminência no meio techno desde o meio dos anos 90. Fazer parte do seminal Chain Reaction com três de seus projetos (Erosion, Resilent e Various Artists) não é para qualquer um. Suas produções sempre foram impecáveis e alguns dos pontos altos daquele selo tiveram sua participação, mas também, em meio a djs de maior destaque, seu nome sempre podia ser deixado de lado e sua música parecia trazer os mesmos problemas da de seu parceiro Robert ‘Monolake’ Henke: faixas tão preciosas (preciosistas) que deixavam pouco espaço para a criatividade. Eles sempre me pareceram mais artesãos que criadores e isso não é exatamente um demérito. Já perdi dias inteiros ouvindo coletâneas do Chain Reaction e nos últimos anos, o lento gotejar musical do T++ é sempre objeto de grande regozijo e os últimos lançamentos têm sido especialmente excitantes.

Pröfrock parece enfim ter encontrado sua musa quando em 2010 anuncia um lançamento pelo selo Honest Jon’s e que ainda frusta seus fãs informando que aquele será o último disco do T++. Que maneira de matar um projeto!

Acho que não tenho lembrança de algum projeto que termine mostrando uma faceta tão surpreendente e vivaz quanto esse Wireless do T++. muitos terminaram de maneira brilhante, com obras-primas muito superiores, mas nunca como esse pretenso enjambement, pois esperamos que o fim de tal verso já seja o início de um novo projeto.

Em Wireless estão presentes, como no usual, a produção precisa, o grave profundo e os beats duros, mas também um emaranhado de samples esquisitíssimos, cortesia do Honest Jon’s – que tem acesso ao catálogo inesgotável da EMI (o T++ usa samples de disco de 78 rotações de música do leste da África que datam dos anos de 1930, em especial vocais e sons de ndingidi, uma espécie de rabeca de uma única corda).

Pode parecer simples, pode parecer redutor, dizer que sua música sofreu uma tão forte guinada com o mero uso de samples, mas não se trata apenas da utilização dos samples que Pröfrock faz nestas quatro faixas, mas também a forma como ele corta e manipula cada um dos trechos. A habilidade insuspeita dá uma estatura a sua música que parece uma heresia terminar assim um projeto.

Mais curioso ainda é que aqui se fecha o ciclo de influências entre Pröfrock e Shackleton. Se o britânico chegou irremediavelmente próximo do techno nos Three Eps, Pröfrock leva seu T++ a um patamar de excelência no 2-step que em muito supera qualquer praticante ordinário do dubstep. A anulação que eu temia de ambas as vias se mostra aqui distante, o terreno novamente se mostra fértil, não sabemos onde tanto Pröfrock quanto Shackleton vão parar, mas a vontade de acompanhar apenas cresce. Wireless tem apenas vinte e nove minutos de música, mas sua escassa duração é a melhor extração do que ouvi em 2010, talvez apenas James Blake, Actress, Ramadanman e Joy Orbison sejam competição, talvez nem isso.

Aqui as faixas são completamente inquietas, fogem ao controle, não sabemos exatamente o que esperar mesmo com ele lidando sempre com um número restrito de samples. ‘Cropped’ começa o disco de forma sublime, simples e contundente: baixo e a batida bem marcados(2-step clássico), e os samples se misturando de forma ordenada mas sempre instigante, desde já ouvimos algo que não está em qualquer outro lugar da obra de Pröfrock. Mas o doce-de-leite chega mesmo com ‘Anyi’ e pensando nos padrões das faixas de Pröfrock e de onde ele vem, esta segunda faixa é uma verdadeira anarquia. Não apenas temos um uso rico de samples como cada um deles parece corroer a faixa, não fugirei de falar em canibalismo, a fundação da faixa vai sendo as poucos deslocada, abalada. Pröfrock claramente se afasta do dubstep pesado que emula o Basic Channel e se aproxima sem vergonha de Shackleton. Mas o pulo do gato do veterano, que certamente serviu de escola para o britânico, é que suas faixas nunca deixam completamente de lado um suingue febril que Shackleton boa parte das vezes ignora em favor de um cerebralismo teutônico. Eles se cruzam no caminho e justamente por esta sem-vergonhice de reconhecer a influência de quem deveria ser seguidor, Pröfrock sente-se liberado para fazer o que bem entende. O parafuso vai torcendo e as coisas cada vez mais interessantes. Exemplo disso são ‘Voice No Bodies’ e ‘Dig’ que até consigo me imaginar dançando. Aqui se resgata aquilo que o jungle perdeu no caminho antes de ficar estéril. Ele reúne aquilo que fundamentou sua carreira, techno e jungle, e olha para frente sem esquecer o lugar onde está. Põe no mesmo patamar Von Oswald, Shackleton e Ssekinomu, sem condescendência.

Outro ponto à favor de Pröfrock é que ele não se rende à tentação de fazer macumba e usar clichês da percussão africana para jogar para a galera. Também não estamos no terreno da etnomusicologia, viva! Todo o elemento retirado dos samples sempre remete à estranheza daquilo que não faz parte de sua cultura mas o fascina e dialoga com as bases de sua arte. O T++ sempre pareceu questionar a validade de se continuar a tradição do Basic Channel e do Chain Reaction enquanto o Wireless parece colocar todo o procedimento a nu confrontando a solidez do techno com algo que o desestabilize, criticando sua própria música ele constrói algo novo. Isso é raro e para poucos.

