Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

White Noise – An Electric Storm (1969; Island, Reino Unido)

O White Noise nasceu depois que o americano David Vorhaus assistiu a uma palestra de Delia Derbyshire, então cientista sonora do BBC Radiophonic Workshop e responsável pelo pioneiro tema musical do programa de tv Dr. Who, e convidou-a para trabalhar junto com ele. Junto com Brian Hodgson, também do laboratório sonoro da BBC, compuseram as faixas “Love Without Sound” e “My Game of Loving” e assinaram contrato para um disco com a Island Records. An Electric Storm é o único disco do White Noise como grupo. Em seguida, passou a ser o projeto solo de Vorhaus, e lançou bissextamente White Noise 2 – Concerto For Synthesizer (1975), White Noise III – Re-Entry (1980), White Noise IV – Inferno (1989), White Noise V – Sound Mind (2000) e mais recentemente An Electric Storm Over Paris (2008). (RG)

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Pense em vanguarda misturada com humor caótico/dadaísta no final dos anos 60: alguém há de dizer Frank Zappa. Pense, uns dois anos depois, em fusão de estilos, rock, pop vagabundo, experimentação timbrística, flerte com eletrônicos, hiperfragmentação: alguém há de dizer Faust. Há outros “pense” possíveis em que as respostas seriam Silver Apples, Amon Duul, Can, Soft Machine, Henry Cow. Nenhum deles, no entanto, terá unido tão magicamente o lado mais experimental/laboratorial das técnicas vanguardísticas da época (manipulação de fita, osciladores, sintetizadores etc.) com o artesanato pop, fundindo-as tão bem de forma que um não seja mero auxílio luxuoso do outro ou, na via contrária, de forma que o pop pareça um elemento ridículo, de pura zombaria. Os três anos finais dos anos 60 contam com um insuperável manancial de obras-primas que ampliaram o máximo que puderam o formato da canção e as formas de arranjá-la, em raro e irrepetível equilíbrio entre acessibilidade e intensa experimentação. An Electric Storm participa certamente desse conjunto de discos, e talvez de todos eles seja o segredo mais bem escondido: não se chega a ele através do rock psicodélico à Love ou Jefferson Airplane, não se chega a ele através do Krautrock, não se chega a ele através do rock progressivo e tampouco de sua variante mais vanguardística, RIO. Só se chega ou por saudável acidente ou pesquisando a discografia dos experimentadores eletrônicos dos anos 60, graças à presença da pioneiríssima e hoje objeto de culto Delia Derbyshire.

A coisa mais difícil ao se ouvir An Electric Storm é acreditar que ele pertence a sua época. Não que ele não soe de 1969: há algo nas composições de pop grandiloquente, “sério”, típico da época, os barulhinhos eletrônicos remetem todos a esse período exato. Mas a forma como o processamento sonoro domina completamente o resultado final é inédita e pioneira, uma vez que as formas de produção-como-criação, ainda que já utilizadas por Beach Boys ou Beatles, ainda não atingiram a reputação que tiveram a partir de um Brian Eno com o Roxy Music ou, na mesma época mas de reconhecimento apenas posterior, de produtores de dub como Lee Perry ou King Tubby. As canções de An Electric Storm exercem, pelas melodias arcanas, pelas vocalizações não óbvias – às vezes mesmo descompensadas –, por uma acessibilidade misteriosa (pense “Some Velvet Morning”), uma estranha fascinação. Essas matérias-primas são o suficiente para esses cientistas loucos retalharem as tripas da canção, interromper seu fluxo para jogar vozes ou barulhos de sapateado, inserir esguichos de sintetizadores reverberantes, meter afeitos nas vozes, brincar com a espacialidade do estéreo. O resultado não é “não-canções”, mas canções aparentemente produzidas no espaço sideral.

A síntese perfeita entre ternura pop e sandice viajandona está nas duas músicas iniciais, “Love Without Sound” e “My Game of Loving”, que parecem ser tudo que o Broadcast – só para ficar entre os que melhor souberam se deixar influenciar por esse disco – quis fazer na vida. Nesta última, é comum a menção ao “orgasmo múltiplo” criado pela sobreposição de vozes mais para o final da faixa, mas cabe notar que ela não seria tão efetiva em sua fragmentariedade se antes não estivéssemos nos deliciando com a melodia de guitarra que abre a faixa ou a melodia vocal e sua variação reinterpretada por sintetizador. Se o lado A é a faceta pop, o lado B assume um lado mais laboratorial, com duas composições mais extensas em que os efeitos assumem proeminência, em especial na trip de bateria-e-efeitos intitulada “The Black Mass: An Electric Storm in Hell”, criada em apenas um dia para completar o disco, e – ainda que não idealmente – chamando atenção para uma faceta mais solta e quase improv do White Noise, remetendo até um pouco ao0 improv eletrônico do trio de Moritz von Oswald, por exemplo.

