Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Wolf Eyes, Black Dice, Growing (07/07/2010, Secret Project Robot, Nova Iorque)

A vida entre o céu e o inferno, no limite entre o prazer e o sofrimento, ambos elevados à máxima potência.  Se o noise é expressão limítrofe da música, que determina os limites que apontam a música e a não-música, então, os limites foram postos à prova na noite do dia sete de julho. Não se trata apenas de testar o ouvido, mas o corpo: o barulho ameaça a integridade física, o humor, o espírito, a arte, os valores estabelecidos, a própria cultura. No Secret Project Robot, um galpão de médio porte situado em Green Point, no Brooklyn, a sensação era a de um “éden infernal”. Como na canção d’Os Mutantes, às 20h, a temperatura batia, sem exagero, 50 graus centígrados. Para quem, como eu, chegou cedo para assistir a uma verdadeira “santa trindade” do noise e da música experimental eletrônica, não é exagero considerar que havia um ingrediente de superação a mais.  Além do calor infernal e do atraso monumental, ainda havia a expectativa: como será a apresentação do Black Dice? E do Wolf Eyes? Como eles se comportam no palco, que peças manipulam? “A ver”, como gritavam os espanhóis inebriados pela vitória sobre a Alemanha de Klose e Podolvski.

Cerca de 300 pessoas que se abarrotavam no local assistiram o Growing subir ao palco, já com quase duas horas de atraso. O grupo iniciou tocando em alto e bom som as faixas do seu último álbum Pumps. A reação do público me impressionou, acostumado que estou com o caráter cerebral das apresentações noise, sempre manifestando ares de galeria de arte. Pulando e suando como nunca, as pessoas se debatiam diante dos ritmos simpáticos e dos três integrantes, nem tanto. Quarenta minutos depois, o trio se despedia do palco, deixando para trás uma turba de pessoas ensopadas e aparentemente satisfeitas. De minha parte, me admirei pelo fato de que eles não alteraram tanto as composições, a não ser pelo incremento considerável dos volumes. Ao contrário do Black Dice. Criminosos cinquenta minutos depois, o trio novaiorquino subiu ao palco executando o seu rolo compressor de feedbacks, vozes saturadas de efeitos e batidas pulsantes, numa espécie de continuum em que pude identificar trechos de “Nite Creme” e “Roll Up”, entre outras. A apresentação não dura o quanto eu imaginava, mas foi suficiente para compreender que o modus operandi do Black Dice obedece a uma dinâmica de colagem e re-interpretação de seu próprio trabalho, tarefa que eles executam com o primor que eu já supunha. Presumo que seja uma tarefa trabalhosa, motivo pelo qual eles olham para baixo a maioria do tempo e não se relacionam nem um segundo sequer com a platéia ruidosa.

E o Wolf Eyes? Bem, caros amigos, o Wolf Eyes será um fardo que levarei para o resto da vida. Se todo aquele papo do início tem uma função – os limites do corpo, os limites da cultura – é o de justificar o fato de que o meu corpo não aguentou esperar por seis horas em um calor de cinquenta graus, obedecendo ao Capitão Nascimento da consciência e “pedindo para sair”…  Se me arrependo? Claro, mas não adianta chorar. Fiquem portanto com duas matérias, com vídeos e fotos, cobrindo o Black Dice e o Wolf Eyes. Bom show. (Bernardo Oliveira)

Foto: Mariana Mansur.

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Publicado às 10 de julho de 2010 por em ao vivo, eletrônica, experimental, noise e marcado , , , , .
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