Depois de dezenas de discos com os mais diversos projetos, Pröfrock parece ter encontrado onde deixar sua herança. Observando a discografia do T++ podemos perceber um arco que implode próximo a seu fim. Adeus T++, longa vida ao T++. (Marcus Martins)

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Está aí um disquinho difícil de definir em termos de filiação. Considerando do ponto de vista do ritmo e da presença de linhas de subgrave, seria simples: trata-se de um disco de dubstep, porque todas as faixas trazem as síncopes características do 2-step sobre as quais as linhas de baixa frequência evoluem. Mas existe aí uma pegadinha que está no coração de por que Wireless é um diferencial sonoro no meio da produção contemporânea do tal do hardcore continuum: as linhas de grave não propulsionam a batida nem promovem uma complexidade rítmica mais pronunciada, e sim pairam atmosfericamente como uma massa compacta e dura (nuvens de subgrave) pesando e enchendo de pressão as composições. Das quatro faixas de Wireless, apenas “Dig” tem uma relação mais frontal com a pista de dança coesão das partes individuais e andamento. De resto, a sensualidade chacoalhante do 2-step é filtrada por uma sensibilidade mais cerebral, fragmentária e reflexiva, e torna-se a moldura para deliciosos jogos de inserção de samples, que é a natureza original do projeto: uma comanda da gravadora Honest Jon’s para fazer música utilizando samples de voz e ndingidi compilados de discos de 78rpm do leste da África. O resultado é um estranho amálgama de dubstep, dub techno e eletrônica experimental que evoca uma possível mistura entre Autechre, Shackleton, 2562 e Monolake (esse último um projeto de que o titular do T++, Torsten Pröfrock, fazia parte junto com Robert Henke).

“Voices No Bodies” tem uma linha de baixo que fornece bastante espaço para inserções dubby, e evoca sobremaneira faixas de Shackleton como “Shockwave”. “Cropped” tem uma batida que lembra a época em que o hardcore virava jungle, e as inserções entram meio a contrapé, fornecendo efeitos rítmicos bastante interessantes. Mas a campeã desse compacto duplo de 30min é “Anyi”, uma faixa prima-irmã de “Unbalance” do 2562 que funde o 2-step com a cerebralidade rítmica de um Autechre em grande forma, e aí especialmente a inserção dos samples adquire o mais completo sentido e variedade, nem sempre no contrapé nem no espaço correto, mas em todo lugar (uma vez que o ritmo diminui a diferença entre os tempos fracos e fortes e os samples não parecem mais “recortados” no espaço certo ou errado). Reza a lenda que Wireless é o último trabalho que Pröfrock, veterano produtor que vem desde a época do selo Chain Reaction e já teve diversos projetos (Resilent, Erosion, Dynamo, Various Artists), faz com o pseudônimo de T++. É uma pena, porque apesar da qualidade dos singles pregressos e de alguns belos remixes, em especial para STP e Shackleton, Wireless apontava para uma identidade mais focada do projeto, acionando a expectativa para algumas joias a vir. Em todo caso, sigamos a obra de Pröfrock, com o pseudônimo que ele escolher, porque ele merece, (Ruy Gardnier)

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A audição sequenciada dos 12” de Torsten Pröfrock delineia um panorama repleto de alterações, nem sempre radicais, mas significativas. O primeiro, “Aquatic/Storm”, de 2006, pode ser definido como uma combinação atenuada da geografia acidentada do Gas, com o techno do Basic Channel, enquanto a primeira faixa do trabalho seguinte, “Space Pong/Space Break”, do mesmo ano, indica um diálogo mais aberto com o funky, e, porque não, com o miami bass. Já “Allied/Tensile”, de 2007, testemunha a mudança do foco, um gosto mais acentuado pelo ritmo quebrado do UK Garage e do dubstep. Essa mudança tornou o trabalho do T++ mais interessante, mas também põs em dúvida sua autonomia em relação aos grandes produtores. Essa desconfiança foi relativizada diante de dois remixes poderosos para Shackleton, “Vansan” e “Death is not final”, e parcialmente dissolvida pelo aparecimento deste EP de quatro faixas, batizado sugestivamente Wireless. Quatro petardos que decretam a autonomia provisória de Pröfrock, antes enredado nas suas influências (Voigt, Oswald, Shackleton), mas que hoje desponta com alguma personalidade no contexto dos “critical beats”. A cautela nas palavras “alguma”, “parcialmente” e “provisória” se justifica porque, das quatro faixas, apenas “Anyi” não evoca automaticamente a música de Shackleton. É a faixa que mais se destaca nesse sentido, a que mais atinge uma coloração própria, composta por uma batida quebrada, baixo em loop, levemente distorcido, intervenções percussivas inusitadas – uma utilização espertíssima de sons de objetos se quebrando, caindo, se espatifando – e aquele gosto pela repetição que é produto da técnica, da época, do “culture club” e do gosto pelo minimalismo. E talvez aí resida a característica mais interessante de Pröfrock: sua investigação do suingue, a maneira como ele desloca os tempos provocando descompassos rítmicos, acentuados pela volatilidade descontrolada, e eventualmente glitch, dos timbres. Wireless é uma boa e promissora surpresa, mas ainda evoca um sentimento de preparação para uma sonoridade mais pessoal. (Bernardo Carvalho)

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Informação

Publicado em 9 de julho de 2010 por em dubstep, eletrônica.
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