Há, hoje, uma outra forma de chegar a An Electric Storm. É através da ondinha atual do pop hipnagógico, em que artistas regurgitam o universo dos eletrônicos dos anos 60-70 seja à maneira do Tangerine Dream ou de outros alemães – como Oneohtrix Point Never, como Emeralds –, seja à maneira do BBC Radiophonic Workshop – em especial os artistas do selo Ghost Box.  Essa via, no entanto, nos parece de mão única: impossível pensar que alguém que ouve An Electric Storm vai ter paciência para passar novamente por Focus Group ou Belbury Poly. Como trocar a experimentação selvagem mas ainda assim calorosa, doce, do primeiro disco do White Noise por uma lógica de revisitação que em literatura não hesitaríamos em chamar de fanfic? Em todo caso, Vorhaus, Derbyshire e Hodgson não têm nada a ver com isso: fizeram uma obra absolutamente inovadora, diferente de tudo que se conhece e que serve de trilha sonora para imersão em qualquer território não desbravado, espaço afora ou espaço adentro, na nossa densa malha emocional. (Ruy Gardnier)

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Como é difícil e estimulante pensar a década de 60 ao largo de “transformações” e todo aquele blábláblá nutrido por movimentos sociais, alteração da consciência e Beatles. Pode ser mais que a verdade, mas onde está na década de 60 aquela sensação que hoje nós entendemos perfeitamente, que é a de estar vivendo, de fato, no futuro? Pouco se fala da década de 60 que foi vivida como presente, não como preparação para o futuro. Pelo menos do ponto de vista de um brasileiro, a quem o MP3 fez mais do que a própria escola, o ajuste adequado para se compreender aquela época despontou com a descoberta do kraut, do dub, da música eletrônica improvisada, do free jazz, da música africana e japonesa… Refém das publicações tupiniquins, mais preocupadas em criar repositórios culturais dos EUA e do Reino Unido do que em refletir de fato sobre a criação musical global, cansado de ouvir aquela velha lorota de que o punk salvou o mundo das garras institucionais do rock progressivo, que grande descoberta foi a de artistas que não só projetavam o futuro, mas o vivenciavam de forma plena e irrestrita. Não só o rock alemão, mas os experimentadores ingleses, trouxeram para nossa percepção histórica um grau a mais de verdade e realidade. Ok, essa consciência já não é tão nova. Mas escutar o álbum de estréia do White Noise me fez perguntar até que ponto essa história precisa ser recontada com urgência, se é que já não tem gente trabalhando nisso. A sensação de se escutar An Electric Storm hoje é no mínimo assustadora. Se me dissessem que o disco era da década de 70, eu já ficaria bastante surpreso. Mas não, é da década de 60! O que fazer com esse verdadeiro OVNI?

Formado a partir de um de experimentações laboratoriais desenvolvidas por David Vorhaus e Delia Derbyshire, o White Noise soa hoje como uma combinação riquíssima de sons de sintetizadores e apetrechos eletrônicos rudimentares com música psicodélica. Mas em algumas faixas, a balança pende um pouquinho para a primeira característica, sobretudo nas duas primeiras faixas, “Love without sound” e “My game of loving”, onde experimentos com vozes se insinuam por entre as canções, que soam como Beach Boys, Velvet Underground e Serge Gainsbourg. Da segunda, destaco a sequência com os gemidos sexuais, manipulados por câmaras de eco, trazendo um clima de lascividade explícita, muito incomum mesmo para a época da “revolução sexual”. Mas a partir da terceira faixa é que a coisa fica curiosa mesmo. “Here comes the Fleas” lembra muito The Books, pelo modo prodigioso com que combina excertos sonoros e os dispõe de forma fragmentária – se bem que uma canção como “Dom Quixote”, lançada anos antes, já explora colagens de forma bastante criativa e diferente… “The Visitations” incorpora toda a dinâmica de happening que caracteriza, por exemplo, uma faixa como “The Murder Mistery”, mas aditivada com os sintetizadores, enquanto “Black Mass: An Electric Storm In Hell” explora nuances sonoras dos sintetizadores a experiências de estúdio, aterando sons de tambores, de guitarras, etc. E será assim por todo disco, se eu não desistisse de considerá-lo simplesmente como um arroubo premonitório, e passasse a enxergá-lo mais como uma expressão de época, que, feliz ou infelizmente, chega até nós graças ao compartilhamento de MP3. Mas, que fique claro, uma expressão única, que por misturar música pop e experimentação eletrônica, acaba por nos sugerir ligações com o pop de hoje. Fica a certeza de que a obscuridade do White Noise é inversamente simétrica a sua influência hoje. Sua projeção do futuro é, também ela, produto de uma certa atualidade dos complexos anos sessentas. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 14 de julho de 2010 por em eletrônica, experimental, pop e marcado , , , , .